EDUCAÇÃO
LEGISLAÇÃO INCONSEQUENTE E CONTRADITÓRIA
Em 2004, o professor em Ciências de Educação Jorge Adelino Costa publicava para a Universidade de Aveiro o estudo: “Construção de projectos Educativos nas Escolas: Traços de um Percurso Debilmente Articulado”. Neste documento, de que retiro alguns tópicos, faz-se a exposição crítica e bem fundamentada do caos legislativo por que sempre se pautaram as reformas da Educação. Jorge Adelino Costa à medida que vai citando diplomas legais cujos efeitos se anulam, escreve que a legislação produzida é “inconsequente e contraditória”, revelando “problemas de consistência interna de documentos, falta de hierarquização de necessidades e de definição de estratégias”. O estudo debruça-se sobre as décadas de oitenta e noventa, períodos em que tomaram assento no Ministério da Educação ministros dos dois partidos de poder.
Percebe-se neste estudo que há dez anos já os responsáveis pela pasta da Educação falavam da necessidade de “responsabilização das comunidades educativas”, da “descentralização e autonomia das escolas“, “autonomia, gestão e administração escolar“. Estas intenções eram anuladas sistematicamente, segundo demonstra Jorge Adelino Costa, por “desarticulação legal, redundância de conceitos e duplicação de documentos“. Do caos normativo resultavam “situações de desarticulação e descoordenação decisional, associados a processos de canibalização dos documentos em causa”. Segundo Jorge Adelino Costa, desta forma os “projectos educativos das escolas foram reduzidos a cartas de intenção ocasionais”. Na prática “são documentos vazios de opções e estratégias educativas”.
Não é de estranhar que muitos dos despachos que o investigador cita sejam sobre matérias que ainda hoje se discutem como se fossem iniciativa do governo em funções. Verdadeiramente demolidor, este estudo pode ser consultado na íntegra aqui.
MUITOS MINISTROS
Dos 27 ministros que passaram pelo Ministério da Educação depois do 25 de Abril, só três (Roberto Carneiro – 1987 – 91) Marçal Grilo (95-99) e Maria de Lurdes Rodrigues (2005-09) terminaram o mandato.
MUITOS FUNCIONÁRIOS
“Monstro” foi uma expressão popularizada por Cavaco Silva ao referir-se à Administração Pública, mas também se colou rapidamente ao Ministério da Educação quando foram divulgados os quadros de pessoal de cada um dos ministérios. Soube-se que o M.E. estava no top, com mais de 200 mil funcionários, deixando a larga distância o segundo do ranking, o Ministério da Saúde, com cerca de 112 mil – estes números foram divulgados nos jornais, nomeadamente no caderno de Economia do Expresso, a 20.9.2006.
MUITA DESPESA
Portugal acima da média nas despesas públicas com a Educação.


“Portugal acima da média nas despesas públicas com a Educação”. Palavras para quê? é um artista português e usa pasta medicinal couto…
Na Educação como em muitas outras coisas, o nosso principal problema não é, necessariamente, a falta de dinheiro, Ariel.
Claro que não Teresa, sublinhei a frase porque há por aí muito artista português a querer tapar do sol com a peneira…
:)))
Sem palavras.
Sem palavras? Tu? Então isto ainda é mais grave do que eu pensava 😉
Podes crer. Tu e o Medina Carreira estão bem documentados sobre esta área, onde se passam muitas das coisas mais assustadoras que o regime tem alimentado.
Quem também sabe bem disso é o Guilherme Valente, da Gradiva.
Meu Deus, Teresa, reconheço que esta tua série é fundamental para sabermos todos com que linhas andamos realmente a coser-nos, e tiro-te o chapéu por fazê-la sem hesitações, com esta persistência e qualidade. Mas o quadro é tão deprimente que já reforcei os pulsos com pulseiras de aço, por causa das tentações…
Acho que nunca vi shit tão deep como ultimamente!
Não é para nos deprimir que ando a pescar à linha estas pérolas, Ana. O meu objectivo é incomodar quem se esforça por imputar responsabilidades apenas a um dos partidos do poder pelo estado a que chegámos. A memória é muito inconveniente para quem gosta de pautar os seus juízos pelas suas simpatias partidárias.
Esta questão da educação é um excelente Tema da Semana aqui no blogue, Teresa. Trazes aqui contributos muito importantes nesta investigação que fizeste. O ideal seria que funcionassem como ponto de partida para uma discussão mais vasta. Pela minha parte, tentarei dar um contributo.
Obrigada, Pedro. As crises têm ao menos este lado positivo: estimulam a discussão pública de matérias fundamentais. Só pode ser bom.