DELITO há dez anos


Pedro Correia,

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Fernando Sousa: «Parabéns, Mandela, pelo teu exemplo de vida, da dor ao amor, da resistência à liberdade.»

 

Helena Sacadura Cabral: «Não sou saudosista, tenho-o dito imensas vezes. O passado, bom ou mau, ficou arrumado e só muito raramente volta à superfície. Mas esta tarde, o cheiro da alfazema lembrou-me a casa dos meus avôs maternos e a imensa ternura que sempre recebi deles. Era uma casa sem luxos, mas cheia de amor e de alegria. No começo do Verão as roupas eram postas a arejar e arrumadas de novo entre saquinhos de alfazema que as perfumavam até serem usadas. E quando as camas eram feitas de lavado, aquele odor de campo enchia os nossos pulmões. Foi essa acalmia, essa bonomia de um tempo que apenas se desenrolava entre cheiros e risos despreocupados que, de repente, recordei.»

 

José António Abreu: «Há quase dois anos, António José Seguro inventou o conceito de «abstenção violenta». Hoje, ao abandonarem o hemiciclo logo após serem derrotados na votação da moção de censura apresentada pelo satélite artificial do PC e antes de Assunção Esteves ter dado por encerrada a sessão, os deputados socialistas socráticos revelaram um (inesperadíssimo) mau perder ou então o mais profundo desagrado por Seguro não ter ido mais longe do que o simples voto contra, optando, sei lá, por um «voto contra violento». Com berros e arremessamento de objectos, talvez, à imagem do cidadão que resolveu atirar uma sandália das galerias.»

 

José Navarro de Andrade: «Em jovem cheguei a supor que os livros e o amor por eles nos tornariam pessoas melhores, mais cultas e cosmopolitas, mais tolerantes e generosas. Mas conforme fui lendo um pouco mais (curiosa contradição), também fui percebendo que as maiores maldades que a humanidade perpetrou foram inspiradas em livros, uns sagrados, outros idolatrados.»

 

Luís Menezes Leitão: «Os acontecimentos dos últimos tempos fazem-nos perguntar se é possível existir um país assim. Primeiro o Presidente não aceita uma remodelação governamental e propõe eleições a prazo, mas ao mesmo tempo propõe qie cheguem a acordo três partidos que ultimamente não se têm entendido sobre coisa nenhuma. Um partido que não existe, e só tem dois deputados, apresenta uma moção de censura no Parlamento. Quer a maioria quer a oposição aplaudem a iniciativa que consideram clarificadora. O maior partido da oposição acha normal estar simultaneamente a negociar com os partidos do Governo e a censurar o Governo. Já o Governo acha que a moção de censura do partido inexistente reforça a sua legitimidade.»

 

Eu: «Mário Soares governou duas vezes aliado com partidos à direita do PS. Enquanto foi primeiro-ministro, viu Portugal sob intervenção do Fundo Monetário Internacional nessas duas vezes: a primeira originou aliás um célebre disco de José Mário Branco, intitulado FMI. Em 2011, segundo ele próprio admitiu, teve uma intervenção decisiva junto de José Sócrates para que o Governo socialista solicitasse uma intervenção externa de emergência destinada a salvar as malogradas finanças nacionais. Lá veio o FMI pela terceira vez a Lisboa, desta vez partilhando a tutela do resgate com a Comissão Europeia e o Banco Central Europeu. Este extenso currículo, espantosamente, não inibe agora o fundador do PS de alertar António José Seguro contra o risco de “uma cisão” no partido caso o secretário-geral socialista estabeleça um acordo com o PSD e o CDS. Com uma sobranceria que nenhum notável do PS lhe transmitiu quando ele se entendeu em 1977 com o CDS de Diogo Freitas do Amaral e em 1983 com o PSD de Carlos Mota Pinto.»

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