Novamente o Iluminismo


Paulo Sousa,

No final de 2020 postei aqui sobre este livro. O Iluminismo Agora, de Steven Pinker, é uma obra que nos permite observar a actualidade de uma forma menos pessimista. Toda a obra assenta na observação de dados estatísticos e, a partir deles, procura conclusões que, na generalidade, contrariam a percepção pessimista que corre nas veias de quem acompanha a actualidade.

É muito provável que ao folhear o livro, observando os seus gráficos e a relação que o autor estabelece entre eles, mesmo os deploráveis deste mundo, possam ver uma realidade que vai para além do pessimismo que os faz procurar nos populistas resposta fáceis e simples, mas que não são mais do que respostas contra-iluministas.

As limitações da nossa memória restringem a percepção que temos dos ciclos temporais. Sem um pouco de história, é fácil alinhar em explicações e soluções fáceis para o que não está bem.

O autor diz-se motivado a escrever o livro para nos lembrar alguns dons, que tomamos como garantidos: recém-nascidos que viverão oito décadas, mercados a abarrotar de comida, água potável que surge com o estalar de dedos e o desperdício que desaparece com o estalar de outro, comprimidos que curam doenças dolorosas, filhos que não serão enviados para a guerra, filhas que podem andar na rua em segurança, críticos dos poderosos que não são presos ou assassinados, o conhecimento do mundo e da cultura que cabe no bolso do casaco, são todas estas maravilhas, feitos humanos, e recentes.

Os ideais do Iluminismo são produtos da razão humana, mas estão sempre em conflito com outras facetas mais antigas da natureza humana, como a lealdade à tribo, a deferência à autoridade, o pensamento mágico e a culpabilização dos malfeitores pelo infortúnio.

Através do historiador David Wootton, o autor recorda-nos que um inglês culto em 1600 acreditava que bruxas podiam convocar tempestades e afundar navios, acreditava em lobisomens, e que mesmo que não existisse nenhum em Inglaterra, eles podiam ser encontrados na Bélgica, acreditava que o corpo de uma vitima de homicídio sangraria na presença do homicida, acreditava ser possível transformar metal comum em ouro, acreditava que o arco-íris era um sinal de Deus e que os cometas eram presságios do mal e, obviamente, acreditava que a Terra permanecia imóvel e o Sol e as suas estrelas giravam em seu redor a cada 24 horas. Um século depois, um descendente deste inglês, não acreditava em nenhuma destas patranhas.

Apesar disso foi só no final do Séc. XIX que a esperança média de vida dos europeus ultrapassou os 40 anos. Para os asiáticos e africanos este valor foi apenas atingido após a Segunda Guerra Mundial. Um africano nascido hoje pode esperar uma longevidade idêntica à de uma pessoa nascida na Europa na década de 1930.

A variável mais determinante para o aumento da esperança média de vida é a redução da mortalidade infantil. Na Suécia do séc. XIX, entre os 25% e 30% das crianças não chegavam ao 5º ano de vida. Estes valores não diferem muito do período em que éramos simples caçadores-recolectores. Em menos de um século, os registos mostram-nos que este parâmetro foi reduzido em cerca de 100 vezes.

Sobre a mortalidade materna, o autor refere que há 100 anos atrás, para uma mulher norte-americana era tão perigoso ficar grávida como hoje ter cancro da mama, levando a que esta variável tenha sido reduzida em cerca de 300 vezes.

A evolução das conquistas médicas têm sido igualmente notável.

Segundo um relato médico de uma epidemia de febre amarela em Memphis em 1878, os doentes “rastejavam para buracos com os seus corpos contorcidos; os seus cadáveres eram descobertos mais tarde somente pelo cheiro nauseabundo da sua carne em decomposição. {Uma mãe foi encontrada morta} prostrada na cama… vómito negro como grãos de café espalhado por toda a parte… as crianças enroladas no chão, a gemer”. Nem mesmo os ricos eram poupados: em 1836, o homem mais rico do mundo, Nathan Rothschild morreu com uma infecção provocada por um abcesso. O Presidente americano Harrison adoeceu pouco depois da sua tomada de posse em 1841 e morreu 31 dias depois com um choque séptico. Em 1924, o filho de 16 anos do então presidente Coolidge Jr. morreu por causa de uma bolha infectada que fez a jogar ténis.

No dia 12 de Abril de 1955, uma equipa de cientistas validou a segurança e a eficácia da vacina de Jonas Salk contra a poliomielite. Nesse dia, segundo relato de Richard Carter, “as pessoas observaram momentos de silêncio, tocaram sinos, tocaram cornetas e fizeram silvar as chaminés das fábricas, dispararam salvas de canhão… tiraram o resto do dia para si, fecharam as escolas e convocaram assembleias onde fizeram brindes, abraçaram crianças, visitaram a igreja, sorriram aos estranhos e perdoaram inimigos”.

Estima-se que com a descoberta de Karl Landsteiner, dos grupos sanguíneos, se tenham salvado um bilião de vidas humanas. Com a coloração da água, sugerida por Wolman e Enslow pouparam-se 177 milhões. A lista é extensa e inclui a estratégia de erradicação da varíola, diversas vacinas como a do sarampo, tétano, difteria, tosse convulsa, a invenção da penicilina, entre outras contribuições. O número de vidas salvas ultrapassa muitas centenas de milhões, nos quais facilmente podemos incluir cada um de nós, os que estamos a ler este texto.

Muitos outros apontamentos e estatísticas que reflectem variáveis como a subsistência alimentar, a riqueza, a desigualdade, o ambiente, a paz, a segurança, a igualdade dos direitos, o conhecimento, são igualmente referidos nesta obra, que permite ao leitor termina-la com uma visão diferente do mundo, o que não é nada pouco.

Pessoalmente considero que devia ser lida, ao menos por jornalistas, especialmente pelos que se dedicam à entrevista, pois contém informação válida, capaz de abalar os profetas da desgraça, o que é outra forma de me referir aos políticos populistas. A estatística é o kriptonite contra esses palermas.

 

PS: Muitos dos críticos do livro acabam por não conseguir ser mais do que críticos do seu autor. Preferem debater o mensageiro do que a sua mensagem, o que sabemos ser uma táctica bem antiga.

15 comentários em “Novamente o Iluminismo”

  1. Em 1600 acreditava se que bruxas afundavam barcos ? Em 2022 acreditam que estamos numa auto estrada para o inferno e que o mundo vai acabar em breve se continuarmos a usar petroleo e a consumir carne.. viva o progresso.

  2. Na Suécia do séc. XIX, entre os 25% e 30% das crianças não chegavam ao 5º ano de vida. Estes valores não diferem muito do período em que éramos simples caçadores-recolectores.

    Não acredito. Entre os caçadores-recoletores não há doenças epidémicas (porque a concentração de população é muito baixa, e porque o contacto com animais domésticos é inexistente), e portanto a mortalidade infantil deve ser consideravelmente menor.

    1. Fezada do Lavoura versus estudos realizados por centenas de cientistas, que dedicam a sua vida a analisar registos históricos no terreno e, do séc. XIX, nos registos documentais; mas também a análise cada vez mais profunda de vestígios e de restos mortais que permitem, aos poucos, a reconstituição de hábitos de vida (e de morte) dos povos: dos hábitos alimentares, dos ritos e crenças, das relações na família e entre tribos, das movimentações devidas aos ciclos sazonais, a conflitos ou a períodos de escassez, da exposição a predadores e a condições climatéricas adversas, das patologias e o seu efeito na mortalidade, etc.

      Mas o Lavoura percebe de tudo, pelo que vou certamente confiar no seu “não acredito”.

      1. Permita-me que, para me redimir do sarcasmo, apresente alguns factos:

        https://www.statista.com/statistics/1042729/sweden-all-time-infant-mortality-rate/

        Pode verificar que a taxa de mortalidade infantil na Suécia (menores de 1 ano), diminuiu de forma quase contínua, de 240 mortes em 1000 – 24% – em 1800, até às 100.8 mortes em 1000 – 10% – em 1900. Mesmo considerando que a mortalidade se reduz substancialmente a partir do 1.º ano de vida, não me parece que seja difícil aceitar como verdadeira a afirmação que contesta.

        Os problemas causados por uma vida sedentária (epidemias, como menciona) são substituídos / ultrapassados pelos problemas de uma vida nómada, dependente do que se colhe ou caça, da exposição às inclemências do clima e aos predadores, das lutas por alimento, etc.

        São números que demonstram bem quanto evoluímos em termos de cuidados na primeira infância: em 2020, a Suécia apresentou uma taxa de mortalidade de 0,02% (2 em 1000) para menores de 1 ano. De resto, semelhante à nossa no mesmo ano.

        No site da UNICEF pode encontrar um documento de 1993 sobre o tema:

        https://www.unicef-irc.org/publications/32-the-decline-of-infant-mortality-in-europe-1800-1950-four-national-case-studies.html

        Nesse documento, verificará que a Suécia é apresentada como caso de estudo: no séc. XIX apresenta taxas de mortalidade infantil melhores do que outros países europeus; foi o primeiro país da Europa Ocidental a criar um “INE” em 1749, o que permitiu monitorar e tomar medidas face aos dados estatísticos de nascimentos e de mortalidade infantil, entre outros: divulgação e implementação de cuidados de saúde e de higiene; formação e criação de uma rede de médicos, como exemplos.

        Comparando com Portugal que, na statista, só tem dados a partir de 1890, pois muito provavelmente não há registos anteriores: em 1900, a taxa de mortalidade em menores de 5 anos foi de 37,2%…

        https://www.statista.com/statistics/1041899/portugal-all-time-child-mortality-rate/

        Cumprimentos.

  3. Eu conheço o livro de Hans Rosling, Factfulness, que é sobre o mesmo tema, mas focado sobretudo nos países mais pobres.

  4. tem de fazer o seguinte exercício : analisar quem é o autor ; analisar quem ganha a potes com a globalização e a situação actual. depois ligue os dados . e no fim percebe porque este “intelectual” optimista é promovido pelo sistema , e consequentemente tece loas a ele. tudo se compra , tudo se vende.

  5. O meu comentário lá atrás era uma sátira aos Guterres e Gretas que polulam a histeria climática. Há anos que Bjorn Lomborg desmonta com argumentos científicos e equlibrados a nova religião do histerismo climático. Trata se do Diretor doConsenso de Copenhaga professor na Copenhages Business School com imensas publicações acerca deste tema.

  6. “A evolução das conquistas médicas têm sido igualmente notável.”

    Vá lá fazer um exame à próstata e diga aqui em que século em que você está.

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