O fim do sonho em seis segundos


Pedro Correia,

Sessenta anos depois, o mistério permanece. Quem foi o cérebro do assassínio de John Fitzgerald Kennedy? O 35.º presidente dos Estados Unidos terá sido vítima de um psicopata de 24 anos, munido de uma espingarda de 12 dólares que o alvejou com três tiros certeiros ao fim da manhã de 22 de Novembro de 1963 em Dallas, pondo fim em seis fatídicos segundos ao sonho americano?

Poucos acreditam hoje nesta versão do atirador solitário, tanto mais que o suposto homicida, Lee Harvey Oswald, viria por sua vez a ser assassinado, dois dias após a morte de Kennedy, na própria sede da polícia de Dallas por um indivíduo ligado à Mafia, chamado Jack Ruby.

A verdade é que nasceu aí a chamada “maldição Kennedy”, que viria a fazer outras vítimas. Três delas mulheres de algum modo ligadas ao jovem presidente que permaneceu apenas 1037 dias na Casa Branca.

 

A primeira foi amante de Kennedy entre 1961 e 1963. Chamava-se Mary Pinchot Meyer: era uma das mulheres mais deslumbrantes de Washington naquela época. Segundo os registos da Casa Branca, entrou 13 vezes no edifício naqueles dois anos –  a última visita ao presidente ocorreu escassos dias ante do crime de Dallas. O seu fim foi igualmente trágico: em Outubro de 1964, quando passeava junto a um canal em Georgetown, foi alvejada com dois tiros – um na cabeça, outro no coração. O assassino nunca foi capturado.

Outra tragédia envolveu uma jornalista da estação televisiva ABC, que gozou de uma fugaz celebridade. Lisa Howard tinha 37 anos em 1963, quando funcionou como intermediária entre Kennedy e Fidel Castro. Deslocou-se várias vezes a Havana, nesse ano, e tornou-se íntima dos dois dirigentes, formalmente inimigos. A morte de Kennedy inviabilizou a aproximação a Cuba. Lisa não tardou a ser despedida da ABC. A 4 de Julho de 1965, ingeriu uma dose fatal de barbitúricos.

Outra celebridade televisiva da época era Dorothy Kilgallen, única jornalista que conseguiu entrevistar Jack Ruby na prisão e se preparava para contar a história dele num livro. Também ela apareceu morta, no seu apartamento, a 8 de Novembro de 1965. Os capítulos do manuscrito sobre Ruby nunca foram encontrados.

 

Uma das mortes mais misteriosas de pessoas ligadas a John Kennedy ocorreu escassos dez dias após o assassínio do presidente. A 2 de Dezembro de 1963, Grant Stockdale, grande amigo de Kennedy, caiu de uma janela do seu gabinete, situado no 13º andar de um prédio de escritorios em Miami. Não deixou bilhete de suicídio.

Stockdale, corretor da Bolsa e antigo embaixador norte-americano na Irlanda, andaria com problemas financeiros e a notícia do assassínio de Kennedy ter-lhe-á agravado uma depressão. Mas não faltou quem especulasse que alguém o empurrara da janela para calar segredos ligados ao trágico fim do presidente. Meses antes, quando velejavam em Palm Beach, Kennedy perguntara-lhe: “Achas que vou ser assassinado?” A pergunta – premonitória – ficou a pairar para sempre na memória perturbada de Grant Stockdale.

“Teria Oswald agido sozinho?”, questionava a capa da Life, na edição de 25 de Novembro de 1966. Poucos acreditam hoje nisso. E a maldição Kennedy permanece.

 

Texto reeditado

 

 

Imagens:

1. John Kennedy  

2. Mary Pinchot Meyer

3. Grant Stockdale com Kennedy

4. Lisa Howard com Fidel Castro

58 comentários em “O fim do sonho em seis segundos”

  1. A espingarda Carcano em questão foi a arma individual dos soldado Italiano desde o inicio do século XX. É uma boa arma.
    Muitas armas baratas estavam disponíveis após a II Guerra Mundial. O assassinato era possível fazer com a arma por alguém experiente como o Oswald. Um Marine veterano com experiencia em tiro de precisão e que tinha desertado para a União Soviética por 3 anos e regressado…

    1. Oswald disparou três tiros contra Kennedy – o último dos quais fatal – do sexto andar do depósito de livros na Praça Dealey, isso é incontestável.
      A especulação que persiste é se agiu por conta própria ou a mando de alguém, envolvido numa conspiração mais vasta.

  2. a Família veio da Irlanda pela ‘Estrada da Fome’.
    a história das conspirações parece ser como a da existência de bruxas.
    que as Pessoas mencionadas descansem em Paz

    1. O sonho americano. Está no 1⁰ parágrafo.

      E sim, os americanos continuaram a sonhar. Todas as noites. Às vezes sonhavam com hamburguers.

      1. O sonho americano. Está no 1⁰ parágrafo.

        Pois está. Mas o “sonho americano”, seja lá o que isso fôr, não foi Kennedy!
        O sonho americano continua a persistir e a ser falado, nada tem a ver com Kennedy nem foi morto em Dallas.

        1. Aprenda que eu não duro para sempre:

          “No dia 22 de novembro de 1963. O presidente norte-americano John Kennedy foi assassinado em Dallas, no Texas.”

        2. Não. O sonho americano é um conceito dos anos 50. Casa nos subúrbios, relvado à porta, electrodomésticos para tudo e mais alguma coisa, etc. Foi essa a direcção que a economia tomou, apoiada numa pujante estrutura industrial que fabricava tudo… E havia uma dimensão social que foi a que falhou primeiro, com os movimentos de contra-cultura nos Sixties.

          O sonho americano já não existe neste formato comercial e de “página de revista” como era nessa altura. Se Truman Capote era um exemplo de escritores desse, que prefiguram depois o On The Road — o sonho americano hoje está mais plasmado em escritores apocalípticos como Cormac McCarthy. E incontáveis sequelas hollywoodescas da destruição da América, onde persiste apenas a ideia de recomeço… talvez.

          Ou seja, o sonho transformou-se num pesadelo.

          1. O chamado “sonho americano” desenrolou-se em vários capítulos e com vários pontos de referência. Na administração Eisenhower era o sonho – concretizado – de ter a maior classe média do planeta. Na administração Kennedy era o sonho – também concretizado – de ultrapassar a URSS na corrida espacial. Nas administrações Reagan e Bush era o sonho – igualmente alcançado – de derrubar o sistema comunista, tristemente simbolizado no sinistro Muro de Berlim, e vencer a Guerra Fria.

          2. Eu vivi nos EUA cerca de 1990, e ainda se falava muito no “sonho americano”. Muitíssimo, mesmo. E Kennedy já tinha morrido há 30 anos.

      1. Tinham um tipo jovem a dizer coisas bonitas.

        Pois. E a mandar os outros jovens atirar bombas sobre a Indochina. Foi tudo mesno um sonho. Foi um pesadelo.

        1. > a mandar os outros jovens atirar bombas sobre a Indochina.

          O odioso no Vietname tem pouco a ver com o JFK. Em 1963 ainda eram “military advisors” em quantidade relativamente reduzida a molhar a sopa ocasionalmente. A coisa só aqueceu a sério depois.

          https://en.wikipedia.org/wiki/United_States_in_the_Vietnam_War
          “November 1963 — By this time, Kennedy had increased the number of military personnel from the 900 that were there when he became president to 16,000 just before his death.”
          “[1969] U.S. troop presence peaks at over 540,000.”

      2. Era mesmo uma gerontocracia. Ver aquele desfile de múmias na tribuna do Kremlin, a rivalizarem com a própria múmia de Lenine, permitia perceber que jamais aquele país e aquele sistema poderiam vencer a Guerra Fria.
        A década de 80 foi catastrófica para a União Soviética nesses anos finais.
        Seguem-se alguns factos.

        Morte de Leonid Brejnev em Novembro de 1982, aos 75 anos.
        Morte de Iúri Andropov em Fevereiro de 1984, aos 69 anos.
        Morte de Constantin Tchernenko em Março de 1985, aos 73 anos.
        Desastre nuclear de Chernóbil, o maior do género da história, em Abril de 1986.
        Evacuação da tropa soviética do Afeganistão, em Fevereiro de 1989, quase dez anos após a ocupação militar, tendo Moscovo sofrido ali pelo menos 15 mil mortos.
        Derrube do Muro de Berlim, em Novembro de 1989, com milhões de alemães a rumarem de imediato para Ocidente. O movimento inverso jamais ocorreu.
        Faltaria pouco para a derrocada do sistema comunista, do bloco soviético e da própria URSS.

  3. Lee Harvey Oswald foi assassinado por Jacob Leon Rubenstein ( ruby) membro da máfia judaica , a Kosher Nostra:- convém esclarecer , não vão pensar que foi a católica máfia italiana , já que todos os assassinados , à excepção de uma , eram cristãos.

    1. marina
      Dos 12 presidentes dos EUA que sofreram atentados, 4 dos quais com atentados mortais, eram todos de religião cristã, mas só Kennedy era católico.

      1. os assassinados que o Pedro menciona. só a que entrevistou Fidel não era cristã.
        faz toda a diferença esclarecer quem assassinou o osvaldo,,,

        1. A mim esse esclarecimento não faz sentido nenhum. A menos que Kennedy quisesse instaurar um califado cristão regido pelas leis do Deuterónimo?!!! Cabala sem sentido!!! Era o fim da picada! Mon dieu!

          1. a par das teorias conspiratórias sobre o papel do fbi e cia no assassinato lançadas pelos judeus Arthur Krock ( este até o previu , lol) , Alan Weberman , Edward Jay Epstein , Harlord Weisberg , etc , hoje há as que afirmam que Iscruel está por detrás do assassinato.
            um mafioso judeu , pertencente a uma máfia judaica que não aparece nos filmes de hollywood apesar de ser tão criminosa como a italiana , mata o alegado assassino ? e faria isso porquê?

    1. “….semelhantes à actuação da antiga URSS, durante a guerra fria” ?
      A haver semelhanças são como putinmente .

    2. Quando Putin manda matar uns dissidentes usando uns venenos esquisitos, derramados no chá ou pintados na maçaneta da porta, é um Ai Jesus o que ele fez.

      Mas quando se mata um presidente, um Luther King ou um Malcolm X, com um ou tiro ou (no último caso) uma rajada deles, é trigo limpo farinha Amparo, corre tudo sobre rodas e é tudo normalíssimo.

      1. ou pintados na maçaneta da porta, é um Ai Jesus o que ele fez

        Evidentemente. Cristo era carpinteiro. Não é suposto uma porta matar ninguém.

      2. Putin terá um fim semelhante a um destes quatro:
        – Metralhado contra uma parede, como Ceausescu;
        – Sumariamente executado, como Mussolini;
        – Enforcado, como Saddam;
        – Suicidado, como Hitler.

  4. O “post” é oportuno. Seria também de fazer o paralelo com a morte de Sá Carneiro, que, acredito eu, foi um dano colateral no assassínio de Amaro da Costa. E a semelhança continua com a morte do proprietário da avionete que, ouvi pessoalmente no clube de tiro de Monsanto, garantir que gastaria toda a sua fortuna pessoal se necessário até esclarecer a questão. Menos de 15 dias depois, apareceu morto na banheira de uma amante num apartamento da linha de Sintra. Nunca mais se ouviu falar nem da sua morte nem do paradeiro da amante.
    Acho que teria feito sentido, referir no “post” o assassínio do irmão Robert que também garantira publicamente que, como ministro da justiça, poria toda a máquina judicial a investigar.
    E, lembro ainda que para Portugal, se quiserem para o regime, a morte de Kennedy foi nefasta. De facto, segundo memórias publicadas, Kennedy já admitira ao embaixador português que ia rever sua posição quanto às colónias portuguesas por estar já convencido de que Portugal, em África, combatia de facto a União Soviética. Apenas não podia, de repente, reverter toda a política que aprovara.

    1. a morte do proprietário da avionete

      O dito proprietário deveria refletir se não foi ele mesmo, em parte, o culpado da morte desses dois dirigentes políticos.
      Eu já li um livrinho (lamento não poder dar a referência, esqueci) sobre o evento, escrito, ao que parece, por quem percebia da matéria. Escreveu, grosso modo, que o Cessna era um avião muito problemático, pouco apropriado para aquele tipo de missão, que aquele avião em particular já estava velho e com problemas, e que o piloto que o conduzia estava cansadíssimo por ter andado a voar repetidamente. Isto para além de outros variados detalhes técnicos.
      Lembremo-nos do ano, 1980. Nesses anos, em Portugal, morriam milhares de portugueses todos os anos, em desastres de automóvel pelas estradas do país, a guiar carros velhos, conduzindo cansados e avinhados. Todo o país manobrava máquinas em condições que atualmente não seriam toleradas. Não nos devemos espantar que o Cessna de Sá Carneiro fosse um desastre similar.
      (Mesmo atualmente, todos os anos morrem em Portugal pessoas em desastres de avionetas, as quais são “brinquedos” deveras perigosos.)

      1. Nada disso é verdade. Aquele modelo de Cessna é seguro. O avião não era velho. O proprietário antes de o ceder graciosamente à campanha do gen. Soares Carneiro tinha mandado efectuar uma revisão geral. O piloto não tinha horas em excesso.
        Em vez de mandar bitaites ou, melhor de papaguear o que lhe enfiaram pela goela abaixo, faça a si próprio algumas perguntas.
        1. Porque desapareceu a pasta que Amaro da Costa transportava?
        2. Porque foi imediatamente transferido para Macau o inspector da Judiciária que estava no aeroporto e declarou ter visto um clarão antes do avião se desviar e começar a descer?
        3. Porque é que o general Eanes, então PR, logo nomeou o chefe da sua Casa Militar, tenente-coronel Lencastre Bernardo para sub-director-geral da Judiciária (um cargo que nunca existira)?
        4. O que aconteceu ao Fundo de Defesa do Ultramar (um saco azul que o regime usava para adquirir armamento, por vezes até no mercado negro)?

      2. (Mesmo atualmente, todos os anos morrem em Portugal pessoas em desastres de avionetas, as quais são “brinquedos” deveras perigosos.)
        Ó Lavoura, Deus lhe valha, que indigência argumentativa. Não são brinquedos, são desde logo elementos essenciais à formação de pilotos e à execução de muito e importante trabalho aéreo (e sujeitos a severos critérios de manutenção e operação que, se aplicados com equivalente rigor ao transporte motorizado terrestre rapidamente parariam, não duvido, quase tudo).
        Nem tudo pode ser feito racionalmente por “jactos”, “avionetas” não são “calhambeques” e aquele bimotor não era, definitivamente, uma “avioneta”. Mas, enfim, como se sabe qualquer cretino com conta nas redes sociais sabe mais de aviação do que quem nela trabalha. E nada há de mais peremptório e arrogante do que a “certeza” da ignorância.

      1. Pois é,… e agora estou virado para o imobiliário. As isenções de IVA e IMI na Quinta da Atalaia e a especulação imobiliária na vivenda Aleluia.

        1. Sem esquecer o ‘bunker’ comunista situado no antigo Hotel Vitória na Avenida da Liberdade – uma das zonas onde o metro quadrado é mais caro em todo o continente europeu.

          1. A propósito de preços de metro quadrado, o mais caro depois da ilha de Manhattan, era em Cap d’Antibes (desconheço preços asiáticos). Porque tenho uma sobrinha que vive em Antibes e fui passar duas semanas a casa dela, logo afiei o dente e fui dar uma volta de carro a Cap d’Antibes, para, julgava eu, encher o olho com vivendas de luxo. Passei uns 45 minutos a circular entre caminhos apertados e fartei-me de ver portões, sebes e muros. De vivendas, num ponto alto, vislumbrei uma pequena parte de uma fachada de primeiro andar. E foi tudo.

      1. Só registei um facto. A “óbvia” análise político-religiosa deixo para V. Xelência comentar.

      1. Há coincidências desarmantes, de facto. Mas aquele comentário não era para si. (Talvez eu não perceba as vossas ironias… )
        Tenho dificuldade em perceber essas convulsões históricas. Aliás, quanto mais avanço em idade (em teoria mais bem informado) mais confundido fico.

        1. Pela minha parte ficou registado sem problema algum, faço questão de salientar. Como se percebe neste meu comentário sobre Piaf-Cocteau que pretendeu ser resposta ao que aqui deixou.
          Saúde!

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *