O meu voto


Paulo Sousa,

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Foi com o pensamento da semana, há algum tempo atrás aqui partilhado pelo José Meireles Graça, alojado na mente, que dei por mim a questionar o meu voto, que como aqui confessei, planeava ser destinado ao PSD.

De facto, o nosso voto não conta para nada. É uma ínfima gota dentro de um imenso oceano de que a sua ausência ninguém notará. Mas a democracia, esta maravilhosa máquina que tornou obsoleto o uso da força na rotação do elenco no poder, é frágil e por isso tem de ser estimada. Tal como uma planta necessita de água, a frágil democracia é alimentada com a nossa humildade.

O meu voto no PSD seria um acto de frieza, um voto apenas táctico contra a actual situação e alimentado com o receio de que se pudesse perder por força do método de Hondt. Olhando para o número de 10 deputados atribuído ao círculo eleitoral de Leiria e para os resultados das Legislativas de 2019, o terceiro partido foi o BE que com 20.925 votos elegeu um deputado. Acontece que o último dos 10 mandatos foi conseguido com apenas 14.992 votos. E estes quase 6.000 votos fazem uma grande diferença.

Olhando para a dispersão de votos do círculo de Leiria nas legislativas, o PSD e o PS ficam regularmente com 5 e 4 mandatos, ou 4 e 5, e é o terceiro partido que fica com o restante. Este terceiro partido foi o CDS durante alguns anos e mais recentemente o BE.

Ora no próximo dia 30 este duelo dos mais pequenos será disputado entre o Chega e a IL, podendo até repetir-se um cenário parecido com o de 2009 em que o PSD e o PS tiveram 4 mandatos cada, a que se juntaram um do CDS e outro do BE.

Assim, olhando para o que a IL com o seu deputado único conseguiu fazer no nosso Parlamento, pelos temas que trouxe ao debate político e que claramente condicionaram o discurso dos todos os demais partidos, por ter mostrado aos portugueses que existe uma alternativa ao marasmo económico e ao brutal endividamento que o PS, que governou em 19 dos últimos 26 anos, nos colocou, este jovem partido mereceria sempre o meu apoio. Mas para além disso vi também a incrível dinâmica que a campanha da IL, liderada pelo Dário Florindo, colocou no terreno, e ciente da mobilização que os seus apoiantes tem conseguido entre eleitores mais jovens, achei que era mesmo a eles que deveria entregar o voto. É apenas um. Entrego-o com humildade, mas com convicção.

45 comentários em “O meu voto”

  1. no próximo dia 30 este duelo dos mais pequenos será disputado entre o Chega e a IL

    !!! Será entre o Chega e o BE a nível nacional. No distrito de Leiria não sei, mas suponho que também será. A IL tem uma probabilidade ínfima, diria eu, de ser a 3ª ou 4ª força política.

  2. Se o Paulo Sousa vota em termos de voto útil – e eu nunca voto nesses termos! – parece-me disparatado votar na IL. Porque é praticamente impensável que a IL possa no distrito de Leiria alcançar os 9% de votos necessários para eleger um deputado.
    Saúdo, porém, como correta a decisão do Paulo Sousa de votar no partido que ele prefere, e que de facto coincide com o partido que eu prefiro.

      1. Isso é um efeito do método de Hondt. É preciso muito mais votos para uma pequena força política eleger o seu primeiro deputado do que para uma grande força política eleger o seu n-ésimo deputado. O método de Hondt faz com que seja preciso cada vez menos votos para eleger cada deputado a mais.

  3. Fazes bem, Paulo. O nosso voto deve ser fruto da convicção, antes de qualquer outro considerando.
    Nas duas sondagens que me chegaram entre ontem e hoje, para o distrito de Leiria, uma atribui 4 mandatos ao PS e 6 ao PSD. A outra prevê 4 para o PS, 5 para o PSD e 1 para o Chega.
    Mas, como dizia o tal pensador emérito, as sondagens valem o que valem.

    1. O nosso voto deve ser fruto da convicção, antes de qualquer outro considerando.

      Estou plenamente de acordo.

      uma atribui 4 mandatos ao PS e 6 ao PSD. A outra prevê 4 para o PS, 5 para o PSD e 1 para o Chega.

      Ambas as sondagens me parecem bastante realistas.

      1. “Estou plenamente de acordo.”
        Eu estou plenamente em desacordo. Devemos ter em conta a situação, o método que se adopta para eleger deputados, as nossas convicções e …. depois votar de acordo com o que achamos ser o que mais nos vai aproximar daquilo que são as nossas convicções.
        Ir directo ás nossas convicções pode afastar-nos delas. Em termos futebolísticos: não se deve sempre chutar para a frente, por vezes para chegar ao golo tem de se chutar para trás.

          1. Nem sempre.
            Imaginemos um defesa central que está de costas para a sua baliza, um avançado remata a bola bate na testa desse defesa e vai para a dentro da baliza do tal defesa; auto golo sem chuto para trás.

        1. Eu ao longo da minha já longa vida habituei-me a discordar frontalmente da maior parte dos partidos, e certamente dos principais partidos. Por isso, votei quase sempre em partidos que não elegeram deputados. Nunca pensei que houvesse sequer a mínima possibilidade de “marcar um golo” com o meu voto. Sempre que votei num partido que elegeu deputados, senti-me em breve duramente atraiçoado por ele. Por isso, é como digo: voto sempre de acordo com as minhas convicções. Nunca voto útil.

    2. Sim Pedro,
      Existe ainda o receio de se ser infectado nas mesas de voto. Teoricamente isto terá mais peso nos eleitores mais velhos e por reforçar o peso do eleitorado dos mais jovem, acaba por favorecer a mudança.
      As sondagens nunca foram tão incertas e basta ver as diferenças entre as que são divulgadas no mesmo dia para ver isso. Como diz um outro pensador, se não for o mesmo, as sondagens que contam, são as do próximo domingo.

      1. Sim, Paulo. Estou convencido de que vai haver imensa abstenção. O que penaliza, em princípio, o partido do governo e favorece a mudança pois os eleitores mais idosos e de voto mais imobilista tendem a sair menos para votar. Não esqueçamos que Portugal tem hoje o quinto maior surto mundial de infecções por covid-19 e o quarto maior da Europa.

      2. Paulo, de acordo com a sondagem que o Pedro Correia refere ao voltares IL em Leiria podes estar a “tirar” um deputado ao PSD e a “dá-lo” ao Chega, vale o que vale, obviamente.

      3. A minha mãe não vota há mais de dez anos. Vai votar no Domingo no PSD.
        É um voto que vale o que vale. Mas penso que mostra que há algumas pessoas percebem o que está em causa nestas eleições.

        1. Sim Susana,
          Há muito que o resultado eleitoral não era tão incerto e o que está em causa é a direcção que o país vai tomar nos próximos anos.
          O voto da sua mãe, não vale apenas o que vale, pois sendo dela é o voto que vale. A democracia depende da nossa capacidade de ser humildes.

  4. As sondagens já fizeram o seu trabalho, 1º PS perto da maioria, depois PSD na frente e agora PS no topo novamente. No final podem sempre afirmar que acertaram, um pouco como António Costa, que tão depressa diz uma coisa, como a seguir o seu contrário.

  5. Concordo em absoluto com o seu último parágrafo Paulo. Acho que há uma leveza de espírito associada ao voto por convicção. Serve, no mínimo, para premiar o desempenho dos nosso candidatos preferidos. 🙂
    Dito isto, o Rui Rio não se está a sair nada mal (as minhas expectativas eram baixas, confesso). Rio tem resistido à campanha suja do desprezível António Costa com presença de espírito e dignidade.

    1. Rui Rio é tão genuíno que se põe demasiadas vezes a jeito. O António Costa é um tudo-pelo-poder-e-pelo-poder-tu de tal ordem que é capaz de dizer tudo e do seu contrário. O objectivo que o PS lhe impõe a isso exige.

        1. “Tio porreiro” não é uma fasquia modesta.
          Por ambicionar que os meus sobrinhos achem isso de mim, tento afincadamente abalar-lhes as convicções. Espero não exagerar.

  6. Aqui está a pergunta de um milhão (de votos)
    Voto no distrito de Setúbal
    Por convicção voto IL
    E se o meu voto fizer falta para o PSD eleger mais um deputado?
    “Acho” que pela primeira vez vou usar o dia de reflexão

    1. voto em Lisboa mas resido parcialmente no distrito de Setúbal. Ainda hoje estive a ver os resultados de 19 aqui e a discuti-los com eleitores locais. Claro que há sempre a hipótese do voto útil, se as pessoas o entendem. Mas é possível, face às sondagens (sempre algo relativas, sabemos), que os partidos mais pequenos (como a IL) elegem um deputado em Setúbal.

  7. as bestas que montei não precisavam de assobios para beber ‘auga’
    agora estou entregue a outras, mas não são minhas

    Qualquer um pode fazê-lo impunemente para ser rei
    Sallustio, Guerra Giugurtina, cap. 31

  8. Voto no circulo de Lisboa por isso o meu voto na IL fica bem entregue. Não acredito que Costa se vá embora caso tenha uma votação abaixo do PSD e mantenha uma maioria de esquerda.

      1. Eu sou dos que acredita mesmo que Pedro Nuno Santos irá assumir os comandos lá para o Verão, quando Costa PM zarpar para Bruxelas. Repare que a mudança já foi legitimada nesta campanha e teve o precedente anterior com Santana Lopes.

        1. Numa abordagem cínica e tendo em conta os problemas económicos que se avizinham, o ónus da governação (cortes impostos por Bruxelas) deveria caber ao PS. A confirmar-se o que diz, será o PNS a ter de arcar com isso. Num país que não fosse o meu, até teria a sua graça.

  9. “É uma ínfima gota dentro de um imenso oceano de que a sua ausência ninguém notará….”.
    Ora aí está mais uma circuntância preversa do actual sistema eleitoral.
    Num sistema uninominal o Sr. D. Florindo teria o seu voto e teria a possiblidade de ser o seu representante na AR. E Paulo Sousa poderia fiscalizá-lo, como é de seu direito, pois deu-lhe o seu voto.

    No sistema eleitoral actual realmente para quê votar, se os futuros deputados serão tão somente os representantes de um longínquo, não fiscalizável, qualquer chefe de uma qualquer facção, de um qualquer partido, no poder.
    Metade do eleitorado já percebeu. O resto tem a sua dieta de lentilhas assegurada.

    1. Existe uma proposta da SEDES para uma revisão do sistema eleitoral que poderia responder ao problema que descreve. Vamos ver se há condições para tocar nisso.

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