Lápis L-Azuli


Maria Dulce Fernandes,

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Hoje lemos: Alberto Moravia, “O Desprezo” 

Passagem a L-Azular: “Dizem que, se conseguimos viver sem muito esforço, é inteiramente devido ao automatismo que nos torna inconscientes de grande parte de nossos movimentos. Ao que parece, para dar um único passo deslocamos uma infinidade de músculos e, no entanto, graças a esse automatismo, não nos damos conta disso. A mesma coisa acontece com as nossas relações com outras pessoas.” Induz à apatia. Deveria ler-se: “A actividade não se resume a corridas, caminhadas ou exercícios com PTs em ginásios. A actividade também inclui a capacidade de interagir com as pessoas do nosso dia a dia.”

Ser-se activo e ser uma ostra fechada em si mesma, não conjuga bem. Que prazer poderemos tirar em viver uma vida de reclusão no meio da multidão de almas com que nos cruzamos todos os dias? 

(Imagem Google)

17 comentários em “Lápis L-Azuli”

  1. Concordo, se não se excluírem algumas precauções essenciais de sobrevivência. isto porque no mundo conturbado de hoje, uma pessoa está sempre sujeita aos mais desagradáveis encontros. E ninguém está imune a tamanha perigosidade. É o fiscal das finanças, o carteiro com o aviso do IMI, o cobrador da Luz, da água, passando pelo da TV, sem esquecer, aquele gajo chato como o caraças que não nos larga, como se dos vinte euros que nos emprestou dependesse a vida dele.
    Mundo muito perigoso, este.
    Então a minha opinião é: interagir sim com essas almas com que nos cruzamos, mesmo porque ninguém dança o tango sozinho,mas cultivar a sublime arte de saber distinguir as almas puras, das penadas.
    Que é assim a modos de como quem diz, ver sem ser visto a ver, ou saber abrir a porta sem a fazer ranger

    1. Quase todas as cobranças já são feitas sem ser em suporte de papel por isso não é provável acontecerem muitos desses encontros imediatos, Corvo. O tango é uma dança malandra e são os piores que o dançam melhor. Todos precisamos de todos, apenas dispensamos os problemas sem solução que poderão trazer na bagagem.

  2. As pessoas só se movimentam quando estão mal. Quando estão bem não se mexem. É assim no dia a dia e em qualquer situação. As eleições são o exemplo disso mesmo.
    Se as coisas vão mais ou menos a abstenção é elevada, se há o perigo da coisa ficar pior a abstenção é mínima.
    Sendo assim é óbvio que grande parte da nossa vida é feita em “piloto automático”.

    1. Que a maior parte dos humanos vive rotinado demais e quase em piloto automático, acredito. Comparar com o absentismo nas eleições é que não me parece. Estava tudo mal, ninguém foi votar e ficou pior. Isso sim.

      1. Veja o que aconteceu nas últimas eleições legislativas em relação a 2019 e fica explicado o que eu quis dizer.

        1. Pelo contrário, explica o que eu quis dizer! O país ficou MUITO pior de há 4 anos para cá. Só esquemas, abusos, wokices, corrupção, vergonhas atrás umas das outras… é o que faz nem votar sequer em branco…

          1. Olhe que os indicadores económicos não dizem isso. No aumento do produto interno bruto ficámos em segundo, e nos outros indicadores estamos acima da média europeia. E na minha modesta estatística, os restaurantes onde eu vou estão sempre cheios, independentemente ser o princípio, o meio ou o fim do mês.

          2. Nisto creio que o PR, muito muito palrador que seja, tem razão. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa, ou seja, há os indicadores e o bolso das pessoas e aí a diferença é brutalíssima.

          3. “A vida das pessoas não está melhor mas o país está muito melhor”
            Luís Montenegro

            Está um bocadinho diferente agora porque na altura nem os indicadores económicos indicavam nada, além de nos andarem sempre a assustar com os mercados.

  3. Da ideia que me parece chave do texto, o que me apraz dizer?
    O que é isso afinal de interagir com pessoas? Porque haveremos nós de interagir com “uma multidão de almas”, só porque aumentou consideravelmente o nosso universo de interação social e disparou a nossa mobilidade, nas últimas décadas? Não será a vida de reclusão ou de interacção uma escolha pessoal ou até genética?
    A analogia entre a actividade muscular e a interactividade social vertida no texto, parece-me algo forçada, mas, no limite e em ficção, tudo é válido e até compreensível, embora sempre passível de interpretações díspares. Podemos ser pessoas muito activas na interacção social e no entanto, sermos simultaneamente “ostras fechadas em nós mesmos”.
    As redes sociais revolucionaram, democratizaram e massificaram as interacções sociais, principalmente as precipitadas e desastradas. Se calhar, os algoritmos deviam contemplar a obrigatoriedade de um tempo de espera entre a leitura de um texto e a possibilidade de exprimir qualquer tipo de opinião sobre ele, para podermos avaliar da sua pertinência e em caso afirmativo, podermos preparar de forma racional qual a melhor forma de o fazer. Mas estou a afastar-me do assunto. Numa interacção social, eu posso ser extremamente afável, comunicativo e até simpático com as pessoas mas fazê-lo de forma a não ultrapassar a comunicação superficial com elas. A troca de ideias, vulgo falar de assuntos com alguma profundidade, fica reservada só para alguns interlocutores, e todos nós temos pelo menos alguns para o efeito, que poderão não ser necessariamente os nossos amigos ou familiares mais próximos.
    Mas a propósito da leitura e do seu autor, devo dizer que nunca li nada de Morávia, e dele só tenho “os indiferentes”, incluído na colecção “mil Folhas” do Público. Continuo embrulhado na leitura de ensaios de história, vou lendo aqui e ali um conto ou uns poemas salteados mas sempre desejoso de me atirar a um bom romance.
    Desculpem a intervenção atabalhoada e se acharem diferente de mim é porque provavelmente estarão cheios de razão, como diz o nosso amigo Mário de Carvalho. Esta coisa de escrever um texto numa janela de pequena dimensão não ajuda muito a estruturar o que se vai escrever.

    1. A questão aqui é mesmo a interacção digital. Todos os dias nos movimentamos, cruzamo-nos fisicamente com ” uma multidão de almas” que estão por lá, não as vemos e mal as sentimos, ocupados que estamos a ver o feed ou enviar mensagens nas redes sociais pelos smartphones. No meu prédio existem cerca de 30 apartamentos, com um mínimo de 50 almas que não conheço. O vizinho do lado, os companheiros de elevador que muitos nem sei quem são… No entanto tenhos mais de 600 amigos, porque até deixei de “aceitar ” mais amigos! Quão ridículo é isto? Eu tenho essa noção mas muita gente não tem.
      Gosto muito de leitura com fundamento histórico. Apesar de saber que o que se escreve é sob o ponto de vista do autor, os livros não deixam de ser marcos de épocas passadas que são importantes preservar.
      Nós somos todos diferentes, mas no fundo achamos por ser todos iguais, Vítor.

      1. Pois, essa questão digital não me afecta, porque não estou, por opção pessoal, presente, de forma activa nas redes sociais. Continuo a ler digitalmente tudo o que me apetece, inclusivé alguns blogues. Já vivi numa cidade, já lá vão muitos anos, num prédio com muitos moradores. Nunca fiz questão de me relacionar com vizinhos. Nesse aspecto, e apesar de ter nascido e crescido em aldeia, reconheço-me urbano e apreciador da minha privacidade. Os meios rurais e de pequenas cidades são mais propícios ao contacto social, mas isso traz consigo o reverso da medalha, a pelo menos tentativa de as pessoas usarem esse contacto social para interferirem na vida dos outros. Isto tende a acontecer também onde moro actualmente e há mais de 25 anos, nos arredores de uma pequena vila, em que tento descobrir esse equilíbrio bem difícil entre o contacto com as pessoas e a preservação da privacidade.

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