Falar claro – e muito bem


Pedro Correia,

 «Não aceitamos que qualquer Estado, seja ele qual for, se arrogue o poder de veto sobre um Estado terceiro. Não aceitamos que no século XXI ainda se queira conceber as relações entre as nações não na base do direito internacional laboriosamente construído desde o fim da II Guerra Mundial, mas na base de obsoletas, arcaicas e ilegítimas esferas de influência. Portanto, toda a disponibilidade para considerar as questões de segurança reciprocamente, nenhuma disponibilidade para aceitar a chantagem, para aceitar a intimidação, para aceitar a ameaça ou para aceitar os vetos.»

 

«A Rússia anunciou várias vezes, ao longo da semana passada, que estava a reduzir as suas forças militares estacionadas junto da fronteira, a leste e a norte da Ucrânia, e na prática estava a aumentá-las. O presidente russo comprometeu-se com o presidente em exercício do Conselho da União Europeia em trabalhar para o cessar-fogo um dia antes de cometer o acto ilegal, ilegítimo, incendiário de reconhecer as “repúblicas” fantoches de Lugansk e Donetsk. O que obtivemos foi a duplicidade. E à duplicidade a Rússia adicionou a agressão, porque é isso que está hoje em curso: uma agressão. Um acto armado de agressão ilegal, ilegítima, imoral – de acordo com qualquer princípio de direito ou de moral ou de ética no relacionamento entre Estados.»

 

«Nós não estamos apenas e sobretudo perante uma crise de relacionamento entre a Rússia e a Ucrânia ou entre a Ucrânia e a Rússia. Estamos perante a mais grave crise de segurança por que a Europa passou e está a passar desde o fim da II Guerra Mundial. Por isso nós todos, europeus, nós todos, democratas, nós todos, amantes da paz, nós todos, que queremos que os conflitos se resolvam de forma pacífica, temos de dizer: Sim, hoje somos todos ucranianos.»

 

Augusto Santos Silva, esta tarde, na Assembleia da República

9 comentários em “Falar claro – e muito bem”

  1. A Miss Universo poderia aliviar a vista noutra escala, mas não diria melhor.
    Em 1939 a Inglaterra declarou guerra por uma situação não muito diferente, mas isso foi antes da dissuasão da Nuke bomb.
    O nível de isolamento internacional efectivo que a Russia pode sofrer depende da China, mas o melhor é não contar com Xi Ji Ping para esse efeito.

  2. QUAL ERA A PRESSA
    Cabe perguntar se ninguém previu que Putin, tal como o descrevem, não poderia sentir-se ameaçado e encurralado perante o concluir de um cordão com a adesão da Ucrânia à Nato.
    Seria assim tão difícil deixar para já em banho-maria essa possibilidade explicando que essa ação nas circunstancias em presença poderia despoletar uma guerra de consequências mundiais imprevisíveis com um numero de vitimas mortais avassalador?
    Ninguém pensou que no imediato melhor seria deixar o monstro adormecido?
    Tudo contra Putin, que acabou por ter da parte dos que agora tanto gritam um maléfico e estupido aliado.

  3. A Rússia está a minar a Europa há muitos anos, desde as teorias de disseminação social dos anos 50 e 60 —e das qual o ensino público português é um herdeiro voluntário— até aos ataques cibernéticos continuados desde o início do século, e com certeza muitas outras coisas das quais nós nem sabemos.

    O que nunca se percebeu realmente foi a acrimónia russa (ou de uma parte dos russos) com a Europa e os valores ocidentais, como se não fizessem parte disso. O Bloco soviético não explica tudo.

    1. “A Rússia está a minar a Europa há muitos anos, desde as teorias de disseminação social dos anos 50 e 60 —e das qual o ensino público português é um herdeiro voluntário—”

      Isso não vem da Rússia, vem dos neo-marxistas do lado de cá. Nasceu nas universidades do Ocidente.

  4. Os sociais-fascistas quando não têm nada para fazer escrevem poemas e depois fazem discursos em torno da obra.

    Augusto Santos Silva esquece que esse laborioso direito internacional produzido após a II guerra foi legitimamente quebrado pelos americanos na crise dos misseis de cuba, e ilegitimamente por americanos, ingleses e franceses na invasão do Iraque e do Afeganistão e no apoio indirecto dado ao Isis para que pudesse laboriosamente varrer do mapa a Síria.

    Como este país é governado por procuradores dos sistema financeiro alemão e francês sediados em Bruxelas, não me estranha que Augusto Santos Silva se ocupe a declamar poemas e o presidente a ir para a praia. As esmolas que todos recebemos de Bruxelas através dos credores tornou-nos não só preguiçosos a pensar como também poetas.

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