Ainda sobre a arbitrariedade do tipo disfarçado de árbitro


Paulo Sousa,

Depois da revelação e apagamento do vídeo sobre o qual já aqui escrevi, Augusto Santos Silva (ASS), Presidente da Assembleia da República em funções, acusou o toque e já anda à procura de alguém para crucificar. Tentou explicar-se dizendo que “o aconteceu foi uma violação gravíssima de direitos e liberdades individuais e desrespeito da AR com outros órgãos de soberania.”

Nas horas de aperto tem de haver sempre um culpado, pode ser o motorista ou senhor que envia emails. Os responsáveis nunca têm qualquer responsabilidade. Esses estão lá para receber os louros e as bajulações.

Este é um método da escola soviética, que se baseia no princípio de que o estado, ou o partido, nunca falha. Se alguma coisa corre mal, manda-se executar o traidor e nesse meio tempo a viúva já chegou à Sibéria. É um método que, temos de reconhecer, permite seguir em frente mesmo após às piores partidas urdidas pela realidade. E bem sabemos como a realidade pode ultrapassar a ficção.

ASS já ordenou a abertura de um processo de averiguações. As gravações e a respectiva divulgação de conversas feitas sem o conhecimento de um político são ilegais e, dirá ASS, profundamente ilegítimas. O aproveitamento político que se possa fazer desse tipo de registos é igualmente ilegítimo e revelador de uma absoluta falta de integridade política.

Hoje, o Miguel Pinheiro na Rádio Observador lembrou um episódio em que Vítor Gaspar foi filmado, sem que disso tivesse conhecimento, enquanto conversava informalmente, com o Ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schubel.

Perante tal devassa da privacidade, o PS mostrou-se também profundamente indignado e recusou-se a comentar imagens captadas sem o conhecimento dos envolvidos.

Será mesmo que foi assim?

6 comentários em “Ainda sobre a arbitrariedade do tipo disfarçado de árbitro”

  1. Viram o tom “de regime” do PAR, como falou de perseguir, identificar, responsabilizar e assegurar o respeito institucional? Parecia um ministro do Salazar, a falar como um PIDE, num tom de chrfe da polícia.

    O que não me admira: é do tempo deles, do tempo dos fascismos e das ideias totalitárias. Além de não conseguir esconder a sua falta de imparcialidade e portanto desrespeitar o dever no. 1 do seu cargo, nitidamente lida mal com o jogo democrático e com a representatividade que alguns partidos garantiram através dos votos.

  2. Artur Santos Silva é Presidente da Assembleia da República?
    Surpresa, não sabia. E é raro um banqueiro chegar a um cargo político tão elevado.

  3. Susana Peralta, muito a propósito, hoje no ‘Público’:
    «É verdade que foi filmado inadvertidamente. Mas, caramba, que probabilidade atribui Augusto Santos Silva, um dos políticos mais experientes do país, ao facto de ter um microfone à escuta, quando está em amena cavaqueira com o Presidente da República e o primeiro-ministro nos corredores da Assembleia, no dia 25 de Abril? Já para não falar da ligeireza dos comentários de Costa e Marcelo em relação ao episódio grave que vinha de acontecer.»
    Há muito que deixei de acreditar em coincidências.
    Quando alguém alimenta expectativas eleitorais e sofre de notório défice de notoriedade pública, tudo serve para abrir telediários.

    1. Nem foi filmado inadvertidamente. A menos que os repórteres de imagem da ARTV andem com câmaras ocultas em malas, um repórter com uma câmara de três quilos ao ombro pode ser muita coisa, mas discreto não será de certeza.

      Lembra-me um circozinho há uns anos no parlamento com deputado José Lello (outra bela peça). Tal como os computadores de deputados são para serviço público, também os corredores da AR não devem ser palco de conversa de taberneiro. Quando são, não se queixem.
      https://expresso.pt/actualidade/lello-protesta-e-gama-nao-lhe-da-razao=f571836

  4. Tenho a certeza de que o pior presidente da assembleia da república que existiu até agora seria o pior presidente da república que existiu até agora.

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