Os meus filmes (nota de rodapé)


eventhorizon,

A propósito dos comentários do Pedro a este post, e da série que tenho vindo a publicar aqui no Delito:

 

O primeiro filme que vi em “cinema” foi, muito apropriadamente, Jurassic Park (Steven Spielberg, 1993), numa sessão que um senhor lá da aldeia, conhecido no Baixo Alentejo pelas suas sessões de cinema ambulante, organizou na Casa do Povo. Ou seja: numa sala sem acústica, com cadeiras de pau (todas diferentes), com janelas sem portadas (a sessão foi à noite, mas a iluminação da rua continuava a entra na sala), e com o projector montado no palco, a projectar para a parede, sobre a porta principal do salão. No topo da parede, havia dois respiradouros; a imagem projectada encaixava entre esses dois buracos, e os buracos, muito apropriadamente, “comiam” os dois cantos superiores da imagem. Enfim, era o que se arranjava. Jurassic Park passou lá no ano de estreia; um feito notável, que levou a aldeia em peso à Casa do Povo. Do mal o menos: a parede, apesar dos buracos, sempre estava pintada de branco; a péssima acústica da sala até dava um ar mais tenebroso aos rugidos do T-Rex; e eu podia assistir ao filme sentado no palco, encostado ao suporte do projector (o ruído da bobina era chato, mas após um quarto de hora já nem reparava nele). Até me mudar para Lisboa, em 2003, o cinema a que assisti consistiu nas escassas sessões ambulantes lá na aldeia (que acabaram no final dos anos 90, e me permitiram assistir a filmes como Ases pelos Ares 2 ou Sozinho em Casa 2 – não se riam, que estes dois ao menos são divertidos, e passou por lá muito pior), e nas poucas oportunidades que tive para ir a uma sala de cinema com condições mínimas, durante visitas de estudo durante o Secundário. De resto, nunca tive lá na aldeia nenhum aparelho de vídeo, computador ou ligação à Internet. Isto para dizer que, até aos dezoito anos, a minha “cultura cinematográfica” resumia-se àquilo que conseguia ver na televisão generalista (também não havia cabo para ninguém), o que para todos os efeitos é pobre em qualidade e quantidade. Dito de outra forma: muitos dos filmes sobre os quais tenho falado não vi em cinema, ou por serem anteriores a mim, ou por nunca ter tido coportunidade de os ver no grande écrã. Star Wars, por exemplo, vi pela primeira vez há um par de meses (não exagero), quando um amigo me emprestou a trilogia original, em DVD.

 

De 2003 a esta parte, felizmente, a coisa melhorou: os DVD são hoje mais acessíveis, um pequeno curso de Guionismo durante os tempos de universidade, leccionado por Mário de Carvalho  (o escritor; e, acrescento, um excelente professor) fez-me descobrir filmes excepcionais, muito anteriores a mim (The Night of the Hunter, de Charles Laughton, é hoje um dos meus preferidos, tal como Barry Lyndon, de Kubrick); e, por acaso ou por dedicação, já vi muitas coisas que não sonhava existirem.  Continuo a ter muitas falhas, é certo, mas resolvê-las agora será mais uma questão de tempo que de oportunidade (e de combater a preguiça, que é muita). Enfim, saí da aldeia. Por vezes acho que a aldeia é que nunca saiu de mim, apesar da nossa relação  de “amor-ódio”, mas isso é assunto que talvez fique para outro dia.

14 comentários em “Os meus filmes (nota de rodapé)”

  1. João, eu não estava na aldeia, mas o meu primeiro filme também foi visto numa sala grande da colectividade onde morava, e imagine levei logo com uma cena fortíssima de tiros e vaqueiros endoidecidos a ” esvoaçar ” pelo ar.
    Parecia que o edifício era frágil demais para aguentar o tiroteio do Terence Hill, o comboy insolente… eu até entendo que o meu pai amasse aquele rapaz endoidecido que de pistolita em punho fazia florescer o negócio dos coveiros, mas para primeiro filme acredite, foi mesmo uma dose forte.
    Claro que se fosse hoje qualquer pequeno de 3 anos rebolava a rir.
    Isto tudo para dizer que, também não deve exagerar, considerando esse facto como uma grande falha na sua vida, provavelmente não estava a ver filmes mas a viver a vida com bastante intensidade, não?
    Eu também vim, de uma aldeia no Baixo Alentejo, quando tinha 2 anos, mas acredite que também sinto, usando a sua expressão que” a aldeia nunca saiu de mim ” e ainda bem.
    Talvez volte para lá um dia (o sonho de todos os desenraizados)sinto falta do cheiro…mesmo que sem cinema, mas com umas malinhas de livrinhos…

    1. “Intensidade” e “Alentejo” são expressões opostas 🙂

      Agora a sério: não acho que isso seja uma “grande falha na minha vida”; tenho mais pena de nunca ter visitado o Porto com tempo do que não ter visto O Silêncio dos Inocentes. Apenas queria dizer que a minha lista tem algumas omissões que se devem ao facto de eu não ter visto alguns filmes considerados importantes no género. Mas no fundo, foi um pretexto para escrever sobre a aldeia.

      Mas lá nunca tive a sorte de apanhar filmes do Terrence Hill. Gosto muito dos filmes dele, sobretudo quando contracena com Bud Spencer.

      1. Intensidade e Alentejo expressões opostas ?? Pois eu acho o contrário. Olhar aquela paisagem,por exemplo do alto de Evoramonte, dá-nos uma medida de grandeza e beleza que só podem ser definidas como…intensas !!

        E o calorzinho numa tarde de Julho na Amareleja ou em Barrancos ?? Intenso, ora essa !!

          1. João, a palavra ” intenso ” tem mesmo muita aplicação pelo Alentejo fora, pelo que a expressão ” intensidade e Alentejo – expressões opostas ” quase denota (perdoe a sinceridade)um certo ” mal estar ” em relação a essa área do nosso mapa.
            Terá com toda a certeza razões para isso que não interessa aqui discutir, mas tal como Fernando Antolin com quem não posso estar mais de acordo, partilho esta intensidade relativamente ao Alentejo.
            Lembro-me de uma certa vez, ao cair de um dia de verão, junto ao castelo de Juromenha, olhar para baixo, para todo o vale, ver o rio a passar pequenino em jeito de serpente, os ruídos ao longe a fazer eco, posso garantir-lhe que se isto não é intenso…
            Vou perdoar-lhe porque só pode ter sido uma pequena distracção…

          2. Amigos, estava mesmo a ser irónico, a brincar com o nosso estereótipo. Não tenho qualquer mal-estar para com o Alentejo, que é a minha terra. Deixava Lisboa e voltaria para lá amanhã, assim houvesse oportunidade.

  2. João, o DVD ajuda bastante, mas também se arranja muita coisa boa em torrents, especialmente quando o objectivo é procurar coisas mais antigas (a forma como tenho conseguido arranjar muitos filmes da década cinematográfica do Pedro Correia – a de 50). Se precisares de ajuda a procurar alguma coisa estarei disposto a dar uma mão. O mesmo para filmes em DVD que, na Holanda onde moro, são muito mais baratos e estaria até disposto a enviar para Portugal para ajudar mais um “irmão cinéfilo”.

    Abraço

    1. O problema é que eu apenas disponho de um computador portátil, e “aborrece-me” ver os filmes naquele écrã. Mas sim, volta e meia dou-lhe uso. O The Night of the Hunter foi assim… que remédio!

      1. E televisão, há? Muitas vezes têm uma entrada que pode ser usada para ligar ao computador, seja a SVideo ou a de AV. Já daria para desenrascar e melhoraria a experiência. No meu caso confesso que com a televisão mais moderna que ali tenho consigo ver os filmes passando-os para um stick USB e vendo-os na televisão. E aquela foi comprada especificamente para poder ver bons filmes em DVD e pela possibilidade de ligar o USB, de outra forma mantinha-me com a velhinha…

        1. Televisão há… mas é das velhinhas. Como dizia o Camilo, “a vida está difícil!”

          O meu grande problema, na verdade, chama-se preguiça. Se a história dos pecados mortais se confirmar, só com este eu estou feito ao bife..!

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