
Sem histerias, Palmela está a arder. Há horas que de casa vejo as labaredas, que cinza e fumo abundam neste dia ventoso. Decidi ir ver de perto, para optar para além disto de regar sebes, telhados e adjacentes. Encontro zonas a arder mesmo junto à estrada para a Quinta do Anjo sem estarem acompanhadas, dada a pressão noutras vias. Ouço um crepitar crescente não muito longe. Desde há horas que dois helicópteros vão encher o respectivo modesto cesto a uma piscina vizinha, nada mais. Regresso a casa, arrumando as coisas mais prementes e/ou preciosas, como quem não quer a coisa. Entretanto a electricidade, que fora cortada, reaparece. E com isso as imagens da televisão, a mostrarem o fogo ainda mais perto. E as notícias da recusa de mais apoio aéreo requerido pelas instâncias da vila. A 5 Kms da capital do distrito, a 40 Kms da capital do país – e não há recursos suficientes para evitar males maiores.
Fecho-me em casa para fumar um cigarro – que não me acusem, e muito menos hoje, de violar as regras securitárias agora estipuladas, como se fosse isso a panaceia. E noto, nesse breve refúgio, que não me angustiava desde a explosão do paiol de Maputo – então bem mais, pois tinha família comigo. Enfim, apago a cigarrada, escorropicho a cerveja. E vou regar.

Nem sei o que diga, mas penso em todos aqueles que estão a braços com estes tórridos ardores de Verão. Por aqui, felizmente sem fogo, abraçam-nos uns 42°C ( há pouco 44°C)
. Vou tentando ler na varanda. Gosto bastante de ler os seus posts e não deixe de escrever, jpt. 
Maria
Muito obrigado pela sua simpatia.
Um retrato a multiplicar por 100. É a realidade do país dos Websummits
É a realidade do país onde se vê na televisão o que décadas de municipalismo fizeram à paisagem. Acessos esquisitos, tudo com ar rasca, barracas e fábricas no meio dos pinhais, tudo imundo, cheio de pneus e de zinco. Vê-se de cima, do Google Earth, a imundície, os quintais manhosos, as casas mal feitas.
O país de que as elites sempre tiveram vergonha e que nunca quiseram desenvolver. Só saem de Cascais para o aeroporto, envergonhados. MAS A CULPA É DELES.
A questão dos fogos rurais ultrapassa-me (não tenho saber suficiente para perorar, mesmo em regime de “achismo”). Mas se é certo que parece haver tanto um desarranjo progressivo como uma efectiva desplanificação – seja do território, seja das induções de actividades económicas, seja de políticas de resposta ao fogo – também é verdade que as devastações acontecem em países com sistemas e políticas muito diferentes. Por isso pouco atraído sigo pelas “explicações” invectivadoras – o que não implique que tudo vai bem, como é óbvio.
Um texto interessante https://pontosj.pt/especial/act-of-god/
Haverá questões naturais certamente, coisas que acontecem porque têm de acontecer (como diz António Costa) mas também há muita desorganização — e não é da floresta, de haver ou não haver eucaliptos. é de gestão. Por causa de quem gere e da forma como gere. Do que se deixa fazer, do lixo que existe nos quintais, do sítio onde fazem zonas industrais e da forma como as fazem. É de falta de autonomia dos bombeiros para actuarem no local. A própria acção das autarquias sobre os territórios cria obstáculos para as pessoas e cria vantagens para o fogo.
E depois vemos um conjunto de ineficácias. Alguém já ponderou, por exemplo, que o combate aéreo não é eficaz e que arde tudo na mesma e os fogos só páram quando já não há mais nada para arder? Ainda ninguém percebeu que os fogos estão maiores (os saloios são os mesmos) e que isso significa que os métodos não estão bem?
Um drama. Somado a vários outros por este pobre país fora, uma vez mais.
Tudo quanto foi prometido em 2017 para prevenir novas tragédias esfumou-se no meio da propaganda, sem qualquer correspondência com a realidade.
Parece-me que sim. Julgo que deverá haver um qualquer “Observatório” dedicado ao tema – seria interessante ver um relatório analítico dedicado a essas inflexões prometidas aquando do afinal esquecido “não me faça rir” de António Costa diante das dezenas de mortos nos fogos de então.
Por muito menos fui o Santana demitido.
Boa noite JPT
Que esteja tudo bem consigo e com os seus e que nada de mal vos atinja.
Tenho as notícias bem actualizadas via familiares residentes em Setúbal. O que eles viram/ vêem = dantesco. Alguns dos comentários supra tiraram-me as palavras da boca. Saúde.
António Cabral
E o que se passa na Quinta do Lago, senhor
António Cabral, obrigado pela sua simpatia.