Perguntava-me há dias se a situação na Ucrânia provocaria tanta comoção como quando houve a questão do Iraque. Nessa altura, houve uma jornada mundial de manifestações (talvez dos primeiros grandes efeitos da Internet), a 15 de Fevereiro de 2003, de protesto contra a iminente invasão do Iraque, com manifestações por toda a parte (se me perguntarem, sim, eu estive numa nessa data, no Porto, e no dia em que começou a guerra estive ao lado do iraquianos em Atenas).
Neste momento, felizmente, começa a haver um grande movimento contra esta invasão e a favor da Ucrânia. A diferença, pelo que me pareceu, é que é sobretudo no mundo ocidental, com o resto um pouco mais indiferente, mas espero estar enganado.
A propósito do Iraque, tenho visto as estafadas perguntas “então e o Afeganistão, o Iraque, a ex-Jugoslávia”…normalmente é um estratagema de whataboutismo para se poupar a Rússia por birra com o ocidente (a que pertencemos), porque uns não implicam outros. E quem as faz assobia para o ar perante a flagrante violação do direito internacional, que antes tanto dizia defender. Mas há apesar de tudo, diferenças, pelo menos nestes três.
O Afeganistão invadiu-se porque albergava uma colónia de terroristas que tinha provocado o 11 de Setembro. Os Estados Unidos sofreram um ataque armado e pelo Direito internacional tinham todo o direito de se defender, como a ONU concordou. Outra questão será saber se administraram bem a situação após a fase militar.
Na ex-Jugoslávia, ou antes no Kosovo, estava a haver uma limpeza étnica das populações albanesas locais, de tal forma que tanques sérvios chegaram a atravessar a fronteira com a Albânia atrás de kosovares. Deu-se então uma intervenção da NATO, bombardeando não só forças militares mas também pontos estratégicos em Belgrado, o que levou à morte de alguns civis (e até ao bombardeamento por engano da embaixada chinesa). Sendo certo que uma intervenção para evitar situações como a que tinham ocorrido na Bósnia anos antes era mais que aconselhável, a verdade é que a NATO não tinha mandato da ONU e levou a acção longe demais para além dos objectivos.
O Iraque é o que se sabe. Os EUA e alguns aliados, como a campanha contra o “Axis of Evil” dos neoconservadores, conseguiram implicar Saddam Hussein com a Al-Qaeda, com a qual não tinha rigorosamente nada a ver, e inventar umas fantasiosas armas de destruição maciça, que Colin Powell “revelou” numa sessão das Nações Unidas em que o seu prestígio de décadas se estampou. O resto é história.
Qual é então, a grande diferença para os casos do Kosovo e do Iraque? É que no primeiro, apesar de ser ilegal, a intervenção conseguiu parar uma limpeza étnica que estava a ser comandada por um tirano, Slobodan Milosevic, de tal forma que no ano seguinte os sérvios não hesitaram em derrubá-lo.
No segundo, apesar de ser um desastre baseado numa mentira, a verdade é que o regime de Saddam era um dos piores facínoras da época e crimes contra a humanidade não faltavam.
E similar ao caso da ex-Jugoslávia poderíamos ir ao caso da Líbia, regida por um assassino que ia desencadear uma repressão violenta contra o seu povo.
No caso da Ucrânia, não só se trata de uma violação flagrante do direito internacional com base em mentiras descaradas (a suposta adesão do país à NATO) como atenta contra um presidente livremente eleito (venceu até o seu antecessor, que estava no cargo), e não um “neonazi”, ao contrário do que se passa na Rússia. Ou seja, pelos argumentos da Rússia, a Ucrânia tinha todas as razões para a invadir, já que o regime de Putin ameaça a sua soberania, comete crimes contra o seu povo e só se “elege” prendendo e abatendo adversários.
Em suma: se havia razões para contestar a guerra do Iraque, mais razões ainda há para protestar contra a agressão à Ucrânia.

Eis, em todo o esplendor, um estendal de ndignações selectivas em marcha. Variante daquela fábula infantil do lobo e do cordeiro — o “culpado” é sempre culpado, mesmo que seja inocente.
Exemplo mais hipócrita do whataboutismo, que leva tantos a estabelecer equivalência moral entre agressor e agredido, é ver gente muito preocupada com a vizinhança entre a fronteira leste da NATO e a Rússia, a propósito da Ucrânia, fingindo não reparar que por estes dias Moscovo acaba de se instalar ali ao concretizar uma ocupação militar de facto da Bielorrússia, vizinha da Polónia, da Letonia e da Lituânia, países membros da NATO.
A tal “equivalência” levaria tal gente a desculpar uma hipotética acção militar da NATO na Bielorrússia. Com a diferença de a Ucrânia não ser membro da NATO e a Bielorrússia já estar ocupada ‘manu militari’ por Putin, que limpa as solas enlameadas das botas ao focinho de Lukachenko, tiranete fantoche feito capacho de Moscovo.
Exemplo mais repugnante de whataboutismo é ver, entre aqueles que procuram ansiosamente circunstâncias atenuantes para a agressão da Rússia à Ucrânia, declarados negacionistas do Holodomor, como o nosso colega JPT já assinalou.
Ou que passavam o tempo a invocar o direito internacional e as regras da ONU. Aparentemente, para alguns antigos seguidores estritos das regras internacionais, a ONU nem existe.
Ou que passavam o tempo a invocar o direito internacional e as regras da ONU. Aparentemente, para alguns antigos seguidores estritos das regras internacionais, a ONU nem existe. Logo agora que há um português como Secretário-Geral.
até ver um segmento de recta tem 2 extremos
já vi e senti muito e o seu contrário
Pitigrilli dizia «o mundo divide-se em pios e ímpios com classificação feita pelos pios »
no Kosovo, estava a haver uma limpeza étnica das populações albanesas locais
Eu penso que atualmente ninguém acredita em tal tese.
No Kosovo estava a haver uma insurreição armada de albaneses, que era combatida, como é natural, pelas tropas sérvias. Mas não estava a haver nenhuma limpeza étnica. Nenhuns albaneses estavam a ser mortos de forma sistemática pelos sérvios.
Houve escandaleiras nos mídia anglo-americanos, em especial o célebre massacre de Racak, mas depois da guerra concedeu-se que isso era uma falsificação.
Ninguém? A limpeza étnica estava esboçada, começou, e só não avançou porque entretanto houve a tal intervenção da NATO. Eram os mesmos artífices de Sebrenica e do cerco a Sarajevo que queriam fazer o mesmo no Kosovo, Muitos kosovares lembram-se disso. Também há gente que não acredita em Sebrenica. Assim como muita gente escreve “mídia” ignorando que isso é um erro que no Brasil se comete ao anglicizar a palavra latina media.
A limpeza étnica estava esboçada, começou
Se ela estava esboçada ou não, não sei, mas até agora ninguém viu esboços nenhuns, tal como ainda ninguém viu as armas de destruição maciça do Iraque. Provavelmente seriam somente esboços mentais.
Quanto a ter começado, não começou. Houve sem dúvida incidentes violentos (estava a haver uma sublevação armada), mas nenhuma matança sistemática de civis.
Não há erro nenhum. “Mídia” é escrever aquilo que se diz, que se pronuncia. (Ou, pelo menos, eu pronuncio assim.) A palavra latina “media” é isso mesmo: latina, não portuguesa. “Mídia” é um anglicismo. Tal como “restaurante” é um galicismo. Quando as palavras inglesas ou francesas são transferidas para o português, passamos a escrevê-las como as pronunciamos.
Mas pronuncia Mídia? Eu pronuncio Média, os media. É média que se diz e media que se escreve. A palavra transmitiu-se como anglicismo para o Brasil, não para Portugal. Por isso está errado, sim, tanto nisto como na limpeza étnica (não disse genocídio) que começou e que não continuou por causa da intervenção da NATO, receosa que houvesse uma nova Sebrenica (espere que não duvide desta). Já ouvi testemunhos de albaneses sobre isto, por isso não é mero mito inventado pelas forças de intervenção. Escusavam era de terem bombardeado pontes em Belgrado.
“O Iraque é o que se sabe. Os EUA e alguns aliados, como a campanha contra o “Axis of Evil” dos neoconservadores, conseguiram implicar Saddam Hussein com a Al-Qaeda, com a qual não tinha rigorosamente nada a ver, e inventar umas fantasiosas armas de destruição maciça”
Continua a mentira.
As armas de destruição em massa foram encontradas, até um pequeno numero de granadas foi usada pelos insurgentes como bombas, coisa censurada pelos jornais por cá como era de esperar. O que não foi encontrado foi um programa de desenvolvimente de armas de destruição em massa ao contrário do que Colin Powell disse. Eram munições dos anos 80 e até à invasão do Koweit.
“In October 2014, The New York Times reported that the total number of munitions discovered since 2003 had climbed to 4,990, and that U.S. servicemen had been exposed and injured during the disposal and destruction process.[127][128] ” Wikipedia.
Claro, não foram encontradas as que Powell “mostrou” e que Durão Barroso “viu”, não foram usadas contra o exército norte-americano, mas os outros é que mentem.
LuckLucky, o último crente na tese das armas de destruição maciça, par não dar o bico ao prego. Força aí! Precisamos de evitar a extinção de espécies raríssimas.
Justificar uma invasão porque já tinham existido outras a outros países é justificar um crime com outro crime.
As razões para as invasões são sempre múltiplas e às vezes supreendentes. Bill Clinton mandou bombardear uma fábrica de medicamentos em África porque não lhe largavam a braguilha em casa.
Nos Balcãs ninguém se ralou com limpezas étnicas de populações sérvias, no Afeganistão continuou-se a ocupar o país mesmo depois de se saber que os terroristas estavam no Paquistão, que não foi incomodado. Agora Biden parece querer ficar com os bens afegãos para pagar os custos da guerra que perdeu. O Iraque é um caso de estudo de como, na ânsia de roubar petróleo, que estava caríssimo na altura, se pode destruir uma posição estratégica confortável. Isto sem falar nos milhares de mortos. As tropelias russas na Tchechénia, e na Geórgia, gente que não tem a cor certa, não provocaram um milésimo da indignação que a Ucrânia está a provocar. Se os Uigures tivessem a sorte de viver na Europa e serem brancos teriam uma defesa mais vigorosa, assim têm de se aguentar.
Não serve de muito lamentarmo-nos ou indignarmo-nos, é assim que as coisas são.
Vale, sobretudo se as coisas se passarem agora, neste momento, e pudermos fazer um mínimo para as evitar ou atenuar.
«se havia razões para contestar a guerra do Iraque, mais razões ainda há para protestar contra a agressão à Ucrânia»
Exacto.
Houve muitas responsabilidades ocidentais no agudizar das tensões com a Rússia, mas a invasão da Ucrânia foi um passo que alterou – qualitativamente – o quadro. Por que razão escrevo isto? A principal é ser uma agressão de uma violência extrema, talvez mesmo sem precedente no seu contexto, uma vez que Putin reinvidicou para si, em directo para todo o mundo, a legitimidade de optar pela destruição da civilização humana . Parafraseando Mélenchon no seu discurso na Assemblée Nationale, acabámos de pôr em órbita um extraordinário telescópio (James Webb telescope) e vemos-nos forçados a baixar o nosso olhar, angustiados, para monitorizar os movimentos de tropas e armamento. Isto é um brutal, um violento retrocesso civilizacional.
Parece-me que o problema com muito do chamado “whataboutismo” é que inverte as cláusulas da primeira frase que escrevi. Há muito quem diga «a invasão é grave, mas …» enquanto que seria mais justo escrever «as causas do que se está a passar são complexas, mas… o que se está a passar é inédito e altera drasticamente os dados do problema»). O principal problema que resulta deste erro é o risco de uma deformação grosseira na percepção da realidade que estamos a viver.
Mantenhamos a cabeça fria. Se é importante não suprimir o contexto, é igualmente importante reconhecer os factos na sua fria crueza à medida que estes se desenrolam. Não há determinismo que impeça os seres humanos de baixar as armas e optar pela paz entabulando negociações. Ocorre-me esta frase de um escritor famoso.
“The test of a first-rate intelligence is the ability to hold two opposed ideas in mind at the same time and still retain the ability to function.”
Porventura não serão apenas duas ideias contraditórias, mas um conjunto complexo, repleto de tensões internas, um emaranhado difícil de desintrincar ; mas desintricar é preciso, e seleccionar prioridades e estabelecer compromissos duros também. Na frase citada, substituiria «first-rate» por «decent» ou «humane».
Gostaria muito que as armas baixassem, mas duvido que os beligerantes, a começar pelos agressores, o queiram fazer para já.
Contrariando-me a mim próprio – odeio o missionarismo – tenho-me visto coagido a lutar contra narrativas que diferem da minha. O primeiro exemplo é a obsessão da NATO em expandir-se para Leste, o segundo é a guerra do Iraque.
Bush pai, em classificação portuguesa, era da direita fofinha. Antes de iniciar a guerra no Golfo, além do mandato da ONU, procurou o apoio de todos e mais alguns incluindo, é bom lembrar, esse modelo democrático que foi Hafez al-Assad, da Síria. Batido o exército de Saddam – sem que nunca a principal força, a Guarda Republicana – fosse envolvida, não prosseguiu a perseguição nem avançou para Bagdad, porque – versão oficial – o mandato da ONU não cobria esse objectivo.
Ora, se houvesse vontade política ou mero bom senso, isso não era necessário. Ao incendiar os poços de petróleo do Kuwait, causando o maior desastre ambiental do mundo (ou segundo?) Saddam Hussein colocou-se na situação de criminoso internacional e a sua captura para posterior entrega ao TPI estaria legalmente justificada mesmo sem mandato prévio.
Assim, Bush deixou Saddam com o seu poder político e militar intocado e imediatamente este começou a divulgar internacionalmente a tese que os americanos não tinham força para o remover, que eram o tal “tigre de papel”. Os ocidentais, formatados pelas ideias filosóficas de Kant, Hegel e outros das escolas alemãs, perderam a consciência que o resto do mundo não é assim. Especialmente para os orientais mas também para muitos outros, talvez mais de 80% da população mundial, as aparências confundem-se com a realidade. E Saddam não tinha perdido a face. Durante anos, continuou a fazer estragos diplomáticos até que pisou o risco.
Há que relembrar que após 1945, a Europa estava submergida pela dívida aos EUA e os americanos criaram o plano Marshal, o Banco Mundial, o FMI e o dólar na base das finanças e comércio mundiais. É totalmente irrelevante porque o fizeram. É evidente que se não o fizessem, não teriam clientes para os seus produtos mas o facto é que os EUA, com a Rússia, o Brasil e poucos mais, eram os únicos países que poderiam viver em autarcia e tinham fortes vozes internas a defenderem isso mesmo.
O facto indiscutível é que o dólar era a base do sistema internacional de pagamentos que é um sistema que tem de ser vigiado e corrigido se necessário. Se todos começassem a praticar bilateralismos monetários, uma crise local poderia propagar-se antes de ser contida.
Ainda hoje isso é assim e por isso vimos fortes posições nos EUA contra a UE e contar o Euro. E nunca abriu mão do petrodólar, pois a energia era a base de tudo. A UE negoceia energia em dólares. Vimos a Rússia a fazer um negócio de venda de gás à China, ruinoso em preço mas com a condição de ser pago em Euros. E vimos a China numa arriscada criação de uma cripto-moeda, para tentar desalojar o dólar. Esse uso universal do dólar era, e ainda é o quadro, apesar de se adivinhar que já não por muito mais tempo.
Ora Saddam começou a negociar petróleo em libras, francos suissos, marcos alemães e creio que mais. Isso é que tinha de ser travado e as armas de destruição maciça, um pretexto para a opinião pública a quem não podia ser dito que o Iraque era invadido para proteger o petrodólar. De facto não era possível explicar a importância do petrodólar na estabilidade dos mercados energéticos e financeiros. E evidentemente, também do poderio americano mas, tal como atrás, é irrelevante discutir motivos quando os factos têm valor próprio.
Chamo a atenção que os ingleses, em primeira análise, beneficiariam com as transacções em libras, que seriam favoráveis à praça financeira de Londres mas foram os que logo viram o perigo da instablidade e foram o maior apoio dos americanos.
(a continuar)
(continuação)
Nada disto desculpa o disparate da administração Bush filho, ao proibir o partido Baath – todos os funcionários públicos eram desse partido – em 2003 e dispensar todas as forças armadas e policiais. Isto é, deixou um pais ingovernável e atirou para a oposição todos os que tinham treino de uso de armamento. E ainda menos desculpa a retirada das tropas efectuada por Obama, deixando a maior parte do país nas mãos dos sunitas o que, aliado ao disparate – aí talvez mesmo crime – de ter destabilizado a Síria, armando as oposições sunitas, permitiu a reunião das duas oposições, a “anti-democrática” do Iraque e a “democrática” da Síria, o que fez o Estado Islâmico, nascido, recorde-se, já com uma área superior à dominada pelos governos sírio e iraquiano..
Mas, francamente, explicar a invasão do Iraque pelas “armas de destruição maciça” ou pelo “Eixo do Mal”, já enjoa. Tanto como desculpar Putín pelo avanço da NATO para Leste.
Creio que uma das razões para o não avanço de Bush Pai e a consequente remoção de Saddam teve a ver, para além do cumprimento do objectivo de libertar o Koweit, com o não acirrar muito os vizinhos árabes, que apoiaram todos a intervenção e a operação Tempestade do no Deserto (que ficou no meu imaginário de início de adolescência). Entretanto limitou-se a criar zonas de exclusão aérea a norte e a sul, para proteger curdos e árabes dos pântanos, vítimas de Saddam. Doze anos depois, o Iraque era já muito mais débil, depois de tantas sanções, isolamentos e alguns ataques sofridos, uma sombra do “quarto mais poderoso exército do mundo” que reivindicava em 1990.
A sua argumentação é muito razoável.
Ou seja, os iraquianos e os líbios estão mais bem servidos com o Daesh do que estavam com Saddam ou Kaddafi? E depois admiram-se porque é que a China e a Índia lavam as mãos em relação ao que se passa na Ucrânia. Os imperialistas europeus e norte-americanos querem o mal do resto do mundo. O resto do mundo não quer o mal dos europeus, mas para eles nós somos brancos que nos entendamos.
E os ucranianos, ficam muito bem servidos com um qualquer oligarca ao serviço de Moscovo em lugar do que eles escolheram? Nem me tinha apercebido desse terrível ódio do ocidente, e que o resto do mundo era constituído por gente impecável e estados que respeitam muito os seus nacionais. Muito obrigado por ilustrar o post.