Ao 13º dia


José Meireles Graça,

Desde o princípio que as pessoas, perplexas com a invasão da Ucrânia, se inscreveram no grupo dos racionalistas, dos instintivos ou dos comunistas.

Eliminemos os últimos: são hoje uma insignificante minoria e, em matéria de relações internacionais, estão do lado oposto ao dos americanos pela mesma razão que o cão de Pavlov salivava, de modo que é um exercício ocioso entender-lhes as razões. Ainda que, como pululam pela comunicação social, gente boa e outra nem tanto se dê ao trabalho de lhes escaqueirar os raciocínios.

Os racionalistas querem entender os dois campos, não dispensando, porque não pode ser, a perspectiva histórica. O mestre dessa maneira de pensar, Vasco Pulido Valente, já cá não está mas como via ao longe escreveu isto em  27 de Fevereiro de 2015 (quem não conseguir abrir pode ir aqui, onde o texto está transcrito), uma demonstração do motivo porque ele era único e não deixou herdeiros. E, conscientes desse pano de fundo, analisam as circunstâncias objectivas de cada caso, deduzindo futuros e, quando atrevidos e voluntaristas, soluções.

Já lá vamos. Quem quiser entretanto ver que gente é aquela, e como e porquê se vê naqueles assados, pode fazer pior do que ouvir um podcast no Spotify da série The Rest is History, episódio 155, ou este da série E o Resto é História, do Observador.

É aqui que a porca torce o rabo. Porque a história ajuda-nos a reconhecer padrões de comportamento e as causas que subjazem às decisões políticas, mas não garante que, debaixo das aparências, algumas coisas não estejam efectivamente a mudar.

Se no mundo, e em particular no espaço da UE, houvesse apenas Vitais Moreiras, o destino de milhões de ucranianos estava traçado – é ver a lista de motivos que com doutoral suficiência elenca para entregar desde já Zelensky e os seus concidadãos aos cães. Nas palavras dele:

… não será altura de a União Europeia, sem prejuízo da condenação da invasão e da solidariedade com Kiev, reponderar a sua atitude passional e de alinhamento acrítico com Washington, atirando gasolina para a fogueira, e encarar a possibilidade de se tornar num fator ativo de moderação, em prol de um cessar-fogo e do início de negociações para a paz?

Este palavreado refere-se a negociações mas do que se trata é de ceder às exigências de Putin: reconhecer a perda da Crimeia, alterar a Constituição para garantir que a Ucrânia jamais pertencerá à OTAN e reconhecer a “independência” das duas republiquetas secessionistas.

Vital é um apparatchik ideológico das instâncias europeias, como antes era da URSS: para ele a opinião pública não é mais do que a soma das ignorâncias avulsas de milhões de cidadãos, que devem ser iluminados pelos catedráticos da opinião alinhada; e decerto os ucranianos não estão a ver o que lhes convém ou, se estão, que recolham às catacumbas da inexistência para não perturbar o mundo burocrático de Vital.

Sucede que a verdadeira razão pela qual as instâncias europeias e as autoridades americanas são obrigadas a prestar, em parte, apenas lip service à causa ucraniana é o respeito pela respectivas opiniões públicas – os instintivos. Estas intuem que os ucranianos que morrem ao serviço de uma causa provavelmente perdida defendem algo que é parte constituinte do corpo de ideias do Ocidente, entre outras coisas um módico de respeito pelo Direito Internacional que Putin ofende com impunidade e o direito de um país reconhecido pela comunidade internacional escolher as suas políticas e as suas alianças.

Impunidade é como quem diz: porque quanto maior for a desgraça dos ucranianos maior o capital de ressentimento, mais sólidas as bases para uma futura correcção do torto e mais segura a contenção dos chineses na tentativa de resolverem o “problema” de Taiwan.

Os Ucranianos estão-nos a defender; Putin não. E mesmo que o efeito boomerang das sanções, os problemas da integração dos imigrantes, a situação no terreno e o cansaço venham a provocar um efeito de fadiga, e logo o evoluir da opinião pública para teses derrotistas, não é preciso empurrar.

Hoje sou Ucraniano. De paleio, é certo, no conforto do meu sofá. Vital nem isso é.

10 comentários em “Ao 13º dia”

  1. Mas neste blog ficou tudo parado em 1991 e tem tudo pesadelos com comunistas? Que eu saiba quem andou a oferecer vistos gold aos oligarcas russos durante o governo de Passos Coelho não foram os comunistas. Assim como não consta que Le Pen e Salvini, ambos amigos de Putin, sejam comunistas.

    1. Infelizmente, os comunistas não nos aparecem nos “pesadelos”, aparecem nas televisões, e empatam as caixas de comentários, e alguns, como o camara Vital, se calhar, até estão firmemente convencidos que se curaram da doença.

    2. As políticas económicas da senhora Le Pen estão próximas dos Comunistas…
      E Putin ataca apesar dos oligarcas – esses preferem estar a ganhar dinheiro – não por causa deles.

    3. “JPT”, para si só o Chega é que deve aparecer na televisão, estou a ver…
      “Lucklucky”, quais políticas económicas da senhora Le Pen? O que eu sei é que ela é amiga de Putin e Trump, e você esforça-se por mostrar a sua submissão a Trump com frequência neste blog… Quanto aos oligarcas russos, eles não se tornaram ricos do nada, alguém os levou ao colo.

      1. Curiosa essa sua observação, porque apenas estou a ver uma pessoa que veicula as “ideias” do Chega (ou próximas) a “aparecer” numa televisão, rádio ou imprensa impressa: é o Jaime Nogueira Pinto. E, mesmo esse, não pode “aparecer” sozinho, tem de ser acompanhante por um reputado comunistas (antes o Ruben de Carvalho agora o Pedro Tadeu), para o controlar, suponho, tal como se faz aos progenitores acusados de abusar ao filhos.

  2. ‘…direito de um país reconhecido pela comunidade internacional escolher as suas políticas e as suas alianças.’,
    Isso é que era bom, experimente Cuba montar misseis com medo de ser anexada pelos EUA e por isso fazer aliança económica e militar com os russos.

  3. Sun Tzu – A arte da guerra (9)
    “Um chefe que é capaz deve fingir ser incapaz; se está pronto, deve fingir-se despreparado; se estiver perto do inimigo deve parecer estar longe”

  4. A Ucrânia é bem mais do que aquilo que é dito por uns e outros. Na sua génese é uma confederação tribal e um território que abrangia o que é conhecido por Ucrânia mas também a Bielorrússia e a Rússia. Recomendo a leitura histórica mais recente com a rainha santa (para ortodoxos e católicos) Olga de Kiyv.
    E Putin, à semelhança de vários governantes na região, é um herdeiro dessa história.
    Vamos agora à história mais recente para compreender o outro lado da história presente:
    1610-1612 – Ocupação polaca do Kremlin
    1708-1709 – Invasão Sueca da Rússia
    1812 – Invasão napoleónica
    1914-1918 – I guerra Mundial
    1941 – Invasão nazi da USSR
    1989 – Colapso do muro
    *1990 – Cimeira Gorbachev- George Bush (compromisso: se a Alemanha fizer parte da nato esta não deve expandir-se mais para leste, isto é, não mais membros)
    *Nota: existem memos e transcrições que atestam este compromisso
    1991 – desintegração da USSR (uma oportunidade para o desarmamento e para se por termo à era nuclear. Nada feito)
    1999 – Polónia, Hungria e República Checa integram a nato
    2004-2009 – Bulgária, Estónia, Letónia, Lituânia, Roménia, Croácia, Eslováquia, Eslovénia e Albânia integram a nato
    Nota: Que perigos existiam desde a desintegração a USSR para que se observasse a expansão hostil da nato?
    2017-2020 – Montenegro e Macedónia integram a nato
    2021 – A nato reconhece oficialmente a participação na organização da Bósnia-Herzegovina, Geórgia e Ucrânia.

    Os protestos e avisos da Rússia vinham sendo ignorados desde 1999. Na conferência anual de Munique em 2007 Putin dirigiu a seguinte mensagem: “A nato colocou a sua linha da frente nas nossas fronteiras. Esta expansão representa uma séria provocação e reduz o nível de confiança mútua. E nós temos o direito de perguntar: Contra quem é esta expansão? O que aconteceu com as garantias oferecidas pelos nossos parceiros ocidentais depois da dissolução do pacto de Varsóvia?”
    OBS: A 26 de Junho um grupo de 50 especialistas em politica externa, ex-senadores, militares na reforma, diplomáticos e académicos endereçaram uma carta a Clinton sublinhando sua oposição aos propósitos expansionistas da nato e da politica dos usa.
    O Diplomata e historiador americano, George Kennan, afira: “É um tágico erro (a expansão). Não há nenhuma razão para que aconteça. Ninguém está a ameaçar ninguém.”
    Em 2008 o ex-embaixador na Rússia, Wiliam J. Burns, afirma: “A entrada da Ucrânia na nato é das mais assinaláveis linhas-vermelhas para as elites russas. (…) E preciso encontrar alguém que veja a entrada da Ucrânia na nato que não um desafio directo aos interesses russos.”
    O ex-secretário de estado nas administrações Bush e Obama, Robert M. Gates, afirma: “Procurar trazer a Geórgia e a Ucrânia para a nato é verdadeiramente excessivo. Esta movimentação é um acto imprudente e ignorância do que os russos consideram ser o seu interesse vital nacional.”
    Nota: Sugiro ainda o estudo e investigação sobre as declarações do ex-secretário de estado Strobe Talbbot.
    Como verificará, VPV teria muito a aprender sobre Putin e a Rússia. Verificará ainda que a legitima acção russa expressa-se também no que aqui deixo, com referências e nomes, para que as mentes busquem e estudem o fenómeno.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *