Leituras


Pedro Correia,

“Como ‘lente’ analítica, o marxismo nunca fez sentido. O génio de Marx residiu na forma como soube construir uma ‘religião política’. (…) Ou seja, o marxismo até pode ser um desastre analítico, mas é um notável milagre teológico: Marx conseguiu colocar ateus a acreditar que um Armagedão industrial vinha a caminho. (…) Eis, portanto, o génio de Marx: criou um Apocalipse com patente científica; teceu uma estranha fé que interliga o calor íntimo da religião com a carapaça fria da pseudo-ciência. Os factos sempre negaram o marxismo, mas os marxistas permaneceram imperturbáveis na sua fé. Como é natural, quem sente Marx no coração não precisa de rigor factual.”

Henrique Raposo, A Caipirinha de Aron (Bertrand, Lisboa, 2009)

2 comentários em “Leituras”

  1. Apesar de ser uma análise necessariamente muito simplista, não deixa de ter uma boa parte de verdade. Não é por acaso que se diz que Jesus Cristo teria sido o primeiro comunista. A mensagem era dirigida ao mesmo tipo de pessoas que a do marxismo, sendo que a maior diferença se situava no facto de a recompensa só surgir no paraíso e não na Terra. O simples facto de Marx “prometer” um paraíso terrestre assegurava uma forte aderência de quem pouco tivesse a perder, desde que a mensagem fosse bem ancorada noutros pressupostos, habitualmente nacionalistas.

    O curioso é que os comunistas frequentemente gostam de ignorar o desfecho final da mensagem de Marx, a qual (salvo erro) determinava que no final do processo de evolução do comunismo, o peso do Estado diminuiria grandemente e a economia assumiria contornos muito liberais. Fazia sentido, dentro da argumentação usada. O problema do marxismo está menos na sustentação teórica do que nos pressupostos. E foi essa a sua grande tragédia.

  2. Sem te ter lido, o meu post de hoje também fala de Marx. Uma coincidência engraçada.
    Marx sabia, como sempre o souberam também todos os líderes religiosos, que só pela fé e pelo temor de acontecimentos transcendentes se mantém um povo dominado e obediente. Enquanto aparentemente combatia a religião, não deixava de usar as mesmas estratégias e abordagens que ele sabia testadas e comprovadas ao longo de toda a história da humanidade. Genial, de facto, o prato de sempre servido com outro tempero.

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