O grande Millôr Fernandes – humorista, escritor, dramaturgo, desenhador, autor de alguns dos mais sarcásticos textos da língua portuguesa no século XX – já não está entre nós.
Mas ainda é possível aprender com ele.
Aqui transcrevo um apontamento (em “desacordo ortográfico”) que ele publicou na revista Veja, a 11 de Fevereiro de 2011.
«Em matéria de linguagem, o que me causa irritação, porque está mesmo errado, é o uso indevido, em qualquer das dezessete línguas em que leio (tá bem, deixo por três ou quatro!), de “na década de 1950”, “na década de 1770”. Querem falar de década e usam milênio. Década é década, se refere a 10, não a 1000, ô meus!»
Palavras actuais como nunca. Porque a praga está cada vez mais vulgarizada. Não só no Brasil: também em Portugal.

Diz-se “na década de 1950” porque foi mesmo nessa década, e não na de 2050 nem na de 1850. Se se dizesse “na década de 50” estar-se-ia a ser indefinido, impreciso.
Você, que usa e abusa do nosso espaço e da nossa generosidade a debitar alarvidades aqui há 13 anos, teria aproveitado bem melhor o tempo se escrevesse um livrinho de dez ou quinze páginas intitulado Pensamentos do Lavoura. Com bonequinhos para ilustrar.
Capaz de ser besta célere.
“O grande Millôr Fernandes” – de facto, era-o.
Sem dúvida.