7 comentários em “Palavras para recordar (80)”

  1. Balada do Culpado dos Afectos

    Foi precisamente no ano da pandemia,
    Que veio a verdade, dita com energia.
    Sem papas na língua e numa voz colossal,
    Surge o culpado por tudo o que corre mal.

    De braços abertos, em frente ao ecrã,
    Comenta de noite, prevê de manhã.
    Se o país empanca e a vida descamba,
    Lá está o Marcelo na corda bamba,
    A explicar ao povo, com grande aparato,
    Que a culpa de tudo ele assina no acto.

    Refrão:
    “O maior responsável”, diz ele a chorar,
    Enquanto uma selfie se põe a tirar.
    Se a sopa entorna ou se racha o teto,
    A culpa é do homem, o Rei do Afecto!

    Se o hospital fecha e o utente espera,
    Se a habitação virou uma quimera,
    Não culpem o Governo, guardem o rancor,
    O culpado supremo é o comentador!
    Ele assume o erro com pose sentida,
    Dá um mergulho em Cascais, e vai à vida!

    Em dois de novembro, foi consagrado,
    O manto do mártir foi nele deitado.
    “Se corre mal na pátria valente,
    A culpa é minha!”, diz o Presidente.
    E assim, num passe de pura magia,
    Absolve o executivo da sua agonia.

    Refrão:
    “O maior responsável”, diz ele a chorar,
    Enquanto uma selfie se põe a tirar.
    Se a sopa entorna ou se racha o teto,
    A culpa é do homem, o Rei do Afecto!

    E assim Portugal, num transe profundo,
    Tem o culpado mais fofo do mundo.
    Não muda uma lei, não dita um destino,
    Mas chora as fraquezas do povo pequenino.
    Ganha o prémio do azar, o troféu do pior…
    Viva o culpado, o nosso comentador-mor!

  2. Esta balada do Carlos Sousa acompanhada à guitarra dava um fado, disco de ouro logo após o lançamento.
    Espectacular, tenho pena de não saber compor, no que toca a música só sei ouvir, se não propunha uma parceria ao Carlos e seguia directo para o estúdio de gravação.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *