Um abraço do tamanho do mundo


Sérgio de Almeida Correia,

22280118_Nprh4.jpeg

Para quem aprecia um bom jogo de futebol, o encontro entre Manchester City e Liverpool da última jornada da Premier League foi um espectáculo. Em regra, os jogos do campeonato inglês são sempre um espectáculo. Há respeito pelo adversário, entrega, coragem, emoção, golos. Discute-se a bola em cada centímetro de relva, sua-se no campo todo.

E depois há o público. Animação, alegria, cânticos, aplausos. Não há fossos de protecção, não há arames, grades, jaulas.

E o que aquela gente corre, meu Deus. Até parece que não se cansam. Com os lusos a contribuírem para o espectáculo. Irrequietos, mostrando todos os seus atributos, destilando classe no drible, no passe. De vez em quando lá se vê o árbitro. Também se farta de correr. Fala com os jogadores, repreende-os quando é necessário, pedem-lhe desculpa, por vezes riem-se juntos. Tudo a anos-luz do que por outros lados se vê, onde os bandoleiros teimam em fazer parte do espectáculo. Mas não é este o momento apropriado para falar de desgraças.

O que aqui quero sublinhar desse jogo, e que é comum em quase todos os outros da Premier League, é o modo como os treinadores se relacionam. Parece que quanto melhores mais se entendem, mais se estimam, mais se admiram. E o jogo de domingo não fugiu à regra.

Naquele abraço no final do jogo entre Guardiola e Klopp estava lá tudo. A deferência, a amizade, a autenticidade, o respeito pelo outro, a paixão pelo jogo, os adeptos das duas equipas. O futebol em todo o seu esplendor.

Que bom foi ver esse abraço. Um abraço que foi todo ele um hino ao futebol, à civilidade, uma jogada excepcional, que em segundos resumiu toda uma partida. Um abraço que mostrou, afinal, que esse jogo, que pouco se assemelha ao “chuto-na-bola”, também pode ser jogado por cavalheiros. Que exemplo.

13 comentários em “Um abraço do tamanho do mundo”

  1. Inteiramente de acordo. Viu-se bem que o abraço foi espontâneo, que não foi um “número” para inglês ver e para passar na TV.
    Muito oportuno este seu post. Parabéns.

  2. é ‘muito óptimo’ viver numa republiqueta com presença ‘transversal’ de «javardos»
    onde um burro coça o outro

  3. Bom dia
    Salvo melhor opinião, na minha, tem toda a razão em enaltecer este, sim, ESPECTÁCULO.
    Espectáculo o jogo, a envolvente, e a categoria desses dois treinadores. Muito bom texto.
    Saúde e boa Páscoa
    António Cabral

  4. Depois de acabar este fabuloso jogo, mudei de canal para aquele que estava a dar, na nossa Liga, e após uns 5 minutos de palhaçada, mudei para o MotoGP, apesar de ainda faltar meia-hora para a corrida começar. É incrível como cabem no mesmo conceito de “futebol” coisas tão diversas como o espectáculo empolgante de Manchester e aquilo que acontece em Portugal.

    1. É sempre muito mais agradável ver um jogo em que nos é indiferente quem ganha, do que ver um jogo em que a equipa nossa adversária está a ganhar.
      Em Portugal, tipicamente, o segundo jogo é classificado “palhaçada”, porque a equipa nossa adversária só pode estar a ganhar devido a intervenção maléfica do árbitro.

  5. Tudo a anos-luz do que por outros lados se vê, onde os bandoleiros teimam em fazer parte do espectáculo.

    O meu filho, que percebe muitíssimo mais de futebol do que eu, diz que os árbitros ingleses são de facto muito diferentes dos portugueses – marcam muito menos faltas, toleram muito mais jogo “viril” – mas que nem por isso cometem menos erros, bem pelo contrário.
    O que acontece é que em Inglaterra se discute pouco os erros de arbitragem, ao contrário do que ocorre em Portugal, em que isso é praticamente a única coisa que se discute a propósito de futebol.

    1. O seu filho tem toda a razão, os árbitros ingleses, tecnicamente, não são melhores que os nossos. Por outro lado, não há memória de os clubes ingleses lhes pagaram férias no Brasil ou prostitutas, ou de recorrerem ao “aconselhamento matrimonial” do presidente de um clube na véspera de irem arbitrar um jogo deste. Se calhar, se estas (e outras) poucas vergonhas tivessem sido tido o tratamento adequado, falava-se menos de arbitragem em Portugal.

      1. se estas (e outras) poucas vergonhas tivessem sido tido o tratamento adequado, falava-se menos de arbitragem em Portugal

        Não creio.

        As “vitórias morais” já faziam parte da argumentação dos adeptos futebolísticos portugueses no tempo da Outra Senhora.

        Noutro campo: ainda eu era pequeno, há 50 anos, já os portugueses se queixavam de que não venciam o Festival da Eurovisão devido a os avaliadores serem tendenciosos e quererem desfavorecer Portugal.

        Atribuir as nossas derrotas aos árbitros é uma especialidade nacional. No caso do futebol tornou-se obsessivo e reflexo, abrangendo adeptos de todas as três grandes equipas (das outras, não sei).

  6. Eu não vi esse jogo extraordinário, mas vi outro também extraordinário, para a Champions, entre o Bayern e o Villarreal. Foi muito bom. E hoje há a segunda mão.

    1. Se, de facto, viu o jogo (como eu vi), ficou a perceber a diferença entre uma arbitragem de futebol (como a do SL Benfica v. Liverpool, por exemplo) e uma palhaçada à portuguesa.

  7. Também vi esse jogo, espetáculo, como disse; em Inglaterra jogam 90′, os jogadores não se atiram ao chão , não fazem fitas, se o fizerem são apupados pelos própios adeptos que pagaram bilhete para ver futebol , não espetáculo de circo.
    Acabou o jogo mudei para o Vit´ria de Guimarãres x FCP. AInda fui a tempo ded ver o penalti do Taremi ………

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *