Somos mais ou menos ucranianos*


José Meireles Graça,

O estalinista reciclado em czar deu uma de Pedro o Grande e engoliu um território seis vezes maior do que o de Portugal, e com mais de 44 milhões de habitantes, para almofadar o seu país, que é de longe o maior do mundo.

O maior mas com relativamente pouco mar navegável e deserto: 9 habitantes por km2 (EUA 36/km2, China 149/km2, França 119/km2, Grã-Bretanha 282/km2, Brasil 25/km2, a própria Ucrânia 72/km2, só para dar alguns exemplos).

O grande rival desde os tempos do comunismo nunca foi invadido porque tem mar de dois lados e, do Norte e do Sul, apenas dois vizinhos, ambos comparativamente muito mais fracos. Já a Rússia pode ser e tem sido facilmente invadida, mesmo que depois os penetras descubram que a digestão é impossível.

O poder imperial russo sempre soube disto. E com o regime comunista a fome juntou-se à vontade de comer porque às necessidades estratégicas de segurança somou-se o imperativo humanístico da difusão do socialismo científico. À boleia desta doutrina, e dos resultados da II Guerra Mundial, a Rússia tornou-se uma superpotência. E quando esta implodiu deixou a memória da grandeza pretérita enquanto as franjas do império deram à sola para se irem acolher, as que foram aceites, debaixo do guarda-chuva da OTAN.

Esta, a OTAN, garantiu durante décadas que a Europa Ocidental vivesse em paz, com um inimigo comum que lhe servia de cimento, e que era a URSS. Foi aliás a OTAN, e não as gabadas excelências da União Europeia, que a garantiram, à paz. E a percepção de que o urso russo, ferido, podia ainda ser perigoso; a constatação de que há poderes ascendentes que talvez ainda nos venham a pôr, como os deles, os olhos amendoados; a infeliz circunstância de a Europa ter uma longa tradição de batatada interna; a inércia – tudo concorreu para que a OTAN não tivesse seguido o caminho da sua contraparte do outro lado, o Pacto de Varsóvia.

Isto não impediu que os últimos presidentes americanos começassem a torcer o nariz a pagar o pato da defesa europeia e a sugerir uma grande inconveniência – que a Europa contribuísse mais com recursos e menos com perdigotos.

A OTAN é, para já, um vencedor desta guerra: as alianças militares, mormente se bem-sucedidas, é melhor preservá-las. E os federalistas europeus outro: do que precisamos é de um exército europeu, vai ser uma cantilena que agora deixa de parecer, como de facto é, uma loucura.

Esta sumária descrição dos factos insere-se num esforço de objectivação: a realidade tem os seus motivos e a ponderação destes costuma ser boa conselheira – os estados de alma não. É esta sobriedade que permeia o discurso de quem lembra dois factos: um é o de que a geopolítica casa mal com discursos moralistas; e o outro que o direito internacional (que Putin espezinha com despudor) só seria verdadeiramente direito se houvesse um aparelho repressivo para o impor, como existe dentro dos ordenamentos nacionais. Como não há, restam os factos.

Foram estas considerações que levaram a que a Ucrânia não tivesse sido admitida na OTAN. Afinal de contas, a génese da aliança tem um carácter defensivo anti-soviético, que se confundia, na natureza das coisas, com anti-russo. E isso, mais o peso da história, no caso consubstanciado pela emergência relativamente recente da Ucrânia como Estado-nação, levava a que se estimasse que tal adesão fosse encarada como uma provocação, por ficar a Rússia cercada de inimigos potenciais.

Sucede que as opiniões públicas do Ocidente acham a guerra uma coisa bárbara e primitiva, e portanto a missão da OTAN é evitá-la: admitir as repúblicas bálticas, todas em 2004, era uma coisa; e a Ucrânia outra. O que não faz com que o cidadão ucraniano que hoje se vê indefeso perceba por que razão tem menos direito à solidariedade do que, por exemplo, o Búlgaro ou o Lituano.

Não percebe ele nem a generalidade das opiniões públicas. Excepto pelo facto aborrecido de que estas querem ganhar guerras com a condição de não as pagar, ainda menos travá-las, e até mesmo exigindo dos seus poderes que lhes limitem os incómodos.

Que isto é assim mostra-se pelo facto de as reacções, até agora, terem consistido numas sanções piedosas, devidamente calibradas para não terem um efeito boomerang.

É possível que os cidadãos europeus, velhos, cansados, socialistas de obediências várias, albergando as suas decrépitas quintas-colunas do comunismo derrotado, que hoje quase que unicamente por antiamericanismo primário defendem a agressão putinesca, comecem a cair em si: a história não acabou, e projecta sombras compridas; e si vis pacem para bellum.

Este acordar é outra consequência da guerra. O mais ver-se-á com a evolução: não é impossível que Putin descubra que afinal a sua população não é tão entusiástica como ele da restauração da superpotência, se com isso continuar a arrastar os pés do desenvolvimento e, neste momento, nem sequer há a certeza de que a Rússia não se vai atolar num osso guerrilheiro a lembrar o pântano do Afeganistão.

E pode bem ser que, no nosso tempo em que a guerra chega pela televisão e pelas redes sociais, mesmo que filtrada, mesmo que embrulhada em notícias falsas, os cidadãos russos, antigos irmãos dos ucranianos nas delícias do socialismo, descubram que não estão na realidade ali potenciais inimigos, como não o são verdadeiramente aqueles países que fizeram uma aliança para se defenderem de uma doutrina que eles próprios já enterraram.

Só dúvidas. Entretanto, as bandeirinhas da Ucrânia em milhões de murais no Facebook dizem bem de quem as põe. E diriam melhor se os respectivos donos estivessem dispostos a pagar forças armadas porque a independência não sai de graça; e se lembrassem que não é a melhor das ideias ir sempre buscar energia ou bens onde são mais baratos, quando o preço disso seja pôr na mão do fornecedor mais poder do que o que nos convém.

 

* Publicado no Observador

15 comentários em “Somos mais ou menos ucranianos*”

  1. O JMG permita referir que na sua busca de objectividade desfocou do essencial. Quem criou um inimigo foram os ditos democratas americanos. A Rússia foi bandeira para estes indivíduos, criando manobras de diversão perigosas, muito declaradamente com a derrota da Clinton para o Trump, justificando tal derrota com um alegado boicote russo. Vejam bem que até os americanos, russóbicos por natureza, acreditaram nos russos para derrotar a coitada.
    Por outro lado, o contexto histórico e o facto da Rússia se constituir para eles uma ameaça à hegemonia através do poder da energia, levou os usa não só a esquecerem a doutrina Monroe – muito bem aplicada a seu favor durante a crise dos misseis de Cuba e da invasão da baía dos porcos – como também, no seu delírio bipolar, pensarem-se unipolares, varrendo o conceito de globalização para debaixo do tapete ignorando a emergência da multipolaridade surgida, com a erupção da China e a ressurreição da Rússia, que essa mesma doutrina fomentou.
    Os USA foram vitimas de sua própria ganância e a ue, através do guarda-chuva criado pelo seu parceiro pan-atlântico, foi à boleia gozando em seu orçamento dessas temporárias benesses.

    Assim, quem fez da Rússia uma inimiga foram os usa-nato-ue. E a Rússia está a assumir convenientemente esse papel que foi obrigada a desempenhar. Entretanto, os ingleses também já se aperceberam que a sua estratégia asiática para compensar economicamente a saída da ue está seriamente comprometida.

    1. Tantas palavras ignorando o essencial. Ninguém quer ser aliado da Rússia porque esta não evoluiu da violência Comunista e Czarista. Todos à volta dela têm medo. Todos à volta dela na Europa foram ocupados pela União Soviética ou estiveram em guerra e perderam território para esta.

      1. O essencial é que todos aqueles que foram libertados dos alemãs pelos russos, com excepção dos polacos, com Waleza, e checoslovacos, que foram invadidos por 5 países do bloco de leste em 1968, nada fizeram para se libertar deles.
        E não escrevo sobre outros temas porque o momento não é adequado.

    2. Terminou o 1º. round das negociações Ucrânia-Rússia e ambas regressam ao destino para consultas. O próximo round será para a semana. Entretanto a frota russa faz manobras no norte-pacífico.
      Macron conversa com Putin. Creio que começam a surgir alguns sinais sólidos de que o equilíbrio poderá ser gerado.

    3. Este rato de sacristia não é uma pessoa boa e força ( ou impinge) os seus ensinamentos a todos com uma bestialidade intragável. Valha-nos Deus.

      1. Amorzinho, esta noite, quando vires alguém com batina vermelha e um garfo com 1,85m, sou eu e não o que costumas ver. Eu sou o patrão desses demónios todos.

  2. Muito bom JMG, não se podia ser mais claro, mesmo que apareça por aqui uma ventania um tanto ou quanto desnorteada. Greetings.

  3. Major General Carlos Blanco de Morais
    POR QUEM OS SINOS DOBRAM EM KIEV

    A compreensão dos acontecimentos presentemente em curso na Ucrânia exige um escrutínio dos factos, que vá para lá dos sound bites estridentes que confundem desinformação com informação, fazendo da verdade a primeira vítima da guerra, como uma vez alguém escreveu. De facto, estamos perante dois assuntos distintos, embora correlacionados: a proteção da população russa da Ucrânia, e a expansão da NATO para Leste, subsumindo-se o primeiro neste último.

    A explicação não se encontra em abordagens maniqueístas dos bons contra os maus, mas sim na geoestratégia, que tem influenciado de modo decisivo a política externa das grandes potências.

    Isso é bem visível no caso norte-americano. A política da contenção da União Soviética adotada por Washington, nos tempos da Guerra Fria, elaborada e desenvolvida por George Kennan, o arquiteto da estratégia americana para conter a União Soviética, fortemente inspirada nos trabalhos do geoestratega Nicholas Spykman, é um flagrante disso.

    Mais recentemente, Zbigniew Brzezinski, conselheiro nacional de segurança do presidente Jimmy Carter, avançou no seu livro “The Grand Chessboard” (1997), com a teoria dos pivôs geopolíticos, considerando a Ucrânia um desses pivôs.

    Segundo Brzezinski, a Ucrânia “é um pivô geopolítico porque sua existência como país independente ajuda a transformar a Rússia. Sem a Ucrânia, a Rússia deixa de ser um império euroasiático… se Moscovo recuperar o controlo da Ucrânia, a Rússia recupera imediatamente a capacidade de se tornar num estado imperial poderoso, abrangendo a Europa e a Ásia.”

    Este pensamento ajuda a compreender a tensão que se vive há, pelo menos, quinze anos naquele país. Falamos do confronto entre dois atores geoestratégicos de primeira grandeza: EUA e Rússia.

    AS MUDANÇAS DE PODER EM KIEV
    Foi este racional, que prevaleceu quando: (1) no culminar da “revolução laranja” (janeiro 2005), se instalou em Kiev um presidente pró-EUA (Viktor Yushchenko), “revolução” essa revertida pelo voto popular com a eleição de um presidente pró-Rússia (Viktor Yanokovitch), em 2010; (2) a Administração Bush impôs, em 2008, na Cimeira da NATO, em Bucareste, o convite à Ucrânia e à Geórgia para aderirem à Aliança; (3) Viktor Yanokovitch, um presidente democraticamente eleito, foi derrubado em 2014 através de um golpe de estado orquestrado por Washington, perpetrado por grupos paramilitares neonazis, colocando no poder grupos nacionalistas ucranianos anti-russos.
    (continua)

  4. (continuação)
    Não bastou ver em Kiev Victoria Nuland, Secretária de Estado Adjunta para os Assuntos Europeus e Eurasiáticos, conjuntamente com Geoffrey Pyatt, embaixador americano na Ucrânia, a distribuírem comida aos “revoltosos”, numa clara ingerência nos assuntos internos da Ucrânia.

    Também John McCain, senador e antigo candidato presidencial, esteve em Kiev a apoiar os revoltosos, fazendo-se fotografar ao lado de Oleh Tyahnybok, um dos cabecilhas do golpe, e líder do Svoboda, um partido de inspiração neonazi glorificador de Stefan Bandera e daqueles que combateram do lado de Hitler, que o Parlamento Europeu condenou formalmente por “racismo, antissemitismo e xenofobia”.

    O facto de Tyahnybok ter sido impedido de entrar nos EUA, em junho de 2013, por causa do seu antissemitismo público, não impediu que acabasse reciclado uns meses mais tarde em combatente pela liberdade.

    As credenciais democráticas do regime instaurado na Ucrânia, em 2014, deixam muito a desejar, ao ponto da insuspeita Freedom House classificar a Ucrânia como um país apenas “parcialmente livre”, a mesma classificação atribuída ao governo filipino chefiado por Rodrigo Duterte. A teoria dos inimigos dos meus inimigos serem meus amigos não tem dado bom resultado, como se verificou no Afeganistão com a Al Qaeda. Os resultados na Ucrânia não são promissores.

    O comportamento revanchista do novo governo (uma das primeiras medidas foi abolir a língua russa) provocou uma reação da população russa ucraniana muito semelhante à da população sérvia da Krajina. A solução política para a questão russa na Ucrânia, segundo os acordos de Minsk, passava por lhe conceder autonomia, no quadro da Ucrânia. Solução com que Kiev se comprometeu, mas nunca implementou. Ao invés, optou pela solução militar e cercou as forças rebeldes colocando unidades militares ao longo da linha de separação.

    A situação agudizou-se no final de 2021, com os preparativos das forças ucranianas para atacarem o Donbass, e resolver o conflito pela força. Entre outras medidas, as forças ucranianas deslocaram viaturas de limpeza de minas para a linha de contacto; cancelaram as férias dos militares; os comandantes receberam ordens para permanecerem nas suas posições de combate; etc.

    Procurando iludir a vigilância dos observadores da Missão Especial de Monitorização (MEM) da OSCE, instalada ao longo da linha de separação, deslocaram armamento pesado não autorizado para o Donbass. Recorreram à guerra eletrónica para anular a operação dos drones da MEM, de modo a ocultar a instalação de armas proibidas pelos acordos de Minsk, nas proximidades da linha de confrontação.
    (continua)

  5. (continuação)
    O objetivo das forças russas dispostas ao longo da fronteira com a Ucrânia é impedir a chacina da população russa ucraniana, caso as forças ucranianas cruzem a linha de confrontação, o que a acontecer provocará uma reação militar russa imediata.

    O ALARGAMENTO DA NATO
    Sobre o alargamento da NATO confrontam-se duas posições divergentes.

    Por um lado, a da Rússia que recorre aos princípios da OSCE argumentando que o reforço da segurança de uma nação não pode ser obtido à custa da segurança de outra nação, uma alusão direta à possível entrada da Ucrânia e da Geórgia na NATO, e ao seu alargamento a Leste, procurando impedir a instalação nesses países de unidades militares e armamento; por outro, a da NATO que defende uma política de porta aberta, argumentando que um Estado não pode impor a outro Estado opções de política externa, neste caso particular vetar a adesão de um país a uma organização regional.

    A oposição da Rússia ao alargamento da NATO tem sido erradamente atribuída ao espírito maléfico de Putin. Contudo, trata-se de um problema securitário existencial, vital para a Rússia, que extravasa o poder de quem, num dado momento, se senta no Kremlin.

    Convém recordar as posições sobre a matéria, dos liberais russos nos idos anos 90. Andrei Kozyrev, então ministro dos Negócios Estrangeiros, um dos dirigentes russos mais liberal e pró-ocidental que a Rússia alguma vez teve, alertou para o perigo do Ocidente continuar a atacar os interesses vitais da Rússia e ignorar os seus protestos. Um dia haveria uma reação perigosa.

    Dirigentes e analistas políticos russos – incluindo reformistas liberais – têm vindo ao longo dos anos a avisar, que tornar a Ucrânia ou a Geórgia clientes securitários dos EUA ou membros da NATO seria cruzar uma linha vermelha, de que resultaria um perigo de guerra. Essas advertências foram ecoadas por George Kennan, Henry Kissinger e outros estadistas americanos.

    Embora os Estados sejam todos iguais, as grandes potências são mais iguais do que os outros Estados. A Rússia não está interessada exatamente numa esfera de influência, mas na criação de uma zona de segurança ao seu redor. O que tem sido dito sobre a intenção russa de refazer o antigo império soviético não passa de desconhecimento. Os temores russos sobre a expansão da NATO até à sua fronteira deviam ser compreensíveis para qualquer americano que tenha ouvido falar da Doutrina Monroe
    (continua)

  6. (continuação)
    AS PROPOSTAS RUSSAS
    Com o objetivo de encontrar soluções para a crise, a Rússia apresentou dois projetos de tratados, um a Washington e outro à NATO. O primeiro, sobre um Pacto de Paz entre a Rússia e os EUA; e o segundo, sobre um pacto com a NATO.

    Baseando-se no igual direito à segurança para todas as nações, e nos princípios da Carta das Nações Unidas, que proíbem a ameaça ou o uso da força, Moscovo propôs a Washington o abandono da expansão da NATO para Leste, nomeadamente a adesão de Estados que tivessem integrado a extinta União Soviética, e a retirada de tropas da Aliança dos países que pertenceram ao antigo bloco soviético. Os EUA e a Rússia não usariam aviões e navios equipados com armamento nuclear, em regiões de onde se pudessem atacar mutuamente; e informariam sobre os movimentos dos seus sistemas de lançamento de armas nucleares.

    De igual modo, a Rússia e os EUA comprometer-se-iam a não utilizar mísseis de curto e médio alcance e armas nucleares, fora dos seus territórios nacionais, nem em áreas dos seus territórios nacionais, a partir dos quais essas armas pudessem atingir o território da outra parte. Isto aplica-se à instalação dos sistemas Aegis na Polónia e na Roménia, colocando Moscovo e São Petersburgo no seu alcance.

    Relativamente à NATO, a Rússia propôs um tratado de segurança, no qual as partes não se considerassem adversárias ou inimigas e, como tal, se consultassem regularmente sobre questões de segurança e informassem mutuamente da realização de exercícios e manobras militares. O dispositivo de forças militares devia limitar-se ao que estava em vigor à data de 27 de maio de 1997. As partes comprometer-se-iam a não colocar mísseis de curto e médio alcance em zonas que lhes permitissem atingir o território da outra parte. E a NATO cessaria o seu programa de alargamento para Leste.

    Tanto os EUA como a NATO mantiveram-se inflexíveis perante as propostas russas, continuando determinados em prosseguir a política de “porta aberta”, rejeitando a possibilidade de retirar da agenda a adesão da Ucrânia à Aliança. A possibilidade de regressar ao statu quo de 1997 foi considerada não negociável. Provavelmente, esquecendo o que tem sido a política externa de Washington nos últimos 200 anos, o secretário de Estado Antony Blinken afirmou que “um país [leia-se a Rússia] não tem o direito de ditar as políticas de outro país ou de lhe dizer com quem pode associar-se; um país não tem o direito de exercer uma esfera de influência. Essa noção deve ser relegada para o caixote do lixo da história.”
    (continua)

  7. (continuação)
    MAS QUE GUERRA?
    Entre outras medidas, a Administração Biden decidiu colocar 8.500 soldados em alerta e reforçar o dispositivo da NATO no Báltico, um exercício desnecessário por não dissuadir qualquer ação militar na Ucrânia, e por a Rússia não tencionar atacar países da NATO. Por outro lado, tanto os EUA como a NATO deixaram claro que não tencionam envolver-se militarmente caso deflagre a guerra russo-ucraniana. A ajuda a Kiev “limita-se” ao envio de equipamento e conselheiros militares, forças de operações especiais e mercenários da Academi (antiga blackwater). A isto somam-se conselheiros do Reino Unido, Canadá, Lituânia e Polónia.

    Uma possível operação militar russa não visa ocupar a Ucrânia. Washington está ciente que uma ação militar de Moscovo na Ucrânia se limitará ao Donbass, e apenas se as forças ucranianas cruzarem a linha que as separa dos rebeldes. Entre outros motivos, porque não tem recursos para tal, nem faz politicamente sentido. A ideia de Moscovo colocar um governo fantoche em Kiev, ou a despropositada e desnecessária retirada de pessoal das embaixadas americanas e inglesas, não passa de uma operação de desinformação semelhante à que antecedeu a invasão do Iraque.

    O comportamento da Administração Biden leva-nos a crer que o seu objetivo é criar um pretexto, não para retaliar militarmente mas para impor pesadas sanções económicas à Rússia, uma delas excluí-la do sistema Swift, e assim bani-la da economia global. Esta conduta insere-se numa linha de pensamento, que defende a possibilidade de os EUA travarem uma guerra convencional vitoriosa com a Rússia e a China, sem que esta escale para o patamar nuclear, assumindo que conseguem controlar todas as variáveis do problema.

    Em vez de promover uma guerra por procuração para atingir a Rússia, os EUA deveriam procurar reforçar as relações bilaterais entre os dois países, recuperar das cinzas o Tratado sobre Forças Armadas Convencionais na Europa (CFE), energizar o Documento de Viena, regressar ao Tratado dos Céus Abertos e recuperar o Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermédio.

    (Texto lido algures há mais de uma semana.)

    1. Podem Cuba ou a Venezuela aumentar o seu poderio militar para se defender dum eventual ataque de tropas americanas?
      É que agora vai ser uma roda viva de ataques aos “aliados” os russos.
      Por cá já temos ataques a sedes o PCP, em Beja !!!, só porque o sportinguista Oliveira baralhou NATO, Ucrânia, Putin.
      E assim, mais uma vez, cá temos o petróleo em alta.

      1. O que a Rússia está a fazer com a Ucrânia é o que os Estados Unidos fazem com meio mundo. Abaixo o imperialismo russo! Abaixo o imperialismo americano!

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