Holocausto
O mundo colonial dividia-se entre germanófilos
e anglófilos exacerbados. Aqui, só destes,
e a varanda da pensão exibia na parede
um largo mapa da Europa, crivado
de bandeirinhas que iam e vinham,
consoante as ondas-curtas da BBC ditavam
pela voz do Pessa, entrecortada de atmosféricos.
Na sueca alguém, para descontrair, baldava
a manilha de copas. Para nós, a guerra era
os documentários passados no Gil Vicente,
fosse o da “Fox” ou o “Gaumont”, antes
da fita. O armistício cairia como uma festa
sem precedentes, cujo significado de todo
ignorávamos. Íamos com os pais ao cinema,
impedidos de assistir às imagens atrozes
que desfilavam a preto e branco na indiferença
do écran, à guarda distraída do porteiro
Má’tantes (Matos Santos) assim designado
por, além de meio atardado, ser tatibitate.
Quedávamos, antes da pesa cortina
de veludo, espreitando-lhe atrás do largo
costado o cortejo das carretas de cadáveres
e a pálida parada dos rostos famélicos,
enfrentando um futuro sem futuro que nada
perturubasse a nossa atrevida inocência.
Móbil, só o Má’tantes. Constava que,
apesar da língua presa, obtivera, com
medalha, o quinto lugar numa prova
de natação (concorrentes eram só cinco).
Babado, todo se derretia com as meninas
e, nós, de longe, a bom recato, bradávamos:
Ó Má’tantes, não engates a miúda!
E ele, quase correndo, gaguejava tartamudo:
Fi-fi da pu-puta, pá-pá-to-tos có-cónos!
E, só por isto, o holocausto nos passaria de largo.
(Rui Knopfli)
Que saudades, Rui, e a gente às voltas com o PEC. Só Deus sabe do que tu te livraste.

Grande poeta, excelente poeta. Muito bem lembrado.