Palmela a arder


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Sem histerias, Palmela está a arder. Há horas que de casa vejo as labaredas, que cinza e fumo abundam neste dia ventoso. Decidi ir ver de perto, para optar para além disto de regar sebes, telhados e adjacentes. Encontro zonas a arder mesmo junto à estrada para a Quinta do Anjo sem estarem acompanhadas, dada a pressão noutras vias. Ouço um crepitar crescente não muito longe. Desde há horas que dois helicópteros vão encher o respectivo modesto cesto a uma piscina vizinha, nada mais. Regresso a casa, arrumando as coisas mais prementes e/ou preciosas, como quem não quer a coisa. Entretanto a electricidade, que fora cortada, reaparece. E com isso as imagens da televisão, a mostrarem o fogo ainda mais perto. E as notícias da recusa de mais apoio aéreo requerido pelas instâncias da vila. A 5 Kms da capital do distrito, a 40 Kms da capital do país – e não há recursos suficientes para evitar males maiores.

Fecho-me em casa para fumar um cigarro – que não me acusem, e muito menos hoje, de violar as regras securitárias agora estipuladas, como se fosse isso a panaceia. E noto, nesse breve refúgio, que não me angustiava desde a explosão do paiol de Maputo – então bem mais, pois tinha família comigo. Enfim, apago a cigarrada, escorropicho a cerveja. E vou regar.

13 comentários em “Palmela a arder”

  1. Nem sei o que diga, mas penso em todos aqueles que estão a braços com estes tórridos ardores de Verão. Por aqui, felizmente sem fogo, abraçam-nos uns 42°C ( há pouco 44°C) . Vou tentando ler na varanda. Gosto bastante de ler os seus posts e não deixe de escrever, jpt.
    Maria

    1. É a realidade do país onde se vê na televisão o que décadas de municipalismo fizeram à paisagem. Acessos esquisitos, tudo com ar rasca, barracas e fábricas no meio dos pinhais, tudo imundo, cheio de pneus e de zinco. Vê-se de cima, do Google Earth, a imundície, os quintais manhosos, as casas mal feitas.

      O país de que as elites sempre tiveram vergonha e que nunca quiseram desenvolver. Só saem de Cascais para o aeroporto, envergonhados. MAS A CULPA É DELES.

      1. A questão dos fogos rurais ultrapassa-me (não tenho saber suficiente para perorar, mesmo em regime de “achismo”). Mas se é certo que parece haver tanto um desarranjo progressivo como uma efectiva desplanificação – seja do território, seja das induções de actividades económicas, seja de políticas de resposta ao fogo – também é verdade que as devastações acontecem em países com sistemas e políticas muito diferentes. Por isso pouco atraído sigo pelas “explicações” invectivadoras – o que não implique que tudo vai bem, como é óbvio.

        1. Haverá questões naturais certamente, coisas que acontecem porque têm de acontecer (como diz António Costa) mas também há muita desorganização — e não é da floresta, de haver ou não haver eucaliptos. é de gestão. Por causa de quem gere e da forma como gere. Do que se deixa fazer, do lixo que existe nos quintais, do sítio onde fazem zonas industrais e da forma como as fazem. É de falta de autonomia dos bombeiros para actuarem no local. A própria acção das autarquias sobre os territórios cria obstáculos para as pessoas e cria vantagens para o fogo.

          E depois vemos um conjunto de ineficácias. Alguém já ponderou, por exemplo, que o combate aéreo não é eficaz e que arde tudo na mesma e os fogos só páram quando já não há mais nada para arder? Ainda ninguém percebeu que os fogos estão maiores (os saloios são os mesmos) e que isso significa que os métodos não estão bem?

  2. Um drama. Somado a vários outros por este pobre país fora, uma vez mais.
    Tudo quanto foi prometido em 2017 para prevenir novas tragédias esfumou-se no meio da propaganda, sem qualquer correspondência com a realidade.

    1. Parece-me que sim. Julgo que deverá haver um qualquer “Observatório” dedicado ao tema – seria interessante ver um relatório analítico dedicado a essas inflexões prometidas aquando do afinal esquecido “não me faça rir” de António Costa diante das dezenas de mortos nos fogos de então.

  3. Boa noite JPT
    Que esteja tudo bem consigo e com os seus e que nada de mal vos atinja.
    Tenho as notícias bem actualizadas via familiares residentes em Setúbal. O que eles viram/ vêem = dantesco. Alguns dos comentários supra tiraram-me as palavras da boca. Saúde.
    António Cabral

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