DELITO há dez anos


Pedro Correia,

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Ana Lima: «Na noite em que eu nasci os vizinhos que levaram a minha mãe para o hospital resolveram virar à direita na marginal e não à esquerda. Foi assim que eu fui nascer a Oeiras e não a Lisboa. Durante muitos anos eu era um caso raro entre os meus amigos e conhecidos, cuja naturalidade era, invariavelmente, São Sebastião da Pedreira. Esta era, de longe, a freguesia que mais constava no bilhete de identidade daqueles cujos pais residiam em Lisboa e arredores. Depois passou a poder apresentar-se como naturalidade a localidade de residência da mãe. E aí tudo começou a mudar.»

 

Ana Vidal: «É sabido que a PUBLICIDADE (o tema deste post) se apodera dos ícones culturais e os vampiriza, capitalizando a força destes para fazer passar as suas mensagens, mais ou menos inócuas. A Última Ceia e o seu poderoso simbolismo, fortemente implantado na cultura ocidental e veículo privilegiado de emoções, não podia deixar de interessar a este universo de criadores de sonhos. Foi difícil escolher os exemplos de hoje, tal é a variedade de opções. Mas aqui ficam alguns.»

 

João Carvalho: «Quando eu andava sempre de calções, os táxis eram quase todos Mercedes-Benz 180D, igualmente designados pela marca como W120 Ponton.»

 

José António Abreu: «Como forma de protesto contra o corte das pensões de reforma para as quais descontara ao longo da vida, um cidadão grego de 77 anos atolado em dívidas suicidou-se na Praça Syntagma, em frente ao Parlamento. Trágico? Sem dúvida. Tão trágico que despoleta inevitavelmente respostas baseadas na emoção e dificulta qualquer análise objectiva. Mas procuremos fazê-la. Mantendo-se dentro do euro, a Grécia foi obrigada, entre outras medidas desagradáveis, a cortar pensões (em média, cerca de 15%). Fora do euro, o que teria feito?»

 

José Navarro de Andrade: «Recorde-se que a última ceia de Leonardo da Vinci captura o instante em que Cristo anuncia haver um traidor no meio de nós. Diz-se que o rosto é o espelho da alma e que a sua superfície é um sismógrafo onde se registam as vibrações profundas. Por isso, além das poses arqueadas e da composição turbulenta, o fresco de Da Vinci estampa na cara dos apóstolos uma perturbação tanto mais patética quanto contrasta com a levítica serenidade do Cristo traído.»

 

Leonor Barros: «A Páscoa é ter três ou quatro anos, um vestido azul-turquesa de fazenda vestido que me picava, era capaz de jurar que tinha a saia pregueada, e estar às cavalitas de um amigo dos meus pais. A Páscoa é tremer de medo com a procissão dos farricocos em Braga nesse mesmo dia do vestido azul-turquesa que me picava mas me aterrorizava menos que aquelas figuras tétricas sem rosto a fazer barulho cidade fora. A Páscoa era não haver politicamente correcto e poupar a criança do vestido azul-turquesa de fazenda àquele susto. A Páscoa é Beira-alta. A Páscoa é Tibaldinho e a festa da aldeia, o povo engalanado nas suas melhores farpelas. A Páscoa é esperar.»

 

Eu: «Meio século depois, Cuba volta a celebrar a Sexta-Feira Santa como feriado nacional. As autoridades comunistas corresponderam assim a um pedido expresso do Papa Bento XVI na sua recente deslocação ao país. Foi preciso outro chefe da Igreja Católica visitar Havana – João Paulo II, em 1998 – para os trabalhadores cubanos poderem assinalar o Natal como dia festivo após quase três décadas de proibição: Fidel Castro havia cancelado em 1969 o feriado natalício com o argumento de que “interferia nos trabalhos da colheita do açúcar”. Se não fosse “socialista”, certamente não faltaria quem o acusasse de tenebrosas tendências neoliberais…»

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