Um livro, no dia do livro – Os últimos dias de Immanuel Kant


filosofiaonline,

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A propósito de andar a trabalhar a ética kantiana nas aulas fui reler este livrinho de, De Quincey, sobre os últimos dias de Kant.

De Quincey (autor do famoso, Confessions of an English Opium-Eater (1821), o primeiro relato, na primeira pessoa, sobre a dependência de opiáceos, neste caso do láudano) limita-se, praticamente, a traduzir o livro de Wasianski, um grande amigo de longa data de Kant que o acompanhou nos últimos anos de vida e a quem se deve a maioria das histórias que se contam sobre a pessoa de Kant. No entanto, mesmo na Alemanha, é este livro de De Quincey e não o de Wasianski que é apreciado e editado.

 

Como diz, De Quincey, logo nas primeiras linhas, tem-se por certo que qualquer pessoa medianamente instruída reconhecerá algum interesse na história pessoal de Immanuel Kant, dado ter sido um dos maiores filósofos de sempre, um pensador que influenciou a maioria das áreas do conhecimento humano.

 

Kant nasceu e viveu em Königsberg, antiga capital da Prussia Oriental, anexada pela URSS após a Segunda Grande Guerra, depois expurgada de alemães e colonizada com russos soviéticos, e que é hoje um enclave russo, chamado Kaliningrado, entalado entre a Lituânia e a Polónia, à borda do Mar Báltico.

 

Kant foi um filósofo com um intelecto formidável, um homem de hábitos muito rígidos, sistematizados intencionalmente com princípios de racionalidade para servirem à manutenção da saúde e à máxima produtividade filosófica, de maneira que é muito interessante, neste livrinho, vermos o homem por detrás do filósofo.

 

O livro tem partes cómicas, como a cena de Kant a ler, à noite, com a cabeça demasiado próxima das velas e pegar fogo à touca e tem partes comoventes como o relato das estratégias que adoptou para manter alguma normalidade de vida, quando se apercebeu que estava a ficar senil, uma tragédia para um indivíduo com a sua natureza intelectual. 

 

Infelizmente, nos dias que correm, Kant é muito criticado mas, a meu ver, pelas razões erradas, quer dizer, criticam-no, não no valor das suas ideias, que se mantêm em tantas áreas (por exemplo, o opúsculo de Kant, «A Paz perpétua», de 1795, defende a possibilidade de paz, a relação necessária entre ética e política por intermédio do Direito Internacional e desenha um projecto de união de todos os povos na defesa dos seus territórios que está na origem do que hoje é a ONU),  mas por ter sido um homem machista (quem não o era no seu tempo? Ainda hoje a maioria, sobretudo de uma certa idade, o é), por ter sido etnocêntrico, não em princípio mas em prática e por aquilo que fizeram, em termos de política europeia, com o seu «criticismo racionalista».

 

Enfim, o livrinho é pequeno e lê-se muito bem enquanto se bebem duas chávenas de chá.

 

texto também publicado no blog azul.

21 comentários em “Um livro, no dia do livro – Os últimos dias de Immanuel Kant”

  1. além de vários livros de Kant como
    Crítica de la razón pura etc
    e de Quincey conheço sobre este
    los últimos días de thomas de quincey de rafael ballesteros, 2006

  2. 1 – E antes de ser dominada pela Prússia? E a quem, Kant foi buscar as ideias?
    2 – Königsberg/Kaliningrado foi fundada pela “Ordo Domus Sanctæ Mariæ Theutonicorum” (ou Ordem Teutónica, em alemão Deutscher Orden). Uma Ordem Militar formada em 1190, em São João de Acre, no “Reino de Jerusalém”, para auxiliar os germânicos feridos nas Cruzadas. Portanto, uma ordem militar cruzada, submetida à Igreja Católica e ao Papa Clemente III. Que perseguiu e chacinou as pessoas de outras opções religiosas, numa das páginas mais sangrentas, xenófobas, intolerantes e ignóbeis da história humana.
    3 – Ora, o Mundo actual e aquele que desejamos para o futuro não é ulm mundo dominado por essa ideologia racista e xenófoba. Hoje, os territórios do Mundo são miscigenados por dezenas de nacionalidades e identidades multiétnicas.
    4 – Kant adaptou as ideias criadas no Médio Oriente e na Grécia e Roma antigas à ideologia positivista anglo-saxónica e ao puritanismo racista da Prússia. É uma adaptação pobre e restrita da herança cultural indo-europeia, hebraica, e das civilizações do “Crescente Fértil”.
    5 – Um “positivismo” (colonialista, evolucionista e supremacista) que, após a 2.ª metade do séc.XX, foi considerado pela Ciência (pelas descobertas e metodologias científicas) um erro. Uma obra em português que traça o percurso histórico desse erro de Kant, encontramo-la em “Tratado da Evidência” (F. Gil), para aqueles que tenham preguiça em ler outros autores em inglês e alemão.
    6 – Em 1945, Königsberg/Kaliningrado estava cheia de nazis prussianos que defendiam a supremacia da “raça branca” sobre o Mundo, tal como o «batalhão azov» do «regime zelensky» defende.
    7 – Para aqueles que não têm medo da imparcialidade, e detestam o sectarismo, aconselho a lerem: i) Hinz, Linda (14 de agosto de 2014). «Schmutziger Kampf in der Ukraine: Neonazis im Dienst der Regierung» [Dirty war in Ukraine: neo-Nazis in service of the government]. Focus Online (em alemão); ii) «Ukrainian soldiers seen wearing helmets with Nazi swastika and SS symbols». Haaretz. 9 de setembro de 2014; iii) «German TV Shows Nazi Symbols on Helmets of Ukraine Soldiers». NBC News. 9 de setembro de 2014; iv) “Ukraine’s far-right children’s camp: ‘I want to bring up a warrior’”, 5 de setembro de 2017. The Guardian: “Neste Documentário realizado na Ucrânia, vê-se a milícia de extrema-direita Azov a organizar um acampamento de verão para crianças. O Guardian visitou o acampamento, e acompanhou Anton, de 16 anos, através de suas experiências. O batalhão Azov das forças armadas de Zelensky é, de facto, uma organização moderna da Juventude Hitleriana, que está a tentar incutir essa ideologia nos jovens ucranianos”.
    8 – É a esse tempo xenófobo que desejamos regressar? É ao “positivismo” e puritanismo de Kant que queremos regressar? É essa a apologia que defendemos e exaltamos hoje, como guia para as gerações do Mundo?

      1. “(….) Nada é menos Evidente do que a Evidência. Graças a que poder uma proposição, um ritual, uma profecia, certas instituições do direito arcaico, afirmam, sem mais preocupações de prova, a sua verdade ? (….) A questão «cartesiana» do signo – o índex sui et veri – e a questão «husserliana» do preenchimento procedem de um fundo comum. (….) Tentou-se uma dedução da Evidência a partir da experiência sensorial e da língua que a descreve. Ora, a Evidência remete para uma esfera arcaica da representação, o seu operador é uma «alucinação» que tem mais que ver com o registo simbólico do que com a figura clínica. Este estudo situa-se na linha de Freud e de Husserl: a alucinação originária está em consonância com um pensamento da Evidência que tem por modelo «o existente absoluto».” (F.Gil “Tratado da Evidência”, 1996, INCM).

        1. O eco do desmoronamento do Realismo ainda ressoa perto. Para Jean-Paul Delhaye (1993) foram sobretudo: – o princípio da incerteza de Heisenberg, e o teorema da incompletude de Gödel. É deles que parte para afirmar que ficámos perante oito Realismos:
          1. O “realismo Materialista ou Ingénuo” [onde tudo é matéria e colisões];
          2. O “realismo Clássico” [em que tudo é concebido como matéria e campos magnéticos];
          3. O “realismo Abstrato” [em que o mundo físico é acedível por estruturas matemáticas, sendo apenas elas que permitem demonstrar uma realidade independente do observador];
          4. O “realismo Heurístico” [em que se crê que existe um real físico independente do observador, mas impossível de compreender; pressupondo dois níveis de realismo: a realidade (a que temos acesso compreensivo) e a existência (cuja compreensão não está ao nosso alcance até ao momento)];
          5. O “realismo do Finito” [em que se crê que existem objetos finitos: por exemplo, os inteiros, grafos, estruturas algébricas finitas, etc. Aceitando-se, mesmo que não saibamos responder à pergunta filosófica da existência de um Real Absoluto, que apenas existem objetos finitos, mesmo que não saibamos a que Real pertencem];
          6. O “realismo do Infinito Decomponível” [em que se crê que o conjunto dos números/objetos Inteiros existe — N corresponde, de facto, a um número real; e as partes de N existem, mesmo que N seja infinito. Os intuicionistas e os construtivistas recusam ir mais além do que isto];
          7. O “realismo do Contínuo” [em que se crê, mesmo que não haja finito ou infinito, que há um Contínuo heracliteano — o conjunto R dos números Reais, existe; as partes de R, as funções, existem; o conjunto das funções também existe (topologia); existe tempo mesmo que não saibamos se existem coisas. Os predicativistas recusam-se a ir mais além do que isto];
          8. O “realismo dos Conjuntos” [em que se crê que os conjuntos existem, mesmo que não saibamos o conteúdo das coisas (substância e ou essência) que os constituem. Em que «o conjunto das partes de N, mas também o conjunto das funções que são partes de R, existem», e «os conjuntos dos sucessivos conjuntos das partes existem, tal como elas].

          1. 1 – Em relação ao “positivismo” de Kant, houve no séc.XX uma profunda mudança no modo de concebermos o Real e o Realismo. Que provocou a deteção de fenómenos impensáveis para Kant.
            2 – Por exemplo, a interpretação da noção termodinâmica de Entropia, enquanto factor de desordem, por Ludwig Boltzman, em 1870.
            3 – Ou o esbatimento daquilo que concebíamos por “coisas e matéria”, no contexto espácio-temporal formulado por Einstein.
            4 – E depois, em 1920, a especificidade quântica indicada por Niels Bohr. Ao afirmar que nessa escala, a Física não descreve o mundo, mas outrossim o que o observador consegue calcular e perceber sobre ele.
            5 – Por fim a descoberta, em 1935, por Schrödinger, do fenómeno da “intricação”. Sobre a qual, John Bell, em 1964, previu aquilo que experimentalmente Alain Aspect demonstrou em 1982 no Instituto de Óptica de Orsay: “que uma vez unidos, dois objetos-partículas quânticos não constituem senão o mesmo objeto-partícula mesmo depois de os/as separarmos”. E que, uma mudança de estado num deles (por exemplo, uma variação de gradiente de energia) provocará a mesma mudança no outro, mesmo que estejam afastados vários quilómetros (Nicolas Gisin da Universidade de Genéve, em 1997, observou esse fenómeno em dois objetos-partículas afastados dez quilómetros).
            6 – Perante este desmoronamento e este distanciamento daquilo que Kant concebia por “Real”, ficámos perante quatro opões/caminhos:
            i) O Restricionismo [selecionar aquilo que é possível descrever e compreender, e pôr de lado tudo o resto];
            ii) O Relativismo e Interpretativismo radicais [aceitar que tudo é possível, não importa o quê, seja em que grau de arbitrariedade for, mesmo que conduza ao excesso de interpretação, ao relativismo, ou ao niilismo];
            iii) O Negacionismo [escondermo-nos da Realidade, decidindo que os problemas do realismo não são graves, e que é inútil tentar resolvê-los, como de alguma maneira fazem os Pragmatistas na passagem do século XIX para o XX];
            iv) A Lucidez Activa [aceitar as dificuldades do realismo, e tentar resolvê-las, mesmo que se acredite que talvez para nós, enquanto viventes do limite que somos, continuem a permanecer incompreensíveis].
            7 – Agora, é só exercitarmos este Conhecimento no caso actual da Ucrânia.

  3. Muito bem. É bastante oportuno que ofereça kant para enquadrá-lo na subliminar tentativa de colar kant à sua narrativa dos actuais acontecimentos.
    No caso português também não se ensina o essencial dos filósofos e do que é a filosofia. Significa isto que o ensino não passa de um debitar de sentenças sobre o pensamento de outros, pensando que se sabe muito por transmitir aquilo que se vai lendo a propósito e a despropósito do que outros pensaram.
    A filosofia é a arte que devia fazer pensar os preguiçosos. E é neste sentido que desejo abordar o essencial da filosofia. A filosofia é a transmissão do pensamento do CONHECIMENTO que se adquire em simultâneo ATRAVÉS da vivência singular e observação da vida própria e comunitária.
    E a honestidade da filosofia traduz-se também na afirmação que o filósofo faz (que pode ser cada um que saiba pensar, viver e observar): “sei que nada sei”. Não se sabe em concreto a quem poderá ser atribuída esta sentença. Porem ela traduz uma enorme sabedoria, na medida em que só se poderá afirmar tal sentença depois de muito se saber.

    É neste quadro que sublinho o que de Kant se deve reter. Afirmou kant, e muito bem, o que qualquer filósofo como eu afirmará, isto é: “o homem é responsável pela saída de sua menoridade”. Sair da menoridade significa pensar e ensinar a pensar autonomamente, ensinando o homem a fazer uso de seu entendimento também autonomamente.

    No contexto actual, que é o culminar de outros tantos contextos passados, o conhecimento que se presume ter resulta da aplicação das fórmulas que vão sendo elaboradas em contexto transnacional (ONU, OMS e outras mais organizações que também usam ong´s para este efeito) e que começaram a ser aplicadas em diversos países ocidentais, forçando-se outos a admiti-las e aplica-las.
    Traduzo o resultado da seguinte maneira:
    1 – Criaram-se zombies docentes para formar zombies;
    2 – Criam-se zombies em matéria laboral confundindo-se objectivos ditos comuns com interesses de uns quantos e do estado controlador;
    3 – A democracia parece ser, na medida em que se aceita que os zombies possam votar e, por isto, passa-se a ideia que o resultado é fruto de uma vontade pessoal.

    Neste sentido, democracia é a aplicação do que o poder deseja para alcançar ainda mais posse.
    Continuando a filosofia, decide-se hoje o que é democracia nas esferas que estão acima da consciência do homem e da sua individualidade. E os zombies nada mais são que escravos.
    Em contraponto a isto, eu, na minha qualidade de verdadeiro filósofo, preconizo o cristianismo como a religião libertadora para os escravos: escravos das religiões, onde se inclui os das denominações cristãs, escravos das organizações supranacionais e escravos da escravidão perpetrada por escravos que implementam em cada país a ordem dada aos zombies.
    Até que surja a libertação recomendo a leitura de Paulo na carta aos Hebreus.
    Hebreus 5,13-14
    “Ora, todo aquele que se alimenta de leite é inexperiente na palavra da justiça, porque é criança. Mas o alimento sólido é para os adultos, para aqueles que, pela prática, têm as suas faculdades exercitadas para discernir não somente o bem, mas também o mal.”

    Portanto, não vos ensino o que devem fazer. Mas a encontrar o caminho para fazerem como devem.
    Beatriz, beijufas

      1. Eu não discuti, nesta matéria, ensino consigo. Porque discuti-lo seria admitir a existência de ensino nesta matéria. Portanto, seria efectivamente ignorante se o fizesse. Beijufas e obrigado pelo elogio de me considerar um grande filósofo. Verifiquei que não coloca objecções a minhas altas e celestialmente divinas afirmações.

  4. Dostoiévski é considerado um dos maiores escritores e pensadores do mundo. … russo censurado na Itália por causa da guerra com a Ucrânia.

  5. A Prússia Oriental não foi toda anexada pela URSS a seguir à Segunda Grande Guerra. Cerca de metade da Prússia Oriental, ou mais, passou a fazer parte da Polónia. Menos de metade da Prússia Oriental foi anexada pela URSS e, dessa metade, metade foi para a Lituânia. Ou seja, somente cerca de 1/4 da Prússia Oriental é hoje o enclave de Kalininegrado. É portanto bastante errado identificar esse enclave com a antiga Prússia Oriental.

  6. Li livro citado, de De Quincey.
    Quanto a KANT, homem de rotinas rigorosas e pontuais, diz-se que nunca saiu da sua cidade natal.
    Porém a sua obra, revela o conhecimento da orbe inteira.
    A mente, como veículo do todo.

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