
Isto aconteceu – acontece – no mesmo país que tem passado as últimas semanas a debater fervorosamente os apoios públicos a um evento da Igreja Católica intitulado “Jornadas Mundiais da Juventude.” Não fosse a dimensão absurda da tragédia e a piada – desta nem os Monty Python se lembrariam – até se faria sozinha.
Se o deus cristão existisse, haveria decerto um círculo especial no inferno para estes padres, e para os bispos e cardeais que durante décadas tudo abafaram – com mais labaredas, mais espinhos, e mais demónios a atormentar. Não existindo, ou não devendo a sociedade aguardar por um qualquer castigo divino pelos crimes tão terrenos e tão rasteiros, resta esperar que este escancarar de portas ao horror eclesiástico sirva para a justiça actuar.

O grande problema era mesmo o abafar, julgavam-se impunes. Eram apenas mudados de paróquia, o que resultava no abuso de outras crianças. Era assim em todo o lado. Na Alemanha, anda-se a discutir isto há anos. Muita gente diz estar cheia, mas a insistência – não calar – é importante. Porque o problema também consiste em permitir um tempo de indignação, para depois nos tornarmos a calar e o negócio seguir.
Um clube fechado, de homens cheios de poder, sem recear qualquer controlo. Deu no que deu.
Infelizmente o problema é mais vasto do que isso, Cristina. Pelos relatos e pelas histórias que têm vindo a lume, mesmo os poucos que foram falando viram os abusos de que eram vítimas serem desvalorizados até pelas próprias famílias. O horror de tudo isto é indescritível.
Sim, as famílias têm de ser mais sensibilizadas para esse problema. O desejo de ignorar o horror alia-se ao não saber como reagir. E, no entanto, isso é essencial para que as vítimas se abram. É esta a razão principal (a desvalorização, ou o ignorar, ou mesmo ralhar à criança por dizer coisas dessas) para que as vítimas falem dos abusos apenas passadas décadas (quando falam).
Há uma ideia feita que é a de as crianças mentirem, inventando casos, onde não os há. Mas os psicólogos dizem que isso é muito raro suceder. E, quando sucede, é relativamente fácil apanhar a mentira, basta insistir nos pormenores (como? quando? onde?). De qualquer maneira, a reacção certa é levar a criança a sério, sempre, tanto num caso, como no outro. Só assim se pode reagir em conformidade.
Precisamente.
E também nisto é fundamental a Educação Sexual nas escolas. Algo a que a igreja não acha muita piada, vá-se lá saber porquê.
Só para ilustrar que Deus, religiosidade, Igreja Católica são conceitos bem diferentes.
Históricamente quem não se lembra que até na Idade Média até os bispos tinham concubinas ?
Sempre fui mais de pensar que no nosso país era mais o facto da veiazinha marota dos padres de provincia a paparem nas paroquianas que depois tinham uma quantidade de filhos…
Não me surpreende porque determinadas actividades “atraem” os predadores – neste caso predadores sexuais – mas quem não se lembra das enfermeiras “serial-killers” ou quejandos,ou abusadores sexuais reportados da ONU, ONGs, capacetes azuis…
Não foi só na província, pelos vistos.
Falar em “veiazinha marota dos padres” é desvalorizar a questão. Muitos desses casos constavam de violações. E o facto de terem acontecido também com mulheres adultas não diminui o crime.
Além disso, há a grande “quantidade de filhos”, cuja maior parte ficava ao abandono.
Sim, é verdade que os padres estão longe de serem os únicos predadores sexuais. Mas os crimes de uns não desvalorizam os crimes de outros e vice-versa. Além disso, a Igreja, da maneira como se apresenta, tem um muito maior dever moral.
Não foi só na Igreja que se teve essa atuação de mudar as pessoas de posto, para os abusos prosseguirem.
Isso foi feito também pelo serviço diplomático português, com o embaixador pedófilo Jorge Ritto. Esse estava colocado em Marrocos, e de lá chegaram notícias de que o gajo andava a perseguir meninos marroquinos. O que o serviço diplomático português fez, foi tirá-lo de Marrocos e pô-lo noutro país, no qual consabidamente ele prosseguiu as suas atividades predadoras.
o post é contraditorio…
Por um lado começa magistralmente bem : “isto aconteceu -acontece -“
Acontece !!!, insisto eu. Vai continuar a acontecer, todos o sentem…encolhendo os ombros.
(sendo que abusos sexuais nao sao exclusivo de padres… para os quais o Estado continua a enviar as crianças fragilizadas).
Falei em contradiçao… pois o que mais interessa é proteger as crianças hoje e as seguintes.
Não há contradição. Aconteceu e acontece, e é fundamental que deixe de acontecer. Estamos de acordo.
mas como é que vai deixar de acontecer, se nao é aí que se está e vai intervir ?!!!!
Fez-se nada…e nada vai continuar.
…daqui a uns anitos estaremos a delirar com os abusos cometidos hoje !
Estamos de acordo, claro, mas, pouquinho como reparo.
O nosso desporto é correr atras do prejuizo, chamar nomes ao arbitro.
Para já, fez-se a investigação, lançou-se o relatório – de forma especialmente dura -, e entregaram-se nomes de suspeitos ao MP. Agora é continuar a investigar e a escrutinar o que a igreja vai fazer com isto. A tolerância para o empurrar com a barriga deve ser nula.
Não estou especialmente optimista, mas não esperava que a bomba fosse largada da maneira que foi. Pode ser que o choque ajude à acção.
“Pode ser que o choque ajude á acçao”
Acçao punitiva, será o que quer dizer.
T bom que cada vez mais nos desentendemos …as crianças continuarao desprotegidas !!!
a maioria dos abusos sexuais sobre crianças são em contexto familiar , pai , tio , avô , padrasto.. e muitas vezes com o fechar dos olhos das mães ou companheiras desses monstros.. os padres teriam imensa companhia nesse inferno e não seriam maioria , nem perto disso.
Estava a ver que não aparecia ninguém a defender a padralhada com os “whataboutisms” do costume. Esse discurso neste momento faz tanta falta como uma criança num confessionário.
acha? acontece que um pai ou uma mãe podem proibir uma criança de se dar com padres , mas à família está presa. a criança é propriedade da família ? é por isso que chutam para o lado e se focam no abuso dos homens da odiada igreja , que são uma minoria ?
onde houver clubes de homens , há abusos. o problema é esse. e não o querem enfrentar. compreendo a postura , arranjaram um bode expiatório para marrar.
À luz dos relatos que ouvimos ontem, esse argumento é risível. Mas não surpreende, vindo de onde vem.
Por acaso não interpretei assim; o que a Marina quis dizer foi que as atrocidades cometidas sobre crianças pela igreja, não isenta que as mesmas, ou ainda piores sejam cometidas no seio familiar.
E concordo com ela, infelizmente
Na Grécia antiga, comandantes dos exércitos levavam com eles rapazinhos até 14 anitos para se satisfazerem sexualmente durante as gloriosas campanhas, fosse contra persas, fosse contra o diabo, que travaram para defender “a mãe de todas as democracias”, o pensamento moderno, as matemáticas, o espírito livre e avançado. No regresso eram colocados aos comandos da Grécia, depois de terem andado anos a chupar pilas e etc..
É horrível abusar sexualmente de crianças, de incapazes, de desprotegidos, de todo e qualquer ser humano. Se fizessem isso a um filho meu, presumo que liquidaria o energúmeno, fosse ele padre ou qualquer outra coisa.
Mas o que eu quero dizer ao meu caro João Campos, é que lhe fica muito mal utilizar a expressão “padralhada”.
Tudo isto para lhe dizer que as sociedades evoluem, quer no sentido de atribuir novos direitos aos cidadãos, quer no sentido de criminalizar aquilo que dantes era como que o exercício de um direito.
A Marina até tem imensa razão no que escreveu.
Não esperava que o meu caro João Campos tivesse ficado tão ofendido.
Não fiquei ofendido, não só porque não conheço a comentadora de lado nenhum mas também porque de estranhar seria não aparecer ninguém a desconversar. Convenhamos: no momento em que vem a público quão grave foi o que se passou no seio da igreja vir alguém dizer que nas famílias é pior parece-me ser whataboutism, desvalorização por comparação.
Até porque as respostas preventivas ao que se passa, tanto nas sacristias como em casa, terão de passar por coisas de que a mesma igreja não gosta nada: educação sexual, educação para a cidadania, etc.
Se depois dos relatos de ontem lhe ofende a expressão “padralhada”, temos pena.
Se for na mesma onda da Casa Pia, não vai haver espaço para tanto réu.
Especialmente quando a maioria dos crimes já prescreveram ou os prevaricadores já morreram.
Nunca vou perceber como é que um crime destes prescreve.
Se isto servir para responsabilizar a igreja e para contribuir que as crianças de hoje não passem pelo mesmo, já será alguma coisa.
O caso Casa Pia foi a maior treta para entalar o PSimo alguma vez visto, não se safava ninguém. A seguir vinham as mulheres com as meninas de Odivelas.
A igreja católica apostólica celibatária romana, secular refúgio de recalcados e oprimidos sexuais, é um antro. Sempre foi
Como se vê.
Pode ser irónico mas não é despiciendo. As JMJs são o oposto desta sordidez dos abusos. É convívio, encontro, confraternização, fé a sério. E até podem servir para um debate para que casos destes não se voltem a repetir.
Quanto a castigos divinos, dependerá do sincero arrependimento e da expiação das culpas.
Hehe. Já ouvi falar muito dessa confraternização 🙂 🙂
Convenhamos que o timing é péssimo.
Não sou crente, pelo que não acredito em castigos divinos. Prefiro os castigos terrenos. Que a Justiça actue com celeridade e mão pesada onde puder.
Só quem anda muito distraído, pode ficar chocado com o que veio agora a público. Há largos anos que se têm divulgado os esquemas que a igreja tem para proteger esta gente. Pode-se dizer com toda a propriedade que, esta gente tem na igreja um manto protetor desde há décadas, senão mesmo séculos. É assim por todo o mundo e neste cantinho no fundo da europa não poderia ser diferente. Para quem duvidar do quanto podre está esta instituição, aconselho a ver o “Caso Spotlight” e “Igreja, Código de Silencio”. Um é filme e o outro um documentário que, curiosamente a RTP se apressou a retirar do RTP Play pouco tempo após o ter emitido, mas que ainda se encontra facilmente.
Claro que não surpreende. Mas até nisso a comissão foi muito inteligente: a leitura daqueles relatos teve um impacto que um mero desenrolar de estatísticas impessoais jamais teria. Uma coisa é lermos que houve pelo menos perto de cinco mil casos de abusos sexuais; outra, bem diferente, é sermos confrontados com o relato na primeira pessoa de tais abusos no noticiário das 20:00, enquanto jantamos.
Obrigado pelas sugestões. Já vi o “Spotlight” (bom filme, e importante, que todavia não merecia o Óscar pelos seus méritos cinematográficos). Procurarei o documentário quando tiver estômago para tal.