Já li o livro e vi o filme (323)


Pedro Correia,

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LADRÕES DE BICICLETAS (1946)

Autor: Luigi Bertolini

Realizador: Vittorio de Sica (1948)

O escritor ficou irritado com o guião do argumentista Cesare Zavattini, que alterou substancialmente o enredo. Foi irritação sem fundamento: o filme beneficiou muito com a mudança. Tornando-se expoente máximo do realismo social italiano que tantos cineastas influenciou e tanta plateias comoveu em todo o mundo.

9 comentários em “Já li o livro e vi o filme (323)”

  1. > o filme beneficiou muito

    O Gore Vidal confegabou-se de ter inserido uma tensão homoerótica entre Messala e Ben Hur, no guião do filme respectivo. Nada que o Charlton Heston desse por ela, ou os censores reparassem, naqueles dias finais dos anos 50, antes da democratização dessas coisas.

      1. Só outro caso de meter o dedo no guião, até sem mexer no enredo. E em vez de ajudar a intenção do escritor, neste caso está o Lew Wallace a puxar a conversa a Jesus, e o Gore Vidal a aludir à luxúria

  2. Imaginemos o drama desumano. Um intelectual, artista, homem de classe média vai dar uma volta e… roubam-lhe a bicicleta. Então o gajo transforma isto numa “aventura picaresca”, vai procurar a bicicletazinha pelas ruas, com muita “curiosidade e distanciamento”, a tentar perceber a “psicologia dos ladrões”. Basicamente, é um safari antropológico pela pobreza dos outros. Um verdadeiro herói.

    Depois chega o De Sica e o Zavattini, leem aquilo e pensam: “Eh pá que charopada, isto é insuportável. Vamos mas é meter aqui um desgraçado desempregado, com um filho pequeno a passar fome, onde a perda da bicicleta significa basicamente a morte lenta.”

    E o escritor coitadinho ficou irritado. “Ai, desfiguraram a minha obra!”.

    A verdade é que o De Sica lhe fez um favor. Se tivessem filmado o livro tal como o Bartolini o escreveu, com a sua fascinante “observação da sociedade” a partir do conforto de quem tem o frigorífico cheio, hoje em dia não tínhamos o símbolo do neorrealismo italiano. Tínhamos, na melhor das hipóteses, um episódio dos Morangos com Açúcar passado em Roma.

    Realmente é chato quando estragam um livro para fazer uma obra-prima. Ainda por cima quando o livro foi o ponto de partida para os outros brilharem… isso sim, é que é a verdadeira tragédia social.

  3. É bom recordar este facto (The Shining é outro exemplo de um excelente filme cujo autor do livro odiou) numa era em que se exige total e inequívoca fidelidade às fontes, literárias ou cinematográficas, de adaptações no cinema ou televisão. Como se a trilogia do Senhor dos Anéis não estivesse cheia de liberdades artísticas.
    Venha a Odisseia.

      1. Não sei porque nunca li. Mas o autor ficou tão irritado com a adaptação de Kubrick ao ponto de produzir e escrever ele próprio uma adaptação mais fiel, para tv. Com o sucesso conhecido.

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