DELITO há dez anos


Pedro Correia,

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Ana Lima: «Se Marc e Eddy estavam felizes com a perspectiva de morrer porque não gozaram mais algum tempo essa perspectiva? E porque não foram eles a escolher o dia em que morreriam? Será que se escolhessem um domingo não iria ser possível por causa dos dias e horários de funcionamento do serviço onde se ministra a injecção letal? Não sei, tudo isto é tão estranho…»

 

Fernando Sousa: «Era culto sem espalhafato, ladino e mordaz, e, a par disso, um ser leal e atento e um homem sem vergonha da doçura. Daí termos ficado cúmplices sem saber de quê. A sua ironia às vezes incomodava-me mas o seu humor repunha a qualidade das tantas conversas que tivemos, olhos nos olhos, dos Açores a Gaia, que era como gostava de olhar para o mundo e as pessoas. Ofereceu-me das melhores gargalhadas que já dei quando, uma vez, a meio da doença, o acompanhei a mudar um penso, e, à pergunta da recepcionista da clínica sobre o nome, respondeu prontamente e com o ar mais sério do mundo: “Júlio Machado Vaz.” Não me aguentei. “É que às vezes nos confundem.” E ele a seguir, que também gostava de rir, gargalhou também. Gostava de falar, mas ouvia como vivia: com a alma toda. Firme nos seus motivos, sabia ainda perder – “Touché”. Ele era assim, o João, um amigo cheio, de quem me recuso a despedir. Até porque tínhamos combinado, há poucas semanas, um café para um dia destes…»

 

Helena Sacadura Cabral: «Não costumo fazer parte de “movimentos”. Abro raríssimas excepções, desde que os mesmos partam da sociedade civil, não tenham qualquer conotação política e envolvam objectivos e pessoas confiáveis. Julgo que esta poderá ser uma das poucas vantagens de se ser conhecido: dar rosto por uma causa em que se acredita.»

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