Esta noite sonhei com louvadeus


Maria Dulce Fernandes,

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Do alto do meu sexagenarismo, interpreto o que se passa ao meu redor talvez com uma percepção diferente da realidade – da realidade que eu entendo – algo discordante do que poderia ter concebido há um par de anos atrás.

 

O tempos são outros. Eu nem por isso, ou antes, não queria, mas também mudei, claro. Já não subo à figueira grande (enorme desafio gravitacional) para ver o meu irmão arremessar dissimuladamente laranjas podres a quem passa, mas psiquicamente falando, não amadureci muito mais do que isso.

 

Em minha casa, por motivos decorativos, tampouco narcisistas, não existem mais do que quatro espelhos. De qualquer modo, as nossas rotinas diárias passam por nos avistarmos com a imagem do que mostramos por aí, praticamente todos os dias de manhã.

 

A que os meus espelhos me mostram não me espanta nem num bom nem num mau sentido. Serei talvez melhor do que a minha forma cosmozoária, mais formada do que a minha forma embrionária, menos atractiva do que a minha forma infantil, muito menos atraente do que a minha forma juvenil, bem mais amadurecida e pesada do que a forma intermédia, mas não completamente repulsiva, tampouco desagradável.

 

Já referi que mentalmente, estou muito à frente, certo? Creio que neste caso particular quereria antes dizer muito atrás…

 

A pontualidade sempre foi para mim ponto de honra, por isso raramente me atraso e nunca me deixei ficar para trás. Acompanhei as evoluções no seu melhor e também no seu pior e em certos aspectos sou mais entendida, mais culta e mais jovem do que muito jovem que por aí pulula com a mania da tudologia.

 

Pode esta, chamemos-lhe assim, “frescura de espírito” ser de algum modo atractiva para miúdos que poderiam ser meus netos?

 

Não quero dedicar muito tempo a tentar entender a cabeça dos outros, porque tenho a firme convicção que a realidade que eu entendo pode ser diametralmente oposta à que é percepcionada pelo meu vizinho do lado, mas confunde-me que, além dos galões, haja quem possa pensar nesta pessoa como uma rubicunda  louva-a-deus devoradora de machos tenrinhos… o epítome do cougarismo, sei lá? 

 

Estranha metamorfose, grande esquizofrenia ou indubitavelmente uma enorme pancada…

Diz-se que o povo é sereno… diz-se tanta coisa… Aqui  a sereníssima tem sido tão, mas tão paciente, que se houvesse Nobel para esta categoria seria uma séria candidata.

 

 

Quem possui a faculdade de ver a beleza, não envelhece.

 

Franz Kafka

36 comentários em “Esta noite sonhei com louvadeus”

  1. Do alto do meu sexagenarismo

    No outro dia afirmei num comentário que a Dulce tinha 60 anos de idade. Logo outrém retorquiu que eu estava a “chamar velha” à Dulce. Mas eu estava apenas a dizer uma verdade.

  2. Quem possui a faculdade de ver a beleza, não envelhece.

    Nos dias passados fui à praia. Apesar de me ter esforçado, praticamente não vi nela raparigas bonitas. Quiçá estou a ficar velho.

        1. Olhei umas vezes com óculos, outras vezes sem eles. Mas de nenhuma forma encontrava qualquer rapariga bonita.

        1. Por exemplo para mim foi claro que quando no fim dos 80 inicio dos 90 a posse de carros se começou a tornar banal, as primeiras a sair dos transportes publicos dos suburbios e da provincia foram as raparigas bonitas.

          1. Já pensou o que é uma brasa ao volante de uma máquina? Mesmo que seja apenas uma brasinha tem logo um upgrade, Lucky. Toda a gente pelos seus 18 anos, cujos pais não são endinheirados e que vai trabalhar um part-time nas férias, não pensa em juntar para a faculdade. Nada disso é logo um boguinhas em 2a mão, para se valorizar socialmente. Depois, arranjam e branqueiam os dentes, fazem musculação, as meninas rectificam as mamocas e fazem lipoaspirações… e é isto.

          2. De: Joaquim Silva
            Hoje um gajo para ver raparigas bonitas tem que ir a um bordel.

  3. Tanto hão-de embirrar com Dr. Balio, que ele há-de deixar de comentar e embirrar com o pessoal!
    Depois quero ver com que temperam os textos e, até, os comentários. Há-de tudo parecer aquelas massas com espargos e queijo ralado, do barato, que o sr. Pedro Correia anda p`raí agora a cozinhar…

  4. Por acaso é verdade, só quando somos velhos é que damos valor à nossa beleza interior. Nenhuma fotografia consegue superar uma boa radiografia.

  5. Do alto do meu recém “septuagenismo” lhe digo que os espelhos domésticos mostram-nos sempre jovens. Não calcula a desilusão cada vez que me vejo no do cabeleireiro
    Dno

  6. MDF, gostei. Permita-me, cá entre nós. Aqui (do meu octagenarismo) olho para uma foto na capa do jornal “The Times” Reino Unido, edição de hoje.
    Três respeitados personagens, o cume da realeza no RU: a Raínha Elizabeth II, o Príncipe Carlos e a sua consorte Camila. Esta recém eleita Cavalheira da muito antiga e mais sénior ordem do RU, a “Order of the Garter”. (A fundação, e a história da Ordem, é curiosa, como também provavelmente bem saberá).

    Manter o Reino (e uma vida) de pé. Extranho assumido destino. Ser cabide para tantos diferentes trajos, ornamentos e uma coroa, demasiado pesada. Tudo isto em sentido figurado e não só. Só um Grande Espírito sobrevive a esta prova. “God save the Queen”.

    1. A Rainha é uma força da natureza. Consegue superar em beleza e jovialidade o filho e a nora Camilla, pessoa à qual o meu agrado não presta homenagem, com ou sem jarreteira.
      God save the Queen and shave the Shrew!

  7. Tem piada, que também onde me vejo mais velha é no espelho do cabeleireiro.
    Não tenho muitas razões de queixa, para quem tem 70 anos, e rugas só nos olhos e nos lábios.
    Mas tenho o coração cheio de rugas. Perdi o único filho que tinha, e é uma dor que não tem cura.

    1. Lamento muito. É uma dor pela qual nenhuma mãe deveria passar. Acredito que é a soma de todas as dores assim como é a soma de todos os medos.
      O meu cabeleireiro é um piqueno agradável e a luz no salão faz-me os olhos esverdeados. Fico engraçada e pareço mais nova. Depois tira-me a toalha da cabeça, solta a juba branca e eu regresso ao futuro dos cinco minutos passados.

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