
A azáfama dos estafetas que importámos de Islamabad mostra que cada vez mais as pessoas mandam vir comida de fora. Já não há tanta gente nos espectáculos, a circular nas ruas, nos restaurantes. Os funcionários habituaram-se a trabalhar em casa e talvez seja um novo modelo económico. Estamos na nossa bolha, cada um a ver a sua série, aliás, tornou-se normal falar de determinada ficção e os amigos encolherem os ombros: “viste aquela história?”; “essa não conheço”; “é fantástica, não deixes de ver”, e segue-se a expressão de dúvida que termina com a conversa. Isto só costumava acontecer com os livros: “leste aquele romance tremendo?”; “não li”; e seguia-se o olhar de quem não tencionava ler. A literatura faleceu em combate e o mundo imaginário é produzido na América (e não tem a piada da Hollywood de antigamente). As bolhas em excesso são perigosas, sobem à cabeça e vão toldando os sentidos. Como o champanhe, o mito diz que não dá ressaca, mas dá. Estamos separados por microidentidades, só somos aquilo, cada identidade é um bom mercado; a curiosidade estreitou e só nos interessa aquele pedaço da realidade, daqui até ali, como nas balizas. Por falar nisso, em Portugal, tudo é bola, até os escândalos metem futebol. É o único assunto que nos pode indignar. Enfim, a modernidade parece maravilhosa: mostramos as nossas lindas vidas nas redes sociais e ficamos fechados em casa, à espera que apareçam dias felizes.

À espera de dias felizes,ou então à espera que a IA decida o que vemos almoçar e/ou postar na net.
Tu non se’ morta, ma se’ ismarrita
Anima nostra, che sì ti lamenti.
Dante in Divina
Estamos na nossa bolha, cada um a ver a sua série
Como Noam Chomsky repetidamente enfatizou, esse é o ideal do controlo de pensamento: cada pessoa sozinha em sua casa, numa bolha, a ver televisão, sem socializar e sem se organizar com outros para mudar o mundo.
cada vez mais as pessoas mandam vir comida de fora
Sendo que a comida mandada vir de fora é invariavelmente mais cara do que a confecionada em casa, isto significa que as pessoas estão mais ricas, ou mais despreocupadas com o uso que dão ao seu dinheiro.
A razão é por não terem hábito de cozinhar ou por terem hábito de mandar vir de fora.
Anterior à pandemia o normal eram as pizzas, depois fast food de vários pratos e sabores deu uma grande margem de negócio a restaurantes que fecharam ou estavam abertos para pequenas refeições e assim ficou aumentando a clientela.
Seja qual fôr a razão (ou as razões) pela qual as pessoas mandam vir comida de fora, e sobre isso não especulo (diferentes pessoas terão diferentes razões), o facto é que isso representa sem dúvida um acréscimo de despesa em relação a confecionar a comida em casa. Pelo que, ou as pessoas estão mais ricas, ou estão com maior propensão a gastar.
Andava eu com as minhas perplexidades relativas a este mundo de cancelamentos, revisões, sensibilidades e indignações, e de repente fez-se luz na minha cabeça. Foi num programa de perguntas, na RTP, e fiquei chocado porque ninguém sabia quem era a Joan Baez. E tudo se conjugou nos meus neurónios: para além do presentismo, de considerar que o mundo que interessa é o de hoje, o que não é novo, porque todas as gerações tendem a inventar a roda, faz parte da fase imbecil a que se chama agora adolescência, confrontamo-nos igualmente com um fenómeno bem mais perigoso – desapareceu o espaço comum, se quisermos mais ou menos a antiga ágora grega. Vivemos e sentimo-nos invencíveis na nossa bolha, onde tudo corre a nosso contendo, e chegaremos a uma altura em que cada bolha corresponderá apenas a um indivíduo.
Vai correr mal, claro, mas é apenas a história da humanidade.
eu não..já não posso com a “modernidade” , estou pior que o Jacques Tati
«Estamos separados por microidentidades»
É o colectivo!
Tanto exorcizam o individual, com sua irrecusável responsabilidade, que tudo se acolhe a bolhas, com seus corais e mútuas garantias de valia.