Da praxe


Ana Cláudia Vicente,

Não sei se é tabu, mas há uma praxe triste – ritualmente repetida e pouco reportada – na vida de muitas escolas portuguesas que neste ano lectivo coincidiu com a morte de  José Saramago, escritor que aprendeu à sua custa, já crescido,  tanto do  muito que não pôde em miúdo. Dou por isto  há pelo menos vinte anos, mas se calhar acontece há mais. Falo da queima e rasganço de manuais (e cadernos, e livros) frente aos portões principais, na aproximação às férias. Se quem o faz tem a total noção do que expressa –  nem todos ouviram falar do tempo em que esses livros passavam de uns irmãos para os outros, encadernados com cuidado – é difícil saber; mas não me parece  que se acenda um isqueiro para um gesto de desprezo desses sem o mínimo de percepção do que se está a fazer. Falta muito para sermos um país com amor ao saber, por isso é melhor não perdermos mais tempo.

10 comentários em “Da praxe”

  1. Exactamente. Esse tipo de imbecilidades a que abusivamente chamam praxe académica é bem o espelho do grau de cultura com que hoje se chega ao ensino mais avançado.
    A praxe sempre foi um exercício mordaz com tendência para passar os limites, mas nunca com agora, em certos locais. É tudo muito básico e primitivo.
    A forma como o humor se manifesta é dos indícios mais reveladores do nível de ‘lavra’ mental das pessoas…

  2. Excelente texto. Tens toda a razão, Cláudia. Esta é uma das facetas mais estúpidas das praxes, promovendo o culto da imbecilidade. Como se isso fosse preciso, num país como o nosso. E gostei da associação que fizeste ao Saramago, que em jovem não estudou mais porque não teve possibilidades. Ao contrário destes, que queimam cadernos e livros.

  3. Ainda tenho os meus livros todos… já dos apontamentos não posso dizer o mesmo, porque a partir da universidade as minhas notas tornaram-se erráticas e desorganizadas – como eu, aliás. Desconhecia por completo esta prática.

  4. Estou chocada, não fazia ideia de que existe essa praxe nas escolas. Tens tanta razão! O gesto é sintomático do nosso desprezo pela aprendizagem, num país em que a iliteracia é mascarada com passagens administrativas para as estatísticas comunitárias. Parabéns pelo texto.

  5. Devo esclarecer, já agora, que (enquanto aluna, professora e simples transeunte) assisti sempre a estes actos à porta de liceus/escolas básicas+secundárias. Na universidade nunca assisti a esse exercício, não sei se acontece. Penso que os rituais de passagem têm importância, mas entre o rito e (como diz a Chloé) o primitivismo auto-satisfeito vai (ou deveria ir) uma grande distância.

    1. Por falar em praxes (no sentido literal: actos, práticas habituais), anteontem mostraram-me uma fotografia acabada de tirar a um menino que terminou nesse dia o último ano da pré-escolar, vestido num fatinho preto académico (incluindo aquela espécie de cartola à americana) e de diploma em riste. Há uns anos soube de uma viagem de finalistas do 4º ano do 1º ciclo. Está tudo doido.

  6. Desconhecia totalmente este acto bárbaro a que alguém chama praxe e eu penso que só pode chamar-se estupidez. Num país onde os níveis de literacia e aproveitamento escolar são aquilo que se conhece, onde os manuais escolares – além de custarem os olhos da cara – são actualmente uma autêntica indústria e o ‘negócio da china’ que também são conhecidos, onde devia ser incentivada a prática da entrega dos livros no final de cada ano lectivo, em bom estado, a fim de se receber os do ano seguinte, deveria ser considerado pura e simplesmente criminoso permitir um ‘divertimento’ destes. Isto demonstra bem o amor dos portugueses à cultura e a conveniência de se continuar este vergonhoso estado de coisas, no qual, quantos mais manuais se estragarem, melhor para o grande negócio das editoras. Nos países civilizados, os livros escolares são considerados um património público gerido pelas escolas e é incentivada a prática que acima referi. Por cá, é o que se vê.

  7. Desconhecia tal barbaridade. Qual é a responsabilidade dos agentes escolares. As escolas permitem e, se não permitem, reportam tais factos aos superiores hierárquicos? Isso aconteceu aonde e acontece com que frequência? Isto merece/deve ser denunciado, caramba!!!

    1. Luís R. F., O.C.M.,

      Seguramente haverá relatos de ‘fogueiras’ e ‘rasganços’ semelhantes em diferentes pontos do país, mas penso que os adultos que assistem a isto se sentem tristes mas não indignados o suficiente para reportarem a instâncias superiores. Com também não reportam alguns ajustes de contas de fim de ano lectivo de alunos com funcionários e professores (envolvendo cuspidelas, sopapos, portas de carros riscados). O pior nisto é a indiferença que se instalou. Vai ser precisa uma considerável mudança de mentalidades para deixar de considerar banais estes actos de violência material e simbólica.

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