O País cansado de Sócrates


Pedro Correia,

 

“Meu Deus, que gente me mandas para ganhar esta guerra!” A frase ficou célebre na boca de Winston Churchill na fase mais dura da II Guerra Mundial, quando parecia que as hordas de Hitler iriam dominar toda a Europa. Tenho-me lembrado dela por estes dias, ao reflectir na crise de credibilidade que vai minando a autoridade política de José Sócrates. O essencial das suas tropas já desertou. Luís Campos e Cunha e Diogo Freitas do Amaral, os seus dois ministros iniciais das Finanças e dos Negócios Estrangeiros, não escondem hoje o afastamento relativamente ao chefe do Executivo. No Governo, passam-se meses sem que escutemos a voz de alguns ministros. Sócrates é hoje um general cansado, quase sem estado-maior e desprovido de infantaria. Gastou o essencial das suas munições em brigas inúteis, disparando contra jornalistas e comentadores, quando tinha à porta a mais grave crise dos últimos 80 anos. E rodeou-se de elementos pouco recomendáveis, socialistas sem peso orgânico no partido mas com alguma influência “fáctica” nos meandros que o País vai conhecendo pelas notícias publicadas em todos os jornais (sublinho todos, pois não são só alguns).

Sócrates deixou praticamente de reunir os órgãos do PS, confiando que bastaria a fé cega nos seus atributos para que os militantes o seguissem sem questionar a uma simples voz de comando. Mas isso já não é assim: há a sensação clara que nos encontramos no fim de um ciclo. Conscientes de que vivem pior do que há cinco anos, quando o actual primeiro-ministro chegou ao poder, os portugueses cansaram-se de Sócrates. Dos trejeitos de Sócrates, das entoações de Sócrates, das promessas de Sócrates – sempre desmentidas pelos factos. Cansaram-se dos tios e dos primos de Sócrates. Cansaram-se dos amigos de Sócrates, como Armando Vara e Rui Pedro Soares. E dos amigos dos amigos de Sócrates, como Paulo Penedos e Manuel Godinho.

Churchill queixava-se dos colaboradores incompetentes: apesar disso, ganhou a guerra. Sócrates só pode queixar-se de si próprio. E arrisca-se a passar à história como um derrotado – alguém que teve tudo para ganhar e acabou por deitar tudo a perder.

 

12 comentários em “O País cansado de Sócrates”

  1. “os portugueses cansaram-se de Sócrates”

    Isto é uma frase típica de um jornalista. O Pedro está seriamente deformado profissionalmente.

    Os jornalistas têm a mania de que são os representantes do povo e que das suas bocas sai a voz do povo. E então, tal como o Cavaco Silva, que em vez de dizer “eu” diz “ele”, os jornalistas, em vez de dizerem “eu” dizem “o povo”.

    Pedro: se você está cansado de Sócrates, diga-o: “eu cansei-me de Sócrates”. É essa a forma gramatical correta. Não fale do povo, fale de si.

    1. Você, Lavoura, ainda não respondeu à pergunta que lhe fiz aqui: essa obstinação em debitar disparates sobre disparates é de nascença ou resulta de treino diário?

  2. Trazer à colação Luís Campos e Cunha e Diogo Freitas do Amaral para insinuar que Sócrates se encontra sozinho, é obra!
    Mas acha que o país real valoriza a argumentação capciosa que derrama em postes deste jaez?
    Continue nesse jeito que é para esse lado que as pessoas dormem melhor.

  3. Não ponho em dúvida, nem a sua inteligência, nem as suas competências criticas, menos ainda a sua capacidade de inferência.
    Sobre citações históricas parece-me que fez trabalho de casa.
    Sobre juízos de valor, os seus, a propósito do general Sócrates também me parece pessoa avisada.
    Agora, o titulo do seu post!, esse já me parece fautor de perplexidade.
    Eu explico-me.
    Podia ser uma tese.
    Você, depois, desmontava-a e, em final, provocava a síntese demonstrativa da dita.
    Fui-me ao seu texto e nada encontrei.
    Diz-me que ele, Sócrates, se deixou aproximar por gente pouco recomendável.
    Diga-me uma agremiação partidária em Portugal, cujo líder não se deixou aproximar por “artistas” desse jaez. Até o Professor Cavaco Silva não ficou a salvo de tal (Fernando Lima…).
    Depois, diz você ( e quem sou eu para duvidar da qualidade da sua informação…) que Sócrates SG do PS deixou de reunir os órgãos partidários (tenho lido umas noticias sobre Comissões Politicas, sobre Grupo Parlamentar com SG, sobre Comissão Nacional e, ainda este fim-de-semana umas tais Novas Fronteiras em Braga…mas posso ter mal lido, admito-o).
    Quer-me dar exemplos diversos noutras instituições parlamentares: CDS, BE e PCP?
    Serão estes os exemplos a contrapor ao eng.º Sócrates.
    O PSD não conta pois estão à procura de líder vai para…10 anos?! e estão em reunião permanente: Congressos, Directas, Comissão Politica, Conselho Nacional, PSD/Madeira (Jardim afirmou que o PEC é bom)…
    Ah!, mas falta a questão primordial.
    “O país cansado de Sócrates”: as últimas sondagens (terei lido coisa diferente da sua?) apontam, TODAS, para a manutenção da “liderança” do PS e de Sócrates se as eleições se realizassem agora.
    Os inquiridos, maioritariamente, mantêm a “confiança” em Sócrates e no PS.
    Como é que saímos desta alhada?
    Simples.
    Mude-se o titulo ao post:
    “Eu estou cansado de Sócrates”.
    Nem é preciso demonstração.
    É uma opinião, um estado de alma, uma singularidade.
    Disse.
    Um antesocrático, atento e que se subscreve,
    J. Albergaria

    1. Ainda bem que não está cansado de Sócrates – ainda bem para si e para o primeiro-ministro, que certamente gostará de o ler. Cumprimento-o por isso: o seu quotidiano deve ser bastante mais fácil do que a grande maioria dos portugueses, que vive hoje muito pior do que em 2005, quando Sócrates chegou ao poder com dezenas de promessas que não cumpriu.

      Você fala em sondagens. A melhor sondagem foi há cinco meses: o PS de Sócrates teve 36% dos votos, recuando cerca de nove pontos percentuais em relação às legislativas de 2005. Quer isto dizer que 64% dos portugueses não votaram nele. Estão cansados de Sócrates. Lamento informá-lo com estas minudências, mas não nisto não estou só.

      Cumprimentos

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