
Uma das características evidentes das redes sociais é o clima de intolerância que se instalou em relação a qualquer ideia que esteja fora da realidade permitida. Existe uma narrativa convencional e segue-se o ataque feroz às transgressões, por menores que sejam. O crime pode ser uma simples frase ambígua. Nesta nova cultura, é impossível discutir racionalmente. Os argumentos transformam-se depressa em bombardeamentos radicais, rasgar de vestes, gritarias, nós contra eles. O fenómeno não é exclusivo das redes sociais e está a alastrar na política tradicional e nos velhos meios de comunicação. As pessoas têm de medir o que dizem e devem ter cuidado quando tentam criticar as verdades absolutas que se instalam no meio mediático. No passado, isto chamava-se auto-censura. Há hoje temas sobre os quais deixou de ser possível argumentar. Quem não segue as interpretações inflexíveis é excluído e, pelo contrário, quem repetir as teses permitidas será compensado. Esta é a construção do futuro: teremos um mundo mais intolerante e repleto de moralistas. Como a religião foi abandonada, isto vem tudo embrulhado em éticas cívicas e nos nossos valores, que são sempre muito melhores do que os valores dos outros.
imagem, Dall-e

as tvs ainda não conseguiram entrevistar cães e gatos.
acabaram os filmes de cóbois porque os Indios saíram das reservas para a baixa política.
as cantoras canta da cintura para baixo e às vezes dá vontade de dizer ó menina esconda lá essa coisa para eu não perder o entusiasmo.
até os tomates diminuíram de tamanho.
As pessoas cada vez estão mais sós em frente dos seus computadores ou smartphones. Isso faz diminuir as suas competências sociais e, também, torna-as agressivas.
As redes sociais vieram facilitar e acelerar uma aspiração tão velha como a humanidade, a questão da identidade, de fazermos parte de qualquer coisa, um lugar, um grupo, uma ideia, até uma banda de música: a ideia da pertença, do sangue e da terra.
Isso para mim é simples, concorde-se com isto ou aquilo, ou não.
O que eu não percebo mesmo, e é que não percebo mesmo, é como surgiu esta cultura de cancelamento, qual nova caça às bruxas, que quer reescrever o passado e tornar tudo assético.
De onde vem isto? Quem é esta gente? Como obteve o poder que atualmente tem? É isto que gostava de perceber, porque se isto continua esperam-nos anos de trevas no que ao livre pensamento diz respeito.
Não podemos deixar que isto continue. Temos de denunciar a “cultura de cancelamento” (ou seja, uma outra forma de censura) e, se for necessário, escorraçar os censores.