‘Artitectura’: os mal-amados (17)


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Tancící dum

(Dancing House),

em Praga

(República Checa)

A Tancící dum — ou Dancing House — é o nome de um edifício no centro de Praga, junto do Rio Vltava, projectado em 1992 pelo arquitecto checo Vlado Milunic e pelo celebrado arquitecto canadiano Frank O. Gehry.

  

Foi Gehry a baptizar inicialmente o prédio como Astaire & Rogers Building e ainda hoje muitos lhe chamam o Fred and Ginger, em memória da famosa dupla Fred Astaire e Ginger Rogers. Isto por se destacarem no edifício duas torres arredondadas que podem sugerir (com algum esforço) a metáfora: uma torre-macho, de ar elástico e encimada por um efeito de cabelo imaginário, e uma torre-fêmea (de vidro), magra e mais ondulante, que formam como que um par de dançarinos.

Os interiores são maioritariamente da arquitecta britânica de origem checa Eva Jiøièná e a obra foi inaugurada em 1996.

 

É preciso que se diga que a construção não sacrificou qualquer edifício histórico. O casarão pós-renascentista de finais do século XIX que ali existiu fôra destruído durante o bombardeamento de Praga por aviões dos EUA, a 14 de Fevereiro de 1945. Em 1992, o terreno ainda devoluto foi comprado pela companhia de seguros holandesa Nationale Nederlanden, que seleccionou o trabalho do arquitecto checo e para o qual foi pedida a colaboração de Frank Gehry, cuja intervenção incluiu as torres-dançantes.

A Dancing House é um edifício de escritórios, caro e apetecível, com um café e snack-bar e, na cobertura, um dos mais apreciados restaurantes da capital checa, o Celeste Restaurant, com a sua cozinha francesa e um terraço de onde se desfruta uma bela vista do rio, da cidade e do magnífico Castelo de Praga.

 

Há que reconhecer que o prédio tem a seu favor a volumetria, que não choca com as construções antigas que o envolvem. As pessoas já se habituaram à sua presença e os visitantes olham-no com um misto de estranheza e apreço. Não foi por acaso que a revista Time lhe dedicou o prémio da categoria de design em 1996. Contudo, durante a construção, gerou uma enorme polémica que varreu tudo quanto é comunicação social.

Não devemos esquecer-nos de que Praga — conhecida como a “cidade das cem cúpulas” e famosa pelo seu vasto património histórico e vida cultural a emoldurar as margens do sinuoso Vltava e das suas muitas e antigas pontes — tem um centro histórico classificado como Património da Humanidade pela UNESCO em 1992, precisamente quando o Fred and Ginger começava a sair do lápis para emparceirar com uma vizinhança conservadora. Por isso, a discussão foi longa e acesa, mesmo depois da inauguração e de ter sido cunhada uma moeda de ouro alusiva à obra.

Ainda hoje há quem insista em trocar-lhe o nome de Dancing House por Drunken House, designação pouco edificante que pegou e não descola…

27 comentários em “‘Artitectura’: os mal-amados (17)”

  1. A estes já os conhecia e acho-os apenas curiosos pelo seu carácter insólito. Julgo que era uma coisa parecida com isto que o Santana queria que o Gehry projectasse para o Parque Mayer. Eeheheh…

  2. A imagem nocturna com o edifício iluminado é bastante sugestiva, já de dia tem um efeito estranho, parece que se está a desconjuntar por ali abaixo. E não me parece que o nome cole, para ser torre dançante teriam de dançar os dois ou as duas…
    :))

  3. Este conheço ‘in loco’. E bem. Tornou-se logo uma atracção turística e poucos visitantes se demoram hoje em Praga sem ver “Ginger e Fred”. Aconteceu-me isso também. E gostei de ver. O “diálogo” do moderno com o antigo, neste quarteirão da capital checa, resulta em pleno.
    Quanto à polémica, ela existe sempre perante o que é novo, aparentemente insólito e nos fere a vista habituada à paisagem de sempre: relembro a polémica enorme – que durou largos anos – em Paris a propósito da Torre Eiffel, que “desfeiava o horizonte” e, entre nós, a da construção do Centro Cultural de Belém, tão perto dos Jerónimos, com as eternas carpideiras lusitanas a chamarem-lhe “Centro Comercial de Belém”.

    1. Como a volumetria ajuda, também acho a ideia interessante. E tens carradas de razão, no que respeita a polémicas sobre qualquer mudança.
      Tenho de dizer que, ao contrário de ti, ainda não estive lá, mas lembrei-me de que falarias com conhecimento de causa quando estava a preparar este ‘post’.

  4. Dancing House parece-me perfeito. Sem esforço acolho a metáfora: uma figura feminina ondulante a sugerir de forma sensual uma dança ao seu companheiro hesitante.
    Um design apelativo, sem dúvida.

  5. Eu até sou a favor do arrojo arquitectónico – mas isto parece um prédio manhoso da Almirante Reis. Tem aquele ar “suburbano” e tristonho com uma pitada valente de Côrte-Real. São experiências que esquecem o essencial: que a arte da paisagem, chamemos-lhe assim, não deve ser individualista – porque senão cai sempre no kitsch e no mau-gosto. My two cents.

  6. Também vi este “ao vivo” e gostei. E não me parece que ter um edifício de Frank Gehry no Parque Mayer fosse má ideia, muito pelo contrário.
    Praga é uma cidade lindíssima, mas quem é que ia a Bilbao antes de lá se fazer o Guggenheim?

      1. Concordo com a Ana. A Ginger está muito espremidita para um Roger tão volumoso, parecem o Bucha e o Estica… E deve ser um bocado complicado arrumar a mobília naquelas salas…
        Não conhecia. As coisas que V.Exa descobre!… 🙂

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