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A primeira destas notas, resulta do grito que ecoou à volta da estátua do Marquês de Pombal, figura que há mais de duzentos anos expulsou os jesuítas do país e que, por ironia histórica, teve agora de assistir a uma imensa multidão reunida para escutar um papa dessa mesma ordem religiosa. E o grito foi: “Todos, todos, todos”, já aqui trazido pelo Pedro Correia, através do texto de João Miguel Tavares.
Este grito, e o texto já referido, trouxe-me à memória algo que li há uns bons anos.
A situação passa-se na Irlanda do Norte, durante uma homilia proferida por um padre católico. Segundo o que me recordo, este clérigo terá surpreendido os seus fiéis com o aviso de que ali dentro daquela igreja deveriam ter cuidado com as algibeiras. E deveriam ter esse cuidado, porque era ali que se reuniam os pecadores e pecadores de toda a espécie. Até os carteiristas e outros bandidos. Quem, de entre a assembleia, quisesse estar livre desses perigos, deveria participar nas celebrações anglicanas, onde não apareciam pobres, nem carteiristas, mas apenas gente de elevado estatuto social e até aristocratas. Esta segunda nota será já um reflexo da fricção política da região, mas no resto coincide com a mensagem do Papa Francisco, que, como diz João Miguel Tavares, incomoda até a parte dos católicos que “aponta o dedo” e não “abre os braços”.
A outra nota, resulta de algo que Helena Matos disse no Contra-Corrente de sexta-feira passada.
O tema do programa é desencadeado pelo recente filme “Oppenheimer” e anda à volta das questões morais relacionadas com recurso à bomba atómica. Numa parte mais adiantada do programa é referido uma das diversas rupturas introduzidas pelo cristianismo. Até à crucifixão de Cristo, os deuses pagãos eram impulsivos e agiam com fúrias e outras humanas paixões. Qual dos deuses da antiguidade se conteria perante a execução do seu próprio filho? Qual dos deuses pagãos não esmagaria de imediato quem se atrevesse a tal ofensa? A auto-contenção de, podendo causar a morte e de castigar para todo o sempre alguém que o afrontasse, opta por não o fazer, constitui, em termos antropológicos, um tremendo salto.
Indo buscar memórias de outras leituras, este salto poderá ser comparado ao acrescentar de uma nova camada a um sistema nervoso, que na sua versão mais primitiva, permite que um indivíduo se alimente, de defenda e se reproduza, tudo isso por instinto e sem consciência de cada decisão. É assim que funcionam os répteis. O cérebro do humanos, com o seu cerca de um quilo e meio de peso, mais do que triplicou desde os nossos parentes primatas não humanos mais recuados. A parte mais primitiva do nosso cérebro, o tronco cerebral, é comum a quase todas espécies animais e é mais primitiva também em termos da sua formação enquanto feto. Milhões de anos mais tarde, à volta deste centro, foram-se desenvolvendo centros emocionais e, depois destes, aquilo que podemos designar como um cérebro pensante. O facto de o cérebro pensante ter evoluído a partir do emocional, explica também a nossa relação entre o sentimento e o pensamento. É nesta evolução que podemos melhor entender a auto-contenção como uma nova capacidade, a tal capacidade de não exercer todo o poder que que se tem, para dar largas ao instinto sobre o qual assenta o intelecto. Quando uma religião, enquanto modelo de interpretação da realidade, acrescenta esta possibilidade às abordagens anteriores, assiste-se de facto a um enorme salto antropológico.

budismo , séculos VI y IV a. C….. e há-de haver mais religiões ou filosofias a.C. , até o matrialcal paganismo com o seu amor a natureza e a lei triplice , que incentivam a contenção dos instintos …o etnocentrismo é lixado
Por mais internacionalista que queira ser, a precepção do mundo que temos é ocidental. Se considerar todo o conhecimento que hoje está ao nosso dispor e avaliar a história nessa base, estará a enviesar as conclusões. No entanto, o que disse na segunda nota, não é exclusiva para o cristianismo e podemos incluir esses conhecimentos orientais no raciocínio. O que o cristianismo teve de novo, foi na sua envolvência geográfica, greco-romana.
isto não é tão simples como o pinta…tem de por mais cores, por exemplo , os deuses seriam maus mas os homens não andavam à briga para impor o deus da sua preferência, isso é um exclusivo do monoteísmo ; na península , pelo menos na Galiza , a igreja ,o cristianismo apoderou-se de lugares e referencias pagãs—não foi o cristianismo que nos tornou bons , já havia gente boa antes,
e sim , sou crente e cristã , mas não pertenço a igrejas nem a clubes ou partidos , afunilam o olhar.
Sim o “Todos Todos Todos” pode ser assustador para quem não quer fazer parte.
Está a misturar tudo, mostrando desconhecer, por exemplo, a crueldade dos rituais celtas, o não proselitismo do judaísmo e por achar que não se pode fazer considerações sobre uma religião sem dela ser missionário… há por aí algum afunilamento, sim.
a crueldade dos rituais celtas há.de ser parecida a queimar pessoas na fogueira. acho que não me percebe , o que quero dizer é que a minha galinha não é melhor que a da vizinha -:) tudo tem um lado bom e um lado mau.
Uma coisa que numa primeira análise posso dizer com toda a convicção é que a JMJ é um festival decente. É muito melhor ver uma turbamulta de gente sóbria e aprumadinha a repetir banalidades, do que ver uma turbamulta de charrados e bêbedos todos esgroviados a repetir banalidades (Cf. Sloterdijk).
São todos filhos de Deus.
O V. não está a ver bem ou quer enganar as pessoas arranjando pecados noutras grandes concentrações de jovens.
É só fazer as contas, como diria o outro, quantos jovens que vimos ontem já estiveram nos festivais de música que se organizam por vários locais do país.
Quantos? Mesmo que do milhão sejam muitos estrangeiros sobram muitos portugueses para o Rock in Rio, Paredes de Coura, Zambujeira e até do Quim Barreiros nas festas lá da terra.
Sem dúvida nenhuma, o caro anon. faz um excelente contraponto à minha hipótese. Mas então já estamos a falar, não de encarnação, mas de transfiguração 🙂
E vendo bem, esse tem sido sempre o problema dos católicos: a teoria não bate certo com a prática.
os deuses pagãos eram impulsivos e agiam com fúrias e outras humanas paixões
Exatamente, e um exemplo disso é, lamentavelmente, o Deus judaico do Antigo Testamento, que cometeu genocídio, infanticídio e tudo o mais por amor ao seu querido Povo.
O amor de Deus ao povo judaico não lhe tem dado muita sorte, mas sim, o conceito de povo escolhido é a base do judaísmo.
Duas observações sobre as JMJ.
Espantoso como só agora os políticos e os jornalistas descobriram a força da Igreja.
Todos os dias 13, especialmente em Maio e Outubro, Fátima tem mais crentes que eleitores de todos os partidos excepto o PS e o PSD.
Finalmente, a constatação que temos a os piores jornalistas televisivos do mundo.
Sou católico e quero seguir e ouvir as diferentes fases das cerimónias com tradução sim, mas não com comentários imbecis, completamente desrespeitadoras quer das leituras, homílias, até na consagração na eucaristia.
Simplesmente abjecto.
Como escreveu o cronista João Gonçalves.
“A inefável matilha do espectáculo trata tudo da mesma maneira. Os jornalistas e os comentadores televisivo-informativos ficarão para a história desta JMJ como as mais ensebadas, aborrecidas e ignorantes nulidades de serviço. Uma gente sem noção de nada de nada”
Uma vergonha que jamais será denunciada, pelo grau de corporativismo de classe, a pior de todos
Fala de alguma falta de cultura, que incomoda mais tanto quanto as espectativas forem elevadas.
A força só existe se a usas para moldar a realidade. A Igreja tem muito menos força que o Bloco de Esquerda.
Não temos vistos os mesmo canais nos últimos dias.
Qual foi a ultima lei inspirada pela Igreja que apresentada na Assembleia da Republica irritou o Bloco de Esquerda e foi aprovada?
Quantos hectares são precisos para as convenções do BE?
Sim agora em tempo de balanço, um alívio e parabéns.
E sim, neste vasto evento que congregou uma muito específica multidão, católicos, praticamente tudo ocorreu a preceito.
Dir-se-ia no entanto que esta Jornada Mundial da Juventude deveria ter sido chamada “Jornada Mundial da Juventude Católica”.
Afinal tudo ocorreu bem e a preceito. Havia receios?.
Até seria um excelente indicativo para esta mencionada juventude e para a organização religiosa em causa.
Afinal “mundial” sem o “católico” porquê?. “Todos, todos, todos” …. quem?.
Até aplaudiam os polícias… onde é que já se viu?
Também tivemos isso na celebre manif. ati-troika da moça agarrada ao polícia.
Se calhar essa moça achou o polícia giro,… e bem armado.
Estranhissimo este catolicismo populista onde agora até já não há Inferno, onde não há dor, é tudo fofinho.
Ou será o português sempre á espera/espreita de um Pai que lhe pague as contas? depois de substituir o ditador que velava por tudo e que se segue o desapontamento com o regime socialista volta-se agora para um alter socialismo católico?
Vivaldi RV 595 NXg
“…donec ponam inimicos tuos scabelleum pedum tuorum…”
https://www.youtube.com/watch?v=82x1OjLm
Socialismo católico é mais a onda animista do António Fervilhante Guterres.
A Irlanda tem que voltar a ser unida e libertar-se do imperialismo britânico. O que diríamos nós se Espanha ocupasse uma parte do território português muito maior que Olivença?
Acredito que isso, mais tarde ou mais cedo, acabe por acontecer. Embora isso não tenha nada a ver com o propósito do texto.
Deve acontecer simultaneamente com a devolução de Gibraltar.