Isabel II*


José Meireles Graça,

Morreu Isabel, que encarnava o que de melhor tem o Reino Unido. Não porque tivesse escrito como Shakespeare, ou brilhado na ciência como Isaac Newton, ou composto como Haendel (cidadão importado, é verdade), ou sido sequer uma actriz como Vanessa Redgrave ou uma estrela pop como um dos Beatles.

Não escreveu, não compôs, não filosofou, não foi reformadora social nem descobriu nem inventou. E todavia sentimos a sua morte como uma perda e o seu tempo, já, com saudade.

Foi, com inalterável serenidade, o topo de um conjunto de instituições que garantem que o Reino Unido, que já foi um grande império mas agora não é, que já foi o país mais desenvolvido mas, nisto e naquilo, foi ultrapassado, que já teve, por exemplo, dos melhores automóveis, cujas marcas e carácter são agora estrangeiros, e que nos domínios em que está no pódio tem numerosa, e combativa, companhia – continua a ser um exemplo de sociedade que não quer copiar ninguém, quando de todos os lados lhe invejam e respeitam as instituições.

A democracia, primeiro, que como nasceu de uma longa consolidação, e não de revoluções nem golpes de Estado, se lhe incrustou como fazendo parte do código genético; o Estado de Direito, tão enraizado que dispensa uma Constituição formal; e o filho rebelde que se separou por obra e graça de pais fundadores que, quando deixaram de ser britânicos, não deixaram de o ser culturalmente, para criar a superpotência que marcou o séc. XX, e através dela o resto do mundo, mais para o bem do que para o mal: são exemplos das boas razões pelas quais o Reino Unido conta.

Foram quem mais tenazmente se opôs à hegemonia nazi; e que, desconfiados da supraestrutura burocrática, enxerida, inimiga das diferenças nacionais e fatal e tendencialmente antidemocrática que é a União Europeia, bateram com a porta. Há mais povos que tivessem farejado a rasoira anti-pátrias e a terraplanagem europeísta das diferenças? Não há, e foi in extremis, que as novas gerações, lá como em boa parte das democracias do continente, parecem acreditar que a história contemporânea se deve basear na ignorância da pregressa, na obliteração de todas as tradições e na entrega do poder a técnicos que ninguém elegeu.

A instituição monárquica britânica é o símbolo e garante de muitas coisas, das quais a principal é a continuidade, para usar a palavra que todos os encómios de circunstância usam, et pour cause. E Isabel interpretou tão inexcedivelmente o seu múnus que não é apenas na Inglaterra, na Escócia, no País de Gales, na Irlanda do Norte e nos países da Commonwealth que por estes dias se lhe prestam homenagens sentidas. 

E então, nós por cá temos alguma coisa a aprender com a carreira e a morte desta santa civil?

Algumas coisas ocorrem. Muitos dos nossos bisavós, sobretudo lisboetas, instituíram a República porque, para o país decadente se desenvolver, era, acreditavam, preciso mudar o regime. Não apenas a decadência não se reverteu como o que tivemos foi a balbúrdia da I República, a que Salazar pôs cobro. Este cultivou sempre cuidadosamente relações com monárquicos e republicanos, sem jamais confessar as suas simpatias porque a escolha, qualquer que fosse, se definitiva, era divisiva e portanto não consolidava o poder do Estado Novo.

Houve países que se desenvolveram conservando a monarquia e outros liquidando-a; há monarquias em países desenvolvidíssimos, como os nórdicos, e em outros relativamente atrasados, como a Tailândia; e a Espanha, que tem muitos problemas, não teria certamente menos se, em vez de Filipe VI, se desse à maçada de eleger já não digo um Marcelo (personagem que, para felicidade dos locais, não deve existir) mas um político sénior qualquer. Donde, se a lógica não for uma batata, o regime por si não garante nada, excepto, se for monárquico, uma visibilidade acrescida porque a atracção que uma tal instituição pode exercer só funciona para o exterior se se basear numa tradição histórica, tanto mais respeitável quanto mais antiga – o que significa que uns podem e outros não.

Nós poderíamos. Mas as raras sondagens sobre o assunto parecem indicar que em Portugal o sentimento antimonárquico está fortemente enraizado. Não pode ser pelo amor às realizações da República que, se garantem alguma coisa, é a nossa teimosa manutenção na cauda do desenvolvimento; nem pela aversão à personalidade concreta do putativo rei, que pouca gente conhece; nem pela necessidade de unidade, que a que existe é suficiente, ou reforço da nossa identidade, que temos de sobra; nem pela sombra que a instituição poderia fazer às ambições políticas – a presidência da República nem está ao alcance nem é sequer particularmente atraente para a maior parte dos políticos, nem é um lugar de poderes exaltantes para quem se imagine com vocação de grande reformador.

Então – porquê? A chave entendo que está no igualitarismo que mais de quatro décadas de propaganda instilaram no eleitorado: há pobres porque há ricos, a demolição dos segundos é necessária para avançamento dos primeiros, a desigualdade originada pelas diferenças de meios ao nascimento é em si uma clamorosa injustiça e que é lá isso de um tipo que manda em nós porque é filho, neto e tetraneto de outros que se repoltrearam em sedas e que se distinguiam por grandes bigodes e por gostarem de touradas, sem todavia serem pegadores? Não pode ser.

Claro está que não poucos pais se esforçam e fazem sem reclamar tremendos sacrifícios para que os filhos não apenas tenham uma vida melhor do que a deles mas também do que as dos que não fizeram sacrifício nenhum, mas isso, acha o cidadão, é se não der muito nas vistas. Que se o camarada tiver feito fortuna tem garantido o Inferno, para começo de conversa, e os descendentes a AT, como é de justiça e os partidos de esquerda defendem com os dedos justiceiros frementes de indignação virtuosa.

O princípio monárquico é um de desigualdade consagrada nas leis e nos costumes, donde as pessoas de esquerda não o podem, geralmente, subscrever senão quando não tenham outro remédio, como já sucedeu com primeiros-ministros do Reino Unido como, parece, Harold Wilson, a tomar como verdadeira a alegação que disso se fez no The Crown.

Claro que do ponto de vista prático a instituição resulta provavelmente mais barata para o erário público do que a presidencial, e que necessidades de afirmação e notoriedade, somadas à relativa independência da opinião pública, levam ao cultivo de actividades mais ligadas a tradições que precisam de amparo e menos à popularidade popularucha. E a prova de que a colectividade carece, no nosso como em todos os países, de pompa e circunstância, é que as instituições republicanas não a dispensam, normalmente macaqueando formas que, no caso delas, revestem uma substância vazia.

Há, é claro, mais razões para o republicanismo, sobretudo no contexto de limitação de mandatos, que limita o aparecimento de vícios de poder, desde logo a corrupção, como na frase dos políticos e das fraldas, atribuída a Eça. Pode porém dizer-se que monarcas ou membros de famílias reais são mais corruptos do que presidentes e suas entourages? Pode – se se estiver de má-fé.

A tradição é a democracia dos mortos, como disse um amigo meu devoto de Chesterton e que, tal como eu, não é um militante monárquico. Conhece o país e os nossos conterrâneos, sabe do que a casa gasta e está certo de que o regresso à monarquia não resolveria por si o nosso principal problema, tal como o seu abandono não resolveu.

Numa prece assumidamente de gosto duvidoso, que publiquei no Facebook no dia da morte, disse:  Ó deuses, fazei com que Marcelo não diga nada. Isabel merece respeito.

Marcelo já disse, caracteristicamente, as banalidades que achou adequadas, nas quais, a propósito de Isabel, aproveitou para falar de sua exaltante pessoa e, como de costume, dos triunfos que acha ornam a massa que o aplaude.

Isabel merece respeito. E os britânicos, por estes dias, também, além de inveja. Porque conservam a sua herança – nós não.

 

* Publicado no Observador

62 comentários em “Isabel II*”

  1. Se não gosta da União Europeia, porque não emigra para o Reino Unido? Eu cá prefiro poder visitar os 27 países da UE sempre que quero, Irlanda incluída. Só faz falta quem fica.

  2. “Claro que do ponto de vista prático a instituição resulta provavelmente mais barata para o erário público do que a presidencial, e que necessidades de afirmação e notoriedade, somadas à relativa independência da opinião pública, levam ao cultivo de actividades mais ligadas a tradições que precisam de amparo e menos à popularidade popularucha”
    Gostava de ver que contas são essas. Manter um monarca, palácios sortidos incluídos, e a respetiva parentela – incluindo pedófilos, adúlteros e demais jet-seters – é mais barato do que pagar o ordenado e despesas de um presidente da república numa democracia. Podemos comparar com a americana, mas o presidente americano não é um biblot, não serve de comparação.

    1. “Bibelot”.
      Quando nos queremos armar em poliglotas convém saber como se diz e como se escreve.

      Para não dizer que venho para aqui só comentar coisas menores acrescento que só se deve comparar o comparável, ao contrário dos seus exemplos despropositados.
      Deve assim escolher países da dimensão do nosso e procurar saber como são afectas as despesas gerais do orçamento de cada uma das instituições.
      Há situações em que é tudo afecto ao órgão em causa e outros em que são divididas por vários ministérios (como é o caso de Espanha, por isso muitas vezes se lê que sai mais barata a monarquia de lá que a presidência de cá).

      Tudo isto para dizer que se calhar tem toda a razão mas não é com esse arrazoado primário que alguém o leva a sério, tirando os outros primários.

      1. A monarquia sai mais barata? E o dinheiro que o Rei Emérito gasta com profissionais do sexo? Toda a gente sabe que ele não é nem nunca foi fiel à Sofia.

        1. Eu não disse que a monarquia sai mais barata, muito pelo contrário, disse que as despesas lá são distribuídas por vários ministérios e cá não, caem todas na PR.
          Dei assim razão à ideia de que a monarquia não é necessáriamente mais barat critiquei assim os que dizem que a monarquia de lá sai mais barata.

          Você interpretou tudo ao contrário e ainda vem com as conversas patetas das quecas deste ou daquele, como se o dinheiro para isso viesse do erário público e não de bens pessoais, esses sim discutíveis.
          É o que dá disparar para onde se tem a pistola virada, neste caso para os pés.

          Se sabe ler e não sabe interpretar tem um problema sério e devia procurar aconselhamento
          médico urgente.
          E eventualmente um psiquiatra.

          1. Alguém que defende que o resultado de séculos de incesto seja chefe de estado a sugerir psiquiatra aos outros…

          2. Epá, sou REPUBLICANO e sempre fui.

            Só estou a falar de custos.e critiquei claramente os que dizem que a monarquia sai mais barata.
            E você a pôr-me na escrita coisas que não estão lá, obcecado com incestos.
            Não há pachorra para tanto analfabetismo funcional, nem conseguem interpretar o que lêem.

    2. A manutenção de palácios teria sempre de se fazer. O sustento de quem os habita é votado no parlamento. Chama-se lista civil.
      Há anos ainda via gente a ir a Belém assistir ao render da guarda. Quanto vale para o turismo britânico a atracção do Palácio de Buckingham? Seria o mesmo sem inquilinos? Quantos milhões, internos e externos movimenta um espectáculo como o funeral da rainha? Só os direitos de transmissão televisiva tapariam os défices de várias empresas públicas portuguesas.
      Quanto custa uma eleição presidencial? Com a agravante de deixar um país dividido e muitas vezes tribalizado. Ao contrário de funerais, casamentos, nascimentos e baptizados reais que funcionam como incremento de sentimentos nacionais.
      Toda a família real exerce funções de representação. Quando se inaugura um chafariz numa aldeia, mais do que a inauguração, é necessário que a população sinta que conta para alguma coisa. Não é racional, é sentimental. Em Inglaterra é toda a família real que desempenha esse papel. Em casos muito importantes, irá a rainha, em menos importantes um dos príncipes, em casos ainda mais simples o duque de Kent. Em Portugal, vai um ou mais ministros, sempre um secretário de Estado e, como ao contrário da família real, pode acontecer que a imprensa faça perguntas de ordem técnica, um ou mais directores-gerais e assessores q.b.. Nesse dia ninguém da área trabalha e todos ganham ajudas de custo e debitam despesas. Se a terrinha for longe, tudo o que é FP recebe horas extraordinárias A diferença é brutal.
      Depois a família real não precisa de provar nada a ninguém. Nasceu e pronto. Já as autoridades em república, exploram ao máximo a representação, a comitiva, etc.. porque têm necessidade de provar a sua importância política, dentro do seu partido e no eleitorado em geral. Mesmo fora de cargos políticos, o princípio é o mesmo. Precisam de se afirmar.
      Há muitos, muitos anos, num tempo em que o rigor orçamental e o despesismo não tinham comparação com a época actual, a filha do PR almirante AméricoThomaz foi convidada a visitar a Exposição Universal de Osaka, no Japão. Fez-se acompanhar de uma comitiva de 10 pessoas, incluindo a cabeleireira de Cascais. Mais ou menos na mesma época, a princesa Ana de Inglaterra visitou oficialmente Espanha. Num caso era um simples convite para um evento, noutro a representação nacional. A princesa Ana fez-se acompanhar por uma dama de companhia e por um oficial às ordens
      Isto para não falar da casos patológicos, como quando Sócrates viajou para os Estados Unidos e encheu um avião entre assessores e jornalistas convidados.

      1. Maldita democracia que “divide as pessoas”. Fixe, fixe, são as monarquias onde chega a ser crime dizer mal do rei. Quanto à princesa Ana, deve ser a única pessoa minimamente decente naquela família, inclusive desafiando os estereótipos de género.

        1. O comentador anterior só se referiu à eleição do PR, você mistura aí “democracia” não se vê porquê dado que o Reino Unido não me parece que peque por aí (mas V. lá sabe).

          As linhas seguintes ainda são mais cómicas pois de repúblicas onde é crime dizer mal do PR está o mundo mais que cheio, como é óbvio.
          Pois se é crime dizer mal do vizinho quanto mais do PR, não é?

          Em Portugal rege-se a questão por aqui (Código Penal – LIVRO II – Parte especial)

          Artigo 328.º – Ofensa à honra do Presidente da República
          1 – Quem injuriar ou difamar o Presidente da República, ou quem constitucionalmente o substituir é punido com pena de prisão até 3 anos ou com pena de multa.

          2 – Se a injúria ou a difamação forem feitas por meio de palavras proferidas publicamente, de publicação de escrito ou de desenho, ou por qualquer meio técnico de comunicação com o público, o agente é punido com pena de prisão de 6 meses a 3 anos ou com pena de multa não inferior a 60 dias.

          3 – O procedimento criminal cessa se o Presidente da República expressamente declarar que dele desiste.

          Sou republicano convicto mas odeio gente que fala do que não sabe e só porque odeia determinadas situações as ataca com argumentos patetas e ignorantes.
          Portanto volte sempre.

          1. Quantas pessoas em Portugal foram condenadas por “ofender” o Presidente da República? No Estado Espanhol as condenações por “ofender” a coroa são o prato do dia. E a título de curiosidade, o Livre propunha no seu programa político retirar esse artigo do código penal. Durante a campanha eleitoral Rui Rio classificou essa proposta, que procurava retirar uma lei obsoleta, como “bandalheira”, usando uma palavra típica de André Ventura. Haverá muita diferença entre a direita e a extrema-direita? Não me parece.

          2. Grande confusão vai por aí.
            A lei é obsoleta porquê?
            Não acho, tem é que ser aplicada, o que não é fácil na “pátria” do nacional-porreirismo.
            Como se sabe em Espanha a mentalidade é outra, por isso lá houve uma guerra civil medonha e aqui acaba sempre toda a gente aos abracinhos.

            Já agora: mas afinal o que é que você defende?
            E o que é que as suas considerações finais trazem de novo?

          3. A resposta que nunca falha.

            Então eu estou na terra do “agarrem-me que senão eu mato-o” onde ninguém agarra nem mata e ía para a terra onde não pedem para os agarrar mas matam?

            Não percebeu nada do que está escrito mas deve estar muito feliz com a sua perspicácia.

  3. Um texto que deveria ser de leitura obrigatória para os balios, as legiões de balios, que por cá vicejam. Mas seria inútil, em qualquer caso. Para uns, por ser uma maçada, muito extenso; para outros, por recorrer a um vocabulário que largamente ultrapassa o requerido para sobrevivência básica, aquele que entendem; para todos porque, muito instruídos que sejam, a sua cultura fica orgulhosamente na espessura do papel vegetal.

    1. Ah ganda Costa, como é que você anda por aqui a ler estas coisas, que outros, sabe-se lá, se calhar, até pedem para ler. É o que isto da internet, qualquer Costa pode ler e comentar.

      1. Ó colega Anónimo, tenha lá cuidado com isso.
        É que a sua última frase aplica-se perfeitamente a si.

        Qualquer pessoa normal lia o “Costa” e dizía para os seus botões “vamos lá a ver como atiro este gajo ao tapete com dois ou três argumentos”.
        Mas não, você ataca-o com uma frase que se aplica na perfeição a si e nada a ele que defende as suas ideias, concordemos nós ou não com elas.
        Coisinha esperta!

    2. Oh, sô doutor, que categoria!!! O doutor é polícia, juiz, carrasco e ainda tem engenho para ser coveiro.
      Mas tem a certeza que os balios vicejam? não vegetam?
      Ou o seu extraordinário ementário traiu-o?

      1. Ó pa (é capaz de ser “pá”), eu não sou doutor. Apenas licenciado (valha que uma licenciatura a sério, dessas de cinco anos, duros; estudados, mais que pagos – percebes? – e não exactamente em gestão de campos de golfe ou coisas afins; enfim, cursos pré-Bolonha, de um tempo profundamente reaccionário. Só pode…).
        Os balios? Ai vicejam, vicejam! E mais, são eles quem está do lado certo do tempo.
        Só podes ficar feliz, pá.

  4. «e não de revoluções nem golpes de Estado»

    Revolução alguma ao contrário dos franceses que tiveram Cromwell e que foram os primeiros a cortar a cabeça a um rei, Charles I.

  5. Não se pode publicar uma opinião sobre as vantagens que encontramos noutros países sem aparecer logo alguém a dizer para nos írmos embora para lá, é uma moda que se vem instalando nas caixas de comentários e que as pessoas usam achando-se muito vivaças ao fazê-lo.
    Como se não bastasse a única vantagem apresentada por este é a de viajar sem fronteiras.

    É cansativo aturar tanta falta de argumentos e de senso pois este mesmo que o manda embora acha que só fazem falta os que ficam e, portanto, você ficando afinal faz falta.
    Nem a expressão popular sabem.
    Por isso o Einstein dizía que o universo e a estupidez eram infinitos mas tinha dúvidas apenas sobre o universo.

    1. O povo português não quer a monarquia nem quer sair da União Europeia. Por isso quem defende essas duas coisas pode fazer as malas. Os portugueses residentes no seu país não querem sair da UE e os milhões de portugueses que vivem noutros países da UE também não. E o segundo país no mundo com mais portugueses (obviamente a seguir a Portugal) é uma das repúblicas mais antigas do mundo.
      PS: Einstein era um radical de esquerda.

      1. Belo “democrata”, desses que há por aí aos pontapés.
        E a dar lições inúteis pois toda a gente sabe isso.
        Mas quem é que quer saír da UE que é quem nos aguenta vivos?
        Quase ninguém, como é evidente.
        Saíndo da UE, sem indústria e sem produtividade na pouca que existe, lá se ía o escudo por aí abaixo e aí sim, o turismo aumentava logo, só que o dinheiro entrado, para nós, era o mesmo.

        Isso chama-se “Whataboutism or whataboutery” e vai em inglês de propósito para lhe dar trabalho ao cérebro que, pelos vistos, não usou muito pois nem percebeu que eu falava em termos genéricos sobre não se poder dar uma opinião sem aparecer logo um “democrata” com frases feitas e sem argumentos desejoso de correr a pontapé quem veja as coisas de outra maneira.

        Whataboutism or whataboutery (as in “what about…?”) denotes in a pejorative sense a procedure in which a critical question or argument is not answered or discussed, but retorted with a critical counter-question which expresses a counter-accusation.

        1. O Reino Unido saiu da União Europeia. Quanto ao resto, este é um blog português por isso não me sinto na obrigação de comentar parágrafos em inglês.

          1. Ainda que a muitas pessoas percebam o inglês mesmo que não o falem, a realidade é que
            muitos não tiveram sequer essa possibilidade pois a vida não lhes proporcionou essas vantagens (e normalmente nem muitas outras).
            Portanto reconheço que não devia ter posto em inglês.

            Segue assim, em tradução livre minha, a tradução do texto:
            ‘Whataboutism”:
            Mostra num estilo pejorativo um processo em que uma crítica ou um argumento não é respondido nem discutido mas devolvido com uma contra-crítica que exprime uma contra-acusação.

            Por sua vez o ‘Whataboutism” é uma expressão que não tem tradução mas que os seus utilizadores podem ser definidos como aqueles que “não pretendem que as suas ideias sejam mais úteis ou verdadeiras, mais libertadoras, mais instrutivas ou mais honestas. Pretendem apenas desviar o assunto daquilo que mais os incomoda.”

            Portanto é isto e desejo-lhe um belo resto de domingo pois não tenho intenção de o incomodar mais.

    2. “Não se pode publicar uma opinião sobre as vantagens que encontramos noutros países sem aparecer logo alguém a dizer para nós irmos embora para lá…”, tem toda a razão.
      O que é que tem escrito quando o Pedro Correia o manda para Kremlin ou arredores?

      1. “O que é que tem escrito quando o Pedro Correia o manda para Kremlin ou arredores?”
        BURN! Eu já fui mandado para o Kremlin por criticar a monarquia inglesa. Vá-se lá perceber porque não nos mandam a nós, republicanos (a maioria do povo português), para repúblicas como a da Finlândia ou da Irlanda.
        Mas seguindo a lógica do Pedro Correia, acho que podemos começar a mandar os monárquicos para o reino da Arábia Saudita. Até porque não consta que haja muitas publicações neste blog (se é que há alguma), a criticar o reino da Arábia Saudita.

      2. E porque é que o Pedro Correia me havia de mandar para o Kremlin, ó cabecinha pensadora?
        Se o mandou a si e a outros isso é lá entre vocês e ele, por mim estejam à vontade tanto um como os outros, são livres, algo que pelos vistos o incomoda a si.

  6. Sou republicano por opção do racionalismo da minha capacidade de discernir.
    – Porque razão vou (vamos) entregar a gestão de todos nós a alguém só porque nasceu de outro alguém, mesmo que seja um palerma?
    – Porque não nos reunimos todos e escolhemos quem nos vai liderar??
    Sim, mas há uma coisa que escapa aos mui inteligentes óh pinadores!
    – Porque razão então admiramos a monarquia???
    No meu caso (republicano por opção) não me custaria nada aceitar a monarquia ( ao estilo britânico) Nasci, fui educado à mesa, (e só depois é que fui para a escola) no seio de uma célula social chamada FAMILIA uma coisa nada “republicana”. O meu Visavô era o patriarca. Depois a liderança passou para o meu avô. E quando o meu avô morreu quem passou a mandar foi seu filho – ou seja, o meu pai – hoje a liderança está no “Cabeça de Casal” ou seja a minha Nai. E que eu saiba nunca houve eleições nem qualquer votação para que as coisas fossem de outra maneira!
    Marquem uma consulta num antropólogo pois pode ser que explique a coisa mais bem que eu!

    1. mesmo que seja um palerma?

      O cúmulo da argumentação republicana para validar a pertinência de um regime: e se o rei é palerma?

      1. Se o presidente é um palerma, podes tirá-lo do poder nas próximas eleições.
        Se o rei é um palerma, tens que aguentar com ele até que ele morra. E, tendo em conta a longevidade dos pais e da avó do rei Carlos III, é bem provável que este fique lá até aos 100 anos.
        Mas vou recorrer à única linguagem que a direita percebe: e se José Sócrates fosse rei de Portugal? Aí aposto que o Delito de Opinião virava todo republicano.

        1. Alguma vez houve um rei palerma que tivesse governado? Não. E os reis depõem-se. Aconteceu bastantes vezes na história europeia.

          Sócrates governou e serviu-se durante 8 anos. Ele e centenas de outros.

          Volto a repetir, porque as pessoas de esquerda são literais e têm pouca imaginação: a diferença aqui é entre uma coisa simbólica e uma coisa prosaica e literal que nunca passa das contas de mercearia.

          1. Já ouviu falar no D. Sebastião? Ou ainda está à espera que apareça numa manhã de nevoeiro?

  7. Meu caro amigo.
    não estou longe de ser o mais velho militante monárquico, mas sempre por conta própria. Sei do que a casa gasta.
    A Rainha isabel morreu e reina Carlos III . Uma maçada para os republicanos porque todos – e os portugueses em particular – percebem como tudo é simples e Monarquia. E como a Monarquia aprofunda a democracia.
    Os espectáveis bitaites só podem ser confrontados com a velha realidade “Rei morto, Rei Posto”. Oito kms para homenagear a Rainha talvez cheguem.
    Nem o meu Amigo nem eu vamos assistir às exéquias televisivas, era o que mais faltava..
    No mais: o Marcelo qe vá á merda. A rpe. portuguesa também.

    Aceite os cumprimentos do
    João Afonso Machado

    1. Que os ingleses, que vivem numa ilha e a maioria deles nem à Irlanda foi (o único país onde ainda podem ir sem controlo de fronteiras), gostem de incesto, é lá com eles. Em Portugal não queremos monarquias. Deixo ainda o artigo 332º do Código Penal:

      “Quem publicamente, por palavras, gestos ou divulgação de escrito, ou por outro meio de comunicação com o público, ultrajar a República, a bandeira ou o hino nacionais, as armas ou emblemas da soberania portuguesa, ou faltar ao respeito que lhes é devido, é punido com pena de prisão até 2 anos ou com pena de multa até 240 dias.”

      Felizmente vivemos numa república democrática e não interpretamos tudo à letra, pelo que os lunáticos monárquicos têm o direito a dizer disparates, ainda que não o devessem fazer.

      1. Ainda assim os preclaros republicanos, entre disposições de direito penal e de direito constitucional, cuidaram de blindar o seu regime. Mesmo que a vontade popular fosse ou venha a ser, com a legitimidade do Soberano (que é o povo, não “os republicanos”), diferente, Portugal tem que ser uma república. Porque sim. Salvo golpe de estado (outra transição não se antevê; não com esta gente que se apoderou do país como sua coutada). Felizmente – para esta gente – o Soberano, ainda que “boa gente”, é, gosta de ser, e nisso é metodicamente mantido, exuberantemente ignorante, convenientemente mesquinho e metodicamente embrutecido.
        Bela democracia. Bela república. Belos fundamentos jurídicos do regime.

        1. Se quer uma monarquia, só precisa que dois terços do parlamento seja a favor dela para poder haver uma revisão constitucional. Boa sorte. Excepto que nem o povo nem o parlamento querem isso. Viva a República!

  8. Mas as raras sondagens sobre o assunto parecem indicar que em Portugal o sentimento antimonárquico está fortemente enraizado. Não pode ser pelo amor às realizações da República

    Pois não. É mesmo pelo enviesamento das estatísticas e, como o autor do post referiu mais abaixo, pelas falácias intelectuais do discurso político. E pela comparação errada da monarquia à república, que fazem usos de discursos simbólicos diferentes. A primeira de um discurso de fundação nacional e a segunda de servilismo ideológico e de benfiquismo parolo.

      1. Quando se quer citar uma frase de outro é capaz de ser mais fácil fazer copiar/colar.
        Isso de ter o cuidado de pôr as aspas e até os três pontinhos a indicar que é um fim de frase e depois trocar as letras ao “benfiquismo” é sinal de que a pressa em chamar nomes ali ao V. se sobrepôs a tudo.
        Mas teve graça pelo óbvio.

    1. Claro, a culpa é toda do “estúpido do povo”, que vota no PS, é republicano e adepto do Benfica. Quando a direita monárquica finalmente fizer a autocrítica, vai perceber quão ridícula é e transforma-se em esquerda republicana. Pode ser que finalmente o PSD volte às suas raízes de quando realmente era um partido social-democrata de centro-esquerda.

      1. a culpa é toda do “estúpido do povo”, que vota no PS, é republicano e adepto do Benfica.

        Tragicamente, parece ser esse o caso.

      2. Voto no PS, sou republicano mas não sou adepto do Benfica.
        Só pode ser por este último facto que não me lembre do nosso partido social-democrata ser de centro-esquerda, a menos que se refira aos tempos em que o PS era socialista até um conhecido secretário-geral ter “metido o socialismo” na gaveta.
        Gaveta onde acho que continua a menos que já nem esteja lá.

    1. Que a direita portuguesa é xenófoba contra o seu próprio povo, já todos sabemos. Não gosta de portugueses, emigre.

    2. Uma verdadeira chatice, caro doutor JSP, Portugal ser habitado por portugueses.
      E alguns deles são uns pedantes e uns presunçosos que nem lhe conto.

  9. JMG, excelente texto. Interessante “big picture” do que são, não são e podem ser os regimes monárquicos e republicanos. E os eventuais ecos de esses fenómenos sociais por cá, no Terreiro do Paço, em Belém e em S. Bento.
    Concordo, a História regista e registará Sua Majestade a Rainha Elisabeth II como “primus inter pares”. RIP Senhora Raínha.

  10. Antes de mais permita escrever: R.I.P Isabel II. Sobre Isabel II é o que posso dizer, pois em nada marcou minha vida e minha cultura, até mesmo em matéria emocional.
    Porém concordo consigo que a monarquia inglesa em matéria política é irrelevante, mas não o é culturalmente. Mas a cultura é como o folclore: não é boa nem má, somente genuína. E um dos problemas que hoje a humanidade enfrenta é exactamente não entender o que é a cultura. Não entendendo também não as respeita. E a Inglaterra também precisa evoluir culturalmente.
    Também entendo como acto de snobismo que, por exemplo, a Austrália seja uma monarquia constitucional. Claro que é para inglês ver.
    Discordo quando afirma “Foram quem mais tenazmente se opôs à hegemonia nazi”. Eles não se opuseram a nada, limitaram-se a reagir perante uma evidência e também pela sua sobrevivência. Mas esta reacção não pode esquecer o contributo dos indianos quer em sua presença na guerra quer na morte pela fome que padeceu sua população ( da India) para garantir os abastecimentos a Inglaterra. Sem esquecer que os ingleses em 1947 deixaram uma India dividida.
    É-me indiferente a monarquia ou a república, se a monarquia não for o Deus (ungido) na terra. Todavia, os republicanos imitam mesmo bem os tiques.

    1. … a monarquia inglesa em matéria política é irrelevante, …
      É, até deixar de o ser. Eu assisti na minha vida a uma actuação politicamente determinante de Isabel II. Depois até se mostrou irrelevante mas isso não interessa. Na altura foi essencial.

      1. Francisco, se na sua vida assistiu a uma só acção da rainha politicamente determinante então só confirma que a monarquia é politicamente irrelevante mas culturalmente importante. Por vezes na politica assiste-se a exaltamentos culturais para se atingir propósitos até mesmo enganadores. Os monarcas ingleses estão tão equivocados em matéria cultural que usam as formalidades do catolicismos para poderem ser anglicanos.

  11. “Foram quem mais tenazmente se opôs à hegemonia nazi”
    Os fantasmas dos 30 milhões de soldados do Exército Vermelho dizem olá.

    1. Devido à guerra morreram cerca de 30 milhões de pessoas da União Soviética: 11 milhões de soldados, 10 milhões de civis atingidos pelos combates e outros 9 milhões vítimas da fome e das doenças associadas.

      Acabar o seu comentário com uma gracinha de um “dizem olá” diz alguma coisa sobre o modo como encara a questão.

      De resto parece-me que quem iniciou a conversa se referia só às frentes ocidentais onde foram por demais evidentes colaboracionismos variados, mas se calhar devemos explicar tudo porque nem toda a gente quer perceber.

      1. Ah espere, queria que, 77 anos depois, eu estivesse a fazer luto pela morte de 30 milhões de pessoas numa guerra? Nem os russos o fazem. Até porque se se fizesse um dia de luto por cada morto na Segunda Guerra Mundial, a humanidade acabava primeiro.
        Ignorar a Frente Oriental na Segunda Guerra Mundial é tão ridículo como achar que Portugal se resume ao concelho de Lisboa.

        1. Quando responder em tom ofendido a um comentário certifique-se que percebeu bem aquilo a que responde.
          Eu não faço luto mas muito menos faço gracinhas, porque essas é que ofendem a memória.
          Mas as gracinhas cá continuam, deve achar o tema engraçado.

          O que eu escrevi é que achava que o comentador anterior teria falado da frente ocidental, mais nada, isso não é ignorar a frente oriental, é apenas estar a falar só da ocidental.
          Essa técnica excitada de dizer aos outros o que deviam ter dito e não disseram está muito na moda.

          Portugal não se resume ao concelho de Lisboa, obrigado pela informação mas já sabia.
          Inteligente comparação a sua.

  12. Parabéns pela sua desonestidade intelectual.
    “Não pode ser pelo amor às realizações da República que, se garantem alguma coisa, é a nossa teimosa manutenção na cauda do desenvolvimento.”
    As causas da manutenção actual, segundo a sua opinião, na “cauda do desenvolvimento”, deve-se muito à herança que a monarquia deixou ao país: 90% de analfabetos, quando nos países do norte e centro da Europa já havia menos de 10%, na viragem do séc. XIX para o XX. Mas não menos aos 48 anos de breu em que o seu amado Salazar, que soube pôr cobro à balbúrdia, mas não o incomodou o analfabetismo atroz, a falta de formação, a manutenção de uma esmagadora parte do país na idade média. Enquanto os países democráticos da Europa se transformavam e nos deixavam, isso sim, na “cauda do desenvolvimento”.

    Em relação às monarquias, tenham a sorte de ter figuras mais sensatas (como a Inglesa), ou figuras mais patéticas (como o “nosso pretendente”), são resquícios das primeiras sociedades urbanas e da forma como as elites se impunham e exploravam o resto da população.
    Hoje não passam de anacronismos.
    Já lhes retiraram todos os poderes, as monarquias nos países democráticos e desenvolvidos limitam-se a existir.
    O único grande mérito é o de estarem caladinhos e não fazerem ondas.
    Só assim são toleradas.

    1. Concordo plenamente. Imaginem o tal “D. Duarte” ser rei de Portugal e vir fazer uma comunicação ao país em que diz que a educação sexual consiste em dizer aos jovens para fornicarem à vontade (como se “fornicar” fosse uma coisa má).
      https://expresso.pt/blogues/blogue_100_refens/dom-duarte-e-os-fornicadores-implacaveis=f584752
      O que no fundo é hipocrisia da parte desse senhor, pois muitos monarcas “fornicam” ou “fornicavam” com mais que uma mulher ao mesmo tempo (sendo o rei Carlos III um desses exemplos).

    2. A Casa de Bragança de facto é um bocado vergonhosa. Representa a monarquia pedante, distante do povo — a que abandona o povo à sua sorte. Mas os ricos em Portugal são assim: pedantes e paternalista. A própria classe média-alta portuguesa tem esse comportamento. Nada disso tem a ver com o regime político, tem a ver com a mentalidade.

  13. A escrita brilhante, a argumentação sedutora. Leio no metro de relance. Preciso de o ler em outro contexto. Mas algo me sussurra que esta fúnebre monarcofilia responde a outras razões.

  14. o nosso principal problema

    Sabemos qual é? O texto aponta para que seja o desprezo pela tradição, pela fantasia de que é preciso destruir para construir — em vez de se renovar por dentro.

    E eu concordo.

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