Como uma grande parte das mulheres, não só da sua como de outras gerações, a mulher do senhor Pereira é acostumada a acreditar na própria culpa. A culpa das tentações que precipitam grandes desastres mas, miseravelmente, também dos incidentes ligeiros do quotidiano. Por isso vem a correr rua acima, afoita e ruborizada, e, mal abrandando para um cumprimento, justifica-se com o corpo todo torcido, que é a maneira de poder olhar para mim sem descurar o sentido e a urgência da marcha:quase me esquecia de ir ao pão. Não fosse o meu marido lembrar-me e nem uma fatiazianha na mesa. Desculpe a pressa, tenho tudo ao lume. Uma querida, tão grata ao senhor Pereira por lhe avivar a memória das tarefas que, por mútuo acordo, são da sua competência. Sem tempo para responder qualquer coisa cortês e inútil, fico a vê-la sumir na rua, dando magnífica prova da habilidade com que uma mulher pode equilibrar a aflição da criada sobre os elevados sapatos de marca da senhora.
O blogue não permite comentários e não faço deia de quem seja a autora. Identifica-se com as iniciais MP. Talvez haja gente farta de saber, não sei. Publica excelentes textos, como este. Os temas são variáveis.
Gosto da sugestão. Obrigada!
Não conhecia. Óptima escolha!
Que blog me fez descobrir! Que escrita magnífica.
” No princípio era o verbo” – que entendimento do poder da palavra, em nenhum dos textos desmentido, quer seja no desencanto, na amargura ou no medo, no desprezo ou no desespero com que constrói ou descreve um mundo, que talvez não seja o seu, mas que todos conhecemos. Grava-se em nós, como tatuagem, a certeza da nossa frágil, humana condição ,que tanto tentamos ignorar. E a discretíssima memória da dor lancinante de quem rasgou os corações de leite de meninos adorados, temo que fique para sempre. Mas ficam também sentimentos de orgulho, de coragem e dignidade, a recusa da subserviência em qualquer das suas formas!
Que Blog! muito obrigada, Cristina Torrão.
Creio que é o blogue Mãe Preocupada e, concordo consigo, Cristina, ela publica grandes textos. Também sou fan.
Visito a espaços.
Curiosidade.Só posso elogiar.
Os longos cansam-me,não fôlego até ao fim.Arredam-me.
Os curtos,ia dizer os ferros curtos,aprecio.
Apresenta-se,e bem,parece que tem,um universo privado,Eu li,a papelaria,a arranjadora de unha e cabelo,as férias,o homem,aquele homem.A praia.Os netinhos,a mana.
Sábio aquele qie se contenta com o espectáculo
Mário Papoilo
Óptimo teaser, este texto, muito bem escrito. Vou passar a seguir.