Fim-de-semana (não ponte) na aldeia. Como de costume, sem acesso à internet ou a televisão por cabo, e com uma rede de telemóveis muito fraquinha. No sábado, à hora do jantar, a televisão está ligada na emissora pública, que dedica o noticiário inteiro a um único tema. É a selecção de futebol a deixar o centro de estágios em Oeiras. É a selecção de futebol no autocarro. É a selecção de futebol a chegar, ainda no autocarro, ao Parque Eduardo VII. É a selecção de futebol a sair do autocarro, com os jornalistas a perguntarem ao Eduardo (guarda-redes) como estão as mãos. É a selecção de futebol a subir ao palco onde, momentos antes, actuara Tony Carreira para uma multidão de, dizem, oitenta mil pessoas. Tenho vontade de dar um murro na mesa. O meu pai pergunta-me: será que nos outros países é a mesma palhaçada, com directos e tudo?
Fica a pergunta. Também estou muito curioso.
Na falta de tecnologia na aldeia, já agora, salvam-se as minis a cinquenta cêntimos, indispensáveis para aguentar o calor alentejano e a silly season nacional, que – será impressão minha? – a cada ano parece começar mais cedo.

É a temporada preferida de qualquer governo, John. O país está de costas.
Já que falaste no autocarro, de tudo o que já vimos e do que ainda estaremos para ver, há um detalhe que me ficará gravado: no curto trajecto de alguns minutos seguramente projectado há muito, com batedores e escolta de polícia, o que teria levado o autocarro a parar numa bomba de gasolina para reabastecimento?
O patrocínio da Galp. Devem lá ter ido buscar vuvuzelas.
És capaz de ter razão. Mas levar vuvuzelas para a África do Sul não é como levar bananas para a Madeira? Talvez tenhas mesmo razão…
De facto, levar vuvuzelas para a África do Sul será o equivalente a levar bananas para a Madeira… e como fazer directos a dizer “a selecção chegará aqui a qualquer momento”. 🙂
Pois é. E em Setembro o país vai acordar com uma valente ressaca.
Não há paciência!
É que não há mesmo, Teresa. Aquele telejornal foi terrível.
De facto assisti um pouco a todo aquele folclore, era demais o histerismo dos jornalistas principalmente o da TVI.
Quando eram meia dúzia de gatos pingados, diziam centenas.
Quando eram algumas dezenas, abriam aquela boca anunciando uma enorme multidão.
Depois claro, aproveitaram o concerto do Tony que actualmente enche os espaços onde actua, para bradar aos sete ventos que são 80 mil , 80 mil . É a loucura total a apoiar a selecção.
E no final levamos com as declarações dos jogadores em pleno palco, com a maioria deles a terem comportamentos de autenticas crianças, em brincadeiras infantis, enquanto os colegas falavam para milhões de portugueses.
Todos os jornalistas pediam quase de joelhos que Queiroz dissesse o bombástico: vamos ser campeões!
Era a cerejinha no bolo para as estações televisivas. Mas o homem foi inteligentemente comedido………….
Nessa altura dos comportamentos infantis acho que já tinha ido para as minis. Não havia paciência para aquilo… nem a paciência de um alentejano!
Mas ainda bem que Carlos Queiroz foi comedido. Haja alguém.
Começo a achar que nem saímos da silly season, João, mas este ano promete.
De facto… entre Setembro do ano passado e Junho deste ano, a silly season parece não ter terminado…
Como estou aqui pertinho de Badajoz volta e meia vejo os canais espanhóis pelo que posso esclarecer que não. Lá não é o mesmo circo mediático à volta da selecção. Lá as notícias de desporto ficam na rubrica de desporto e só muito raramente abrem um telejornal, assim tipo como quando ganharam o europeu.
Espanha – 1 ; Portugal – 0
João aconteceu o mesmo comigo, fim-de-semana, na aldeia…concordo consigo e acho que é fantochada a mais, penso que os rapazes são atletas e vão para uma prova, todo o tempo é pouco para treinarem…não entendo estas coisas de festas e vuluzelas (?) ou vuvuzelas?
Mas eu, ainda consegui ouvir as rãs a coaxar, o cantar dos grilos, o grito arrepiante do mocho, enquanto batia as asas á minha frente, estrelas cadentes no céu maravilhosamente estrelado enquanto deitada na espreguiçadeira, percorria a área a contar as ” cadentes”, e o som do silêncio sem as vulu…
Ao longe existem uns ” salpicos ” de luzinhas,cada um, uma aldeia e os ruídos que nos chegam de lá são tão esbatidos e imperceptíveis que só tocam muito leve e suavemente os tímpanos.
Os únicos seres que comunicam mais ruidosamente na noite, são os cães, esses sim parecem comunicar com os cães das outras aldeias.
PS. ah e também temos as minis e os caracóis. A crise? ah essa é para a malta de Lisboa que tem tempo para essas coisas, não vamos perturbar a paz destas aldeias…
Este ano, de facto, ainda não saímos da estação pateta. Haverá patetice maior do que o “gabinete do primeiro-ministro” tentar impingir aos jornalistas que o Chico Buarque rebentava de curiosidade por conhecer um tal de Sócrates que nunca jogou na selecção brasileira?