Pedro e Marcelo


José Meireles Graça,

Diz o Sol que Santana Lopes, no Facebook, torceu o nariz às partes gagas de Marcelo no Brasil. Este está de visita para proferir irrelevâncias e mergulhar em Copacabana, a propósito de um festival literário em S. Paulo estrelado com a presença de Valter Hugo Mãe, ahem.

Fui conferir mas não encontrei o texto – talvez seja só acessível a amigos e eu, que tenho pela personagem mais respeito do que o que dedico à maioria das figuras públicas, não lhe vou pedir amizade, que ele ainda estourava de vaidade.

Que terá escrito, então? Isto:

“Os Chefes de Estado estrangeiros, quando vêm a Portugal encontram- se com os anteriores Presidentes? Claro que não. O que importa são os Povos? Sem dúvida. E os Povos é que pagam estes incidentes. Lula da Silva pode ganhar de novo à Presidência? Haverá tempo para encontros com o especial amigo de quem sabemos. Será que Marcelo, em França, se encontrou com Melenchon ou Marine LePen, (ou François Hollande e Nicolas Sarkozy). Julgo que não.”

Questionado ainda se Marcelo “age de modo diferente nos Países da CPLP?”, responde: “É um tique colonialista”. Devemos tratar os outros com as regras que exigimos para tratarem connosco. Há regras, especialmente para um Chefe de Estado”.

A mim o que me escandaliza não é que Marcelo vá ver Lula, ou qualquer outro ícone da moda política, ou da propriamente dita; é que a agenda de um chefe de Estado de visita contenha surpresas previsivelmente ofensivas para o seu equivalente local. Das duas, uma: ou o nosso presidente da República avisava que se ia aliviar de inanidades junto de Lula, por achar isso necessário, e as autoridades brasileiras, contrariadamente embora, aceitavam, ou, se não aceitassem, não havia visita nenhuma. Agora, o cancelamento de um almoço em Brasília e, soube-se agora, de qualquer encontro, é (não há outra maneira de encarar isto) uma claríssima ofensa.

Os argumentos de Santana são bons, excepto por tomar como regra que um chefe de Estado de visita não se deve encontrar com líderes da oposição – regra não será – e por atribuir a Marcelo tiques colonialistas.

Lá tiques o homem tem, mas não de colonialista. Não foi por albergar sentimentos colonialistas que já foi múltiplas vezes a várias ex-colónias; foi, a meu ver, porque, gostando de viajar e ir, as ex-colónias são um destino evidente, e nelas costuma ser recebido com evidente agrado popular. Não o digo com gosto, que detesto a personagem, mas o sucesso é patente.

O agrado popular é a chave para entender o comportamento marcelístico, a plasticina das posições políticas, o permanente passar a mão pelo pêlo da opinião pública, a lisonja a toda a estrela pop, a todo o intelectual, a todo o desportista, a todo o profissional bem-sucedido, a todo o conhecido em suma.

Este amor da popularidade sempre o levou a nunca ter escrito ou dito nada de memorável, nem defender nada de consistente, nem ter produzido obra de relevo. E o contraste singular entre uma tão completa nulidade de realizações e um tão evidente sucesso junto dos seus concidadãos levou-me há uns anos e perguntar a pessoa, já morta, cuja opinião considerava como nenhuma outra, e que o conhecia: Que dizes, ele é mesmo tão oco como parece? Não, não é, tem mérito – respondeu-me.

Este incidente ridículo no Brasil, que se junta a uma litania deles, levou-me a reconsiderar a questão. E fez-me lembrar uma visita a Cuba, para visitar o doente Fidel.

Que foi lá fazer? Cuba não é, em nenhum sentido, um país relevante para nós, e Fidel – até Marcelo saberia disso – era apenas um ditador desprezível do terceiro mundo, com inúmeros crimes no passivo, promovido planetariamente por uma mistura de romantismo revolucionário estúpido, ignorância contumaz e comunistas empedernidos.

Pois sim. A visita estranhou a uns maduros como eu, mas agradou à opinião publicada e à pública, e internamente agraciou Marcelo junto de comunistas e primos, que lhe guardam o respeito e a tolerância que não guardariam se ele militasse na denúncia do carácter nocivo das convicções de tais pessoas. Ou seja, do ponto de vista dele, atingiu o objectivo.

Resta que a política, na sua dimensão nobre, é a arte de levar as pessoas (em democracia; em ditadura não são precisas tais frescuras) a subscreverem as escolhas mais convenientes para o progresso do país. E, neste sentido, Marcelo, que é um político de carreira, é um falhado porque sofre da doença de popularite aguda.

De modo que nos conviria um tipo (ou tipa: eu cá não sou nenhum machista) que não tivesse necessariamente o brilho que as pessoas veem na figura, mas que  não abundasse no acessório em prejuízo da substância.

15 comentários em “Pedro e Marcelo”

  1. Concordando no global – e em particular sobre o inenarrável episódio cubano – há dois pontos em que discordo: de facto MRS tem “sucesso” quando vai aos PALOPs. O “Público”, a SIC e outros congéneres bem partilham os pequenos “banhos de multidão” nas praias tropicais, às quais logo o PR acorre a banhos, são lestos em entrevistas aos mirones presentes, estes deliciados com as poses presidenciais, pouco habituais nesses contextos. Mas o PR é o representante e o responsável da política externa nacional – qual o sucesso em termos de política externa que tudo isso tem, o que não mensurável nos takes da agência LUSA ou nos textos e imagens dos jornalistas que acompanham essas viagens (a expensas do erário público, quantas vezes)? Analise-se o caso das relações bilaterais com Moçambique: não só MRS lá vai amiúde, convoca o seu passado local (e a boa memória que, indiscutivelmente, o Senhor seu pai ali deixou), como inclusivamente o presidente Nyusi foi um dos apenas três chefes de Estado convidados para a sua primeira investidura (Espanha, Brasil, Moçambique, para além da UE que tem outro estatuto). E veja-se como se têm decorrido as relações bilaterais – nem sim, nem não… (O caso do empresário português desaparecido – quase certamente assassinado pela forças armadas – que ensombrou durante anos as relações estatais é paradigmático). Ou seja, por “mérito” ou “brilho” que se aponte ao cidadão Rebelo de Sousa em termos presidenciais estas viagens não têm, nem de perto nem de longe, o que parecem aos distraídos espectadores nacionais.

    Quanto ao “colonialista”. Para além de uma visão serôdia e paternalista de MRS sobre o relacionamento com os países africanos (o que foi perorar há anos ao Senegal sobre o comércio de escravos é, pura e simplesmente, um disparate desnecessário) o que PSL diz é totalmente certeiro: só sob uma perspectiva que presume qualquer tipo de tutela, de vistoria ou de papel indutor, é que um PR vai a outro lado e se reúne com os políticos no activo e com os ex-presidentes. Ou seja, se isso é uma coisa concertada com o poder local – como dizes – tudo bem. Se causa engulhos então não se faz. A não ser que se presuma uma qualquer superioridade, isso do “colonialista”.

    Mais do que tudo: nos últimos tempos quase se pode dizer “cada tiro, cada melro”, MRS não acerta uma, os dislates sucedem-se. Nem uma visita destas, escudada numa embaixada literária, lhe sai bem. Em termos presidenciais – pois a imprensa está sempre disponível para apoiar e sagrar o que de Belém sai.

    1. Ou seja, as multidões que vitoriam Marcelo na parte folclórica das visitas significam quase nada no que toca a benefícios para as relações entre Estados. Não duvido nada e, se soubesse alguma coisa sobre esse aspecto (que é o essencial, as visitas são um meio, não um fim em si) teria pintado a personagem com cores ainda mais carregadas.

      1. Eu também não sei muito, não estou lá, não tenho fontes privilegiadas. Mas, como tenho atenção mais virada para Moçambique e para as relações com países africanos, ainda que não possa afiançar “é mesmo assim”, tenho mesmo essa impressão, da superficialidade das acções do nosso PR – o qual tem como principal “brilho” o narcísico auto-encantamento.

    1. Saí do CDS por causa desse apoio, publiquei aqui e noutros lugares a correspondente declaração, na eleição anterior tinha declarado o apoio a outro candidato e tenho dúzias de textos, ao longo dos anos, a pintar Marcelo à luz muito pouco lisonjeira em que o vejo. Com a nova direcção regressei à minha velha condição de militante (quase) anónimo, reinscrevendo-me. Logo, esse “votásteis”, mesmo que correctamente grafado, não se me aplica.

    2. A direita esperava que Marcelo fosse outro Cavaco, mas descobriu que afinal Marcelo era um presidente moderado e que apelava a todo o espectro político português, ao ponto de ter tido o apoio de parte considerável do PS.

  2. Marcelo é antes de mais nada Marcelo.
    Por acaso agora é Presidente de esta República, mas nem por isso deixa de ser Marcelo. O ser “nosso” Presidente, para Marcelo, é completamente secundário.
    Ali, nesta faze daquela vida, o que conta, o que agora despontou, é um forte travo de catolecismo. Catolecismo clássico, do de antigamente. Do de antes dos Concílios.
    (Longe vão os tempos de sorridente taxista. Mais difícil tem sido o reprimir a faze de obstinado comentador).
    Assim sendo hoje em dia comporta-se, mais ou menos conscientemente, como um magnânimo Cardeal abençoando à esquerda e à direita, fieis e infieis. A custo contém o gesto que o desmascararia. Chegará a Papa?.
    Um personagem, este Marcelo.

  3. Não encontro matéria de facto para este burburinho na deslocação e encontros de Marcelo no Brasil. Nas próximas eleições brasileiras quem continuará a votar é povo brasileiro e não o português.
    Não obsta a que considere Bolsonaro como o presidente necessário para a transição que se devia realizar no Brasil, e que ocorreu. Mas também aceitar e reconhecer, por matéria de facto, que Lula foi vitima de um linchamento pseudo-jurídico, cujo tiro se voltou para quem o disparou, e reconhecer também que Dilma, ainda que não tivesse méritos – por vezes é isto que ocorre quando se querem presidentas a qualquer preço – para continuar a governar, foi vítima de um golpe.

    Por declarações do próprio Marcelo, o encontro com Lula teve como foco a situação na Ucrânia. Caso Marcelo apareça pelo Delito para se inteirar sobre a situação naquela espécie de país a que chamam Ucrânia e sobre a ocorrência de guerras na Europa, cumpre-me dizer:
    A Europa conheceu guerras em seu território depois que o pacto de Varsóvia se desmantelou, como se verificou na Jugoslávia e agora na Ucrânia, o que indica que a existência deste foi uma forte contenção para os devaneios prostituídos das alianças ocidentais.
    Assim, como matéria de diversificação informativa e empenho para que o ocidente se cultive um pouco mais, deixo aqui esta conversa que presumo interessante para quem tem inteligência:
    https://rumble.com/v1axe9f-worlds-apart-politik-of-the-unreal-fyodor-lukyanov.html

    Mas mais ainda, repesquei nos meus arquivos o conteúdo do artigo de Putin em Julho de 2021, que importa também analisar por pessoas inteligentes e empenhadas na paz mundial (o artigo contém no início a ligação ao Kremlin onde também se encontra registado o artigo, para quem queira confirmar a genuinidade):
    https://thesaker.is/article-by-vladimir-putin-on-the-historical-unity-of-russians-and-ukrainians/

    Ainda sobre a Ucrânia, Lysychank encontra-se sobre controlo das forças russas e da LPR desde sexta-feira dia 01-07. E gostaria de chamar a atenção que nos próximos tempos as atenções estarão voltadas para a região do Dnipro, Kremenchuck e Zaparozhzhia.
    As forças russas mostraram uma capacidade inesperada de se movimentarem rapidamente e com constantes diversões estratégicas para alcançarem seus objectivos. Espero que o que se está a passar no plano militar leve alguns generais ingleses e americanos a calarem-se e reconhecerem as baboseiras lançadas.

    1. „Cremos que a guerra é um mal, mesmo quando é uma necessidade, mas sabemos que há para os povos outros males maiores, porque os há que excedem a morte e a miséria – são a sua desonra e aniquilamento.“

  4. ” Este amor da popularidade sempre o levou a nunca ter escrito ou dito nada de memorável, nem defender nada de consistente, nem ter produzido obra de relevo.”

    Caro Senhor

    Felicito-o pela sua sintética definição de Marcelo: em duas linhas conseguiu definir a personagem.
    Pergunto-me agora como como definiríamos um povo que o elege, e reelege…?

    Cumprimentos

    Vasco Silveira

      1. Muito obrigado: parece que por mais que o tentem matar ele ( Salazar ) volta sempre. Compreendeu Poortugal como ninguém ( talvez António José Saraiva o supere).

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