Os filmes da minha vida (3)


Pedro Correia,

 

ESPLENDOR NA RELVA:

NADA É ETERNO COMO O AMOR

 

«És feliz?», pergunta Deannie Loomis a Bud Stamper na cena final de Esplendor na Relva, filme belíssimo que me deixa sempre atordoado.

Elia Kazan foi o cineasta que melhor soube mostrar a sucessivas gerações de cinéfilos como é possível filmar um tema tão complexo – o fracasso das relações amorosas face às mil armadilhas do quotidiano – com uma sensibilidade ímpar que nem a mais eficaz das ficções televisivas consegue imitar. Há no olhar pungente de Deannie (Natalie Wood), nessa cena crepuscular, toda uma gama de emoções que daria para encher uma biblioteca inteira.

Passam os tempos, mudam as modas, e este tema permanece tão actual como os títulos dos jornais desta manhã. «Não costumo pensar muito nisto» é a resposta que lhe dá um embaraçado Bud (Warren Beatty), confrontado com os estilhaços daquela relação, desde o início cercada por condições adversas que a condenaram à extinção.

Ou talvez não. Quando as palavras The End iluminam o ecrã, pressentimos afinal que aquele amor será eterno – mesmo com Bud confinado à prosaica quinta do Kansas natal, amarrado a uma mulher que o destino escolheu por ele, e Deannie desterrada em Cincinnatti, presa a um casamento que lhe serve de suave sucedâneo ao suicídio que não a deixaram consumar. Resta-lhes o esplendor na relva que partilharam na idade de todas as ilusões e neles perdurará como um signo de eternidade.

Nelson Rodrigues, que talvez nunca tenha visto esta película mas conhecia como ninguém os enredos da vida real, sabia do que falava quando escreveu: «A única coisa que dura para além da vida e da morte é o amor.»

Isto Kazan não mostra. Mas está lá. É por isso que amarei este filme até ao fim dos tempos. Como Ruy Belo, também «Eu sei que Deannie Loomis não existe / Mas entre as mais essa mulher caminha / E a sua evolução segue uma linha / Que à imaginação pura resiste.»

 

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Esplendor na Relva (Splendor in the Grass, 1961). Realizador: Elia Kazan. Principais intérpretes: Natalie Wood, Warren Beatty, Pat Hingle, Audrey Christie, Sean Garrison, Sandy Dennis

16 comentários em “Os filmes da minha vida (3)”

  1. Gostei muito desta evocação, Pedro. Vi este filme na exacta altura em que precisava dele, o que nem sempre acontece. Também sobre essa experiência [a da justeza do tempo em que (vi)vemos um determinado filme] haveria que dizer; quem sabe adiante.

    1. Tens toda a razão, Cláudia. A valorização que fazemos de um filme também depende muito do contexto em que o vemos. Falarei disso numa das próximas segundas-feiras, noutro texto que já tenho pronto a editar.

  2. Muito,muito bem escrito! Incrivel como conseguiu ver esse toque de “optimismo”, nas cenas finais.Eu deixo de ver o filme muito antes do “the end”, porque acho muito triste.Mas pr’a próx. vou ver! 🙂
    Reparei que este é o n.º 3 da série- qual é o n.º1? E como o encontro, aqui no blog?

    1. No fundo do ‘post’ está a palavra ‘tag’. No caso, clique em «filmes da minha vida».
      Cada ‘tag’, quando marcado, conduz a todos os ‘posts’ gravados com o mesmo assunto.

    2. Obrigado, Rosa. O João já respondeu por mim. O primeiro filme desta série foi ‘Os Inadaptados’ (‘The Misfits’), o último protagonizado por Clark Gable e Marilyn Monroe.

  3. Deannie grita na assombrosa cena da banheira “No, I’m not spoiled !” E desse grito, tão telúrico, às suas palavras inócuas do final do filme, vai “uma linha de evolução”, como diz o poeta. Gravada a ferro. Sobre a pele e sobre a alma. É esse linha, dolorosa e “discreta” que nos faz amar tanto estas personagens. E torna este filme tão vital.

    1. Essa cena é maravilhosa. Não era necessário mais nada para confirmar Natalie Wood como uma fabulosa actriz, atributo que alguns críticos se atreveram a contestar. Como se talento e beleza fossem realidades incompatíveis.

  4. Um daqueles sítios em formato de filme ao qual é necessário voltar. É essa a magia dos filmes da nossa vida: O fazer acontecer do outro lado do espelho e sem inversão, de alguns pretéritos e outros tantos sonhos. Que até então pensamos ser só nossos.

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