Um murro no PEC


Sérgio de Almeida Correia,

Holocausto

 

O mundo colonial dividia-se entre germanófilos

e anglófilos exacerbados. Aqui, só destes,

e a varanda da pensão exibia na parede

um largo mapa da Europa, crivado

de bandeirinhas que iam e vinham,

 

consoante as ondas-curtas da BBC ditavam

pela voz do Pessa, entrecortada de atmosféricos.

Na sueca alguém, para descontrair, baldava

a manilha de copas. Para nós, a guerra era

os documentários passados no Gil Vicente,

 

fosse o da “Fox” ou o “Gaumont”, antes

da fita. O armistício cairia como uma festa

sem precedentes, cujo significado de todo

ignorávamos. Íamos com os pais ao cinema,

impedidos de assistir às imagens atrozes

 

que desfilavam a preto e branco na indiferença

do écran, à guarda distraída do porteiro

Má’tantes (Matos Santos) assim designado

por, além de meio atardado, ser tatibitate.

Quedávamos, antes da pesa cortina

 

de veludo, espreitando-lhe atrás do largo

costado o cortejo das carretas de cadáveres

e a pálida parada dos rostos famélicos,

enfrentando um futuro sem futuro que nada

perturubasse a nossa atrevida inocência.

 

Móbil, só o Má’tantes. Constava que,

apesar da língua presa, obtivera, com

medalha, o quinto lugar numa prova

de natação (concorrentes eram só cinco).

Babado, todo se derretia com as meninas

 

e, nós, de longe, a bom recato, bradávamos:

Ó Má’tantes, não engates a miúda!

E ele, quase correndo, gaguejava tartamudo:

Fi-fi da pu-puta, pá-pá-to-tos có-cónos!

E, só por isto, o holocausto nos passaria de largo.  

 

(Rui Knopfli)

 

 

Que saudades, Rui, e a gente às voltas com o PEC. Só Deus sabe do que tu te livraste.

 

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