No reino dos antifascistas póstumos, que só aprenderam a bradar contra Salazar depois da Revolução dos Cravos, é justo prestar aqui homenagem a quem lutou de facto contra a ditadura, arriscando a vida e a liberdade. Refiro-me a Manuel Serra, que esteve entre os que se levantaram contra o regime na Revolta da Sé, em 1958, e no golpe de Beja, na noite de ano novo de 1962. Pagou com isso um duro preço: foi torturado e encarcerado durante dez anos. Vinha da oposição católica, que se radicalizou na última década do salazarismo, o que o levou a ser olhado de soslaio pelos comunistas, tanto mais que foi colaborador directo do general Humberto Delgado, de quem o PCP sempre suspeitou pelo seu “aventureirismo”. Depois de 1974, efémero militante do PS, esteve quase a conquistar a liderança do partido no primeiro congresso, contra os “sociais-democratas” de Mário Soares. Ironia da história: valeu na altura a Soares um inflamado discurso de Manuel Alegre, decisivo no voto final dos congressistas.
Depois de um flirt com a extrema-esquerda, Manuel Serra foi-se retirando progressivamente da política. Vivia há anos longe da ribalta. Quase ninguém das gerações mais jovens ouvira sequer falar do nome deste socialista libertário e “autogestionário” que nunca encarou a política como uma “carreira”. Muitas ideias que defendia estavam erradas. Mas a defesa da liberdade, de que foi um dos raros arautos em tempo de servidão, estava certa. É esse o exemplo que devemos reter deste lutador de sempre que agora nos deixou, da mesma forma que passou os últimos anos: discreto, sem ânsia de palco, sem sede de protagonismo. Os homens de carácter são assim. E Manuel Serra era um homem de carácter. No reino dos antifascistas póstumos, este é o maior elogio que se pode fazer a alguém.


Recordo-me perfeitamente do percurso instável, mas de liberdade permanente, de Manuel Serra e da sua discreta retirada dos palcos políticos que nunca quis.
Bem merecido, este elogio.
É como dizes: um percurso instável, mas que merece e justifica nossa admiração.
Assino por baixo.
Era um sujeito bem curioso este “Manecas das Intentas”.
Mais um que faz realmente falta que vai embora.
Manuel Serra era de facto um homem de carácter. Foi com ele que aprendi os rudimentos desta coisa que se chama pensar a politica, foi com ele e com padre Sampaio que eu, um ateu militante, fiz os primeiros verdadeiros passos desta arte. Durou pouco a minha relação com a FSP nesses tempos gloriosos em que pouco importavam os interesses, em que quase todos investiam a sua energia naquilo em que verdadeiramente acreditavam e faziam-no com prazer e sem esperar recompensa. Tempos de ideais e ingenuidades, tempos em que tudo era novo e vibrante, tempos de uma juventude ainda não temperada com os caminhos do fazer. Um homem que deixa marca sobretudo por aquilo que refere no seu artigo o qual subscrevo.
Deixou marca, sem dúvida. Sobretudo pelo exemplo. Tomou a opção certa na hora mais difícil.
Quando se escreve assim sobre alguém com este perfil, faz-se um pouco de justiça.
Espero que sim, Teresa. Pelo menos a minha intenção foi essa.
Subscrevo na íntegra a justa homenagem que aqui prestas a um homem que conheci bem e tinha ideais. Apenas discordo, quando afirmas ” Muitas ideias que defendia estavam erradas”. Estariam erradas na tua óptica, Pedro, mas não na dele nem na de muitos que comungavam os seus ideiais. Certo?
Claro que é na minha óptica, Carlos: o socialismo revolucionário que ele defendeu no pós-25 de Abril era – e é – uma péssima receita política. E não fui o único a pensar assim: a Frente Socialista Popular, que Manuel Serra fundou em 1975, teve sempre resultados irrisórios nas urnas até morrer de morte nautral.
Nada disto invalida a enorme admiração que tenho pelo seu combate tenaz contra a ditadura, num momento em que se podia perder não só a liberdade mas a própria vida. E a admiração que sinto por ele estende-se a muitos outros que estiveram na mesma trincheira, dos quais queria destacar dois, só a título de exemplo: Hermínio Palma Inácio e João Varela Gomes.
Pedro
O que eu gostei desta sua homenagem a um resistente da “oposição católica” ao Estado Novo.
É que todos se reivindicam como os verdadeiros representantes dessa resistência, muitos deles pró-soviéticos e outros pró-cuba e outros “sabe lá Deus”, esquecendo a existência de muitos homens e mulheres independentes e idealistas. Muitos deles “católicos progressistas”, como eram apelidados.
Ana
Muito bem assinalado, Ana.
Obrigada, João.
Gostei muito deste post do Pedro.
É sempre bom homenagear e lembrar os representantes de uma geração que está a desaparecer e que nos inspira.
Por acaso conheci-o, embora circunstancialmente. Eu era uma miúda mortinha por poder ir votar, estava quase. Foi num Verão, quente (já não recordo se exactamente se no verão quente), em certo hotel do Algarve onde, não sei por que bulas, alguns políticos de proa resolveram aterrar todos de uma vez.
Um verdadeiro acepipe para a geração teen , porque para nós aquilo foi mais ou menos como ter encontros imediatos de 3º grau 🙂
Lembro-me do Manuel Serra muito bem, com os cabelos semi compridos, sempre em grupo e em grandes conversatas bem regadas.
É a História.
Gosto de ter vivido esses anos de 75 e ss , acho que foi um privilégio de geração: – já víamos tudo com “olhos de ver e ainda não víamos nada com os “olhos da vida”.
Tudo era um alvoroço e era empolgante.
Que pena é crescer.. 🙂
Revejo-me muito nesta sua frase, Chloé: «Gosto de ter vivido esses anos de 75 e ss , acho que foi um privilégio de geração: – já víamos tudo com “olhos de ver e ainda não víamos nada com os “olhos da vida”.»
Não tenha pena de crescer…se perdeu o sonho, ainda vai a tempo de o redescobrir. O sonho comanda a vida! O desalento, não.
Ora aí está um verso que nunca deve passar de moda. Façamos por isso.
Não estão em causa doutrinas e soluções políticas que a História já se encarregou de pôr em evidência a ineficácia. Estão em causa personalidade, integridade e carácter. E já agora, uma justa e merecida homenagem (bem) feita (e bem escrita) pelo Pedro.
Obrigado, meu caro.
Subscrevo o comentário da Ana.
Pouco se fala dos “católicos progressistas” e pouco se fala de quem admitiu dar a vida em defesa do direito de poder pensar… pela sua pp cabeça.
Gostei de o ler, Pedro.
Volte sempre, Fugidia. Sem ser de fugida.
Justíssima homenagem, Pedro. Como sabes foi com o Manuel Serra que vivi os mais entusiasmantes momentos da minha vida política. Militância no verdadeiro sentido, 24h, durante cerca de 1 ano, ali à R. do Passadiço, onde em tempos foi a sede do teu clube desportivo preferido. Na altura chamaram-lhe de romântico revolucionário e esse é talvez um dos traços que melhor definem o que foi o Manuel Serra. Para além de um contagiante e saudável riso, que mesmo nos momentos mais dramáticos, levava a acreditar que o Manuel era capaz de tudo em que acreditava.
Ainda bem que apareceste por cá, Rui. Pensei também em ti quando escrevi estas linhas. Como sabes, ainda há poucos dias, quando jantámos, estivemos a falar no Manuel Serra. Era uma extraordinária personalidade de resistente e lutador, com uma história de vida digna de ser contada e lembrada às gerações mais jovens. Tive muita pena de nunca o ter entrevistado.
Entrevistá-lo, não podes, infelizmente. A sua mulher dos últimos 30 e tal anos, Marinela Coelho, advogada, poderá, se assim o entender, partilhar algumas boas memórias.
Excelente sugestão, meu caro.
Boa noite,
Sou amiga da Marinela Coelho, mas perdi o contacto dela. Pode dar-me o contacto da Marinela?
Grata desde já.
Ana Paula Guedes da Silva
Muito bem Pedro.
🙂
Olá a todos os…
Camaradas e amigos de Manuel Serra.
Em primeiro e a bem dizer, estou de acordo com o que dizem em quase todos os comentários e muito grato pelos mesmos.
Uma honra bem merecida ao nosso querido Manuel.
Por ter conhecido bem Manuel Serra e seus mais chegados.
Por o ter acompanhado revolucionariamente e politicamente durante certos tempos “entrecortados”, alem de ser mais jovem que ele uns 13 anitos.
Porem, gostaria e caso queiram e saibam… que alguém fale de seus pais (Seres excepcionais), irmãos, e restantes familiares.
Alguém que fale também do local onde tudo começou, a saber : Bairro da Serafina e seus arredores, da rua, de seus vizinhos e companheiros de luta “alguns já falecidos”.
Assim como aquela Capela do Bairro da Liberdade que muitos companheiros e simpatizantes conhecem.
Posso dizer que seus pais e toda a família tiveram sempre muita admiração e respeito por aquele filho que na História fica para todo o sempre.
Para eles foram anos duros e chorosos durante aqueles anos de fuga e prisão.
Toda a gente naquele Bairro da Serafina simpatizava com eles.
Agradecido a todos os que se dignam fazer homenagem pelos feitos revolucionários e luta pela Liberdade e Democracia em Portugal.
Da família, acho que só conheci o pai. De quem fiquei com a melhor das impressões.
Olá João Carvalho
Não nos conhecemos certamente e dai não sei.
Se conheceu o Pai (José Serra), de certo se apercebeu que foi um Homem Integro em todo o sentido da palavra.
Sua Mãe (Laurinda) mais conhecida por Lucinda… a mesma coisa.
Seus dois irmãos Maximino e José. Infelizmente só a Marinela, o Maximino e eu somos vivos.
Politicamente falando, naquela honrada família existiram 3 políticos activos, a saber:
Manuel Serra.
Maximino Serra também do caso de Beja entre outros.
Giloca, sempre na sombra de tudo embora conhecido por alguns.
Sem esquecer a Marinela Coelho, sua esposa nestes longos anos.
Todos nos demos a nossa contribuição na Luta a favor da Liberdade e Democracia em Portugal… paralelamente seus defuntos pais também.
A minha intenção é a de honrar os mesmos.
A todos, os meus agradecimentos.
Giloca