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O futebolista Matheus Nunes é transferido do Sporting para um clube inglês por 50 milhões de euros, tal como antes o seu colega João Palhinha saíra para aquele país por 22 milhões de euros. Associe-se isso às largas dezenas de milhões de euros pelas quais o Porto cedeu as licenças dos jovens Vitinha e Fábio Vieira, e as recebidas pelo Benfica através de idêntica operação com o uruguaio Darwin. E isto para além de outras operações similares, ainda que de menor montante, que vários outros clubes portugueses vêm fazendo.
Tudo somado poder-se-á constatar que nesta “economia de lazer” globalizada – na qual o futebol, como maior desporto mundial, tem um enorme relevo – Portugal é um grande exportador de licenças desportivas, com assinaláveis lucros. Os quais se repercutem, directa e indirectamente, nas empresas desportivas, seus fornecedores e empregados. É certo que numa economia aberta já não tem o mesmo sentido falar em acumulação de divisas, mas ainda assim os efeitos positivos são relevantes. E talvez um Estado atento à indução da produtividade pudesse reflectir naquilo que os clubes tanto exigem – um aligeirar dos impostos sobre os ordenados dos jogadores, legítima dada a especificidade (curta duração) dessa carreiras profissionais. O que aumentaria, e em muito, a capacidade formativa dos clubes nacionais e o estatuto de “trampolim” para os grandes mercados internacionais. E concomitantes lucros nacionais. Ou seja, neste caso é evidente que a pesada carga fiscal é contraproducente para o objectivo social de incrementar a riqueza interna e sua distribuição. Contra esta ideia, alguns argumentarão que os jogadores de futebol ganham imenso – mas isso não corresponde à verdade, alguns ganham imenso, umas dezenas ganham muito, centenas são artistas remediados até aos seus trinta anos, e imensos são meros assalariados empobrecidos.
A transferência de Nunes tem, evidentemente, uma outra dimensão, que nada tem a ver com Economia mas sim com Cultura. Presumo que o jogador aceitou a transferência dado que partiu para o mais importante campeonato do mundo e que terá acesso a um grande aumento de remunerações. Mas quer-me parecer que o jogador também considerou que a sua presença no campeonato inglês lhe poderá impulsionar a titularidade na selecção portuguesa neste próximo Mundial-22, legítimo anseio pessoal e profissional. Pois, de facto, é notório que o seleccionador Fernando Santos cada vez é menos atreito aos jogadores do Sporting e, em particular, a outorgar-lhes o estatuto de titular – uma subalternização que se tornou evidente neste absurdo caso. Fará parte da sua Cultura de seleccionador… É possível que Nunes tenha pensado nisso. Quanto a mim presumo que a sua associação no meio-campo de Wolverhampton com Rúben Neves será positiva. E que essa familiaridade entre dois jogadores, até possível comunhão, lhes será útil, lhes dará alento, amparando-se no banco da equipa nacional, vendo jogar Danilo e William Carvalho, entre outros. Pois “ele” há coisas que não mudam…

Esta escrita sobre futebol é bem diferente da sobre Salman Rushdie.
Tá bem que o tema também é diferente, mas achei interessante as duas escritas.
Obrigado por me deixar saber do seu interesse. E sim, será diferente a escrita – este postal saiu de rajada, como exorcismo da minha desiludida angústia face a esta transferência… já o outro foi remoído durante uma noite, a resmungar contra um feixe de coisas e gentes que bem me irritam – terá ficado mais chato. Longo, pelo menos.
Boa tarde, Ao que se sabe o jogador irá auferir por ano 2,2 milhões de euros, e não querendo ser demagogo a curta carreira para justificar uma redução da carga fiscal não faz sentido. Um trabalhador que aufira o salário mínimo necessitará de 223 anos para ganhar 2.2 milhões de euros
Pedro Cunha
O autor do post deu uma boa resposta para essa questão e expressou pelo menos no que me toca a minha opinião e nem falou daqueles que nem chegaram sequer a entrar no futebol profissional mas que o fazem nas distritais e que permitem que muitos jovens miúdos apareçam depois.
Mas eu como tenho memória ainda me lembro dos malfadados 30 metros (últimos) e do homem que pôs isto tudo a mexer de vez e bem diga-se.
Pedro Cunha, às vezes custa-me dialogar. Veja isto: 1) eu falo de impostos em Portugal e V. responde com remunerações no estrangeiro, e ainda diz que não quer cair na demagogia; 2) e sabendo eu que há alguns futebolistas soberbamente remunerados no nosso país, está escarrapachada no postal não só a pluralidade de remunerações existentes (e a esmagadora maioria é relativamente pequena, uma espécie de “circo pobre” de algumas décadas), como 3) do que falo não é de uma “moral fiscal” (sempre apetecível de brandir) mas de uma indução estatal – fundamentada em especificidades laborais – para incrementar uma actividade económica (até surpreendentemente) lucrativa. Que mais quer que eu lhe diga?
Caro jpt
Admito que tenha percebido mal o seu post, obrigado pela sua resposta
Pedro Cunha