Diário (Pré-Eleitoral)


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[Postal em registo de diário não intimista, para quem ainda me ature. Que leva uma modesta dedicatória à memória de Pierre Bourdieu, bem importante na minha formação e que morreu há 20 anos, exactamente cumpridos há 4 dias]

 

O meu ontem foi de “actividades culturais”, nas quais se poderão reconhecer as minhas “disposições” (aquilo do celebrizado “habitus”) mas também encontrar opções político-ideológicas, estas mais relevantes de sublinhar em período pré-eleitoral. E aqui as descreverei pois sei que tenho alguns amigos, e decerto que vários “amigos”-FB, que me consideram um pernicioso direitista, vinculado a prejudicar os compatriotas explorados (“desfavorecidos”, como dizem os eunucos), os trabalhadores (“colaboradores”, dizem os outros direitalhas e… tantos outros ainda que pejados de tiques linguísticos de “género”), aqueles que estão no sopé da “escadaria” social (como ilustram os reaccionários). E quero alijá-los de quaisquer dúvidas sobre essa minha malevolência que ainda os possam atormentar. 

 

À alvorada fui abastecer-me a um mercado municipal, em demanda de víveres frescos. Assim numa postura iliberal, pois aceitando a tutela estatal sobre o comércio. E até (verdadeiramente) socialista, pois eximindo-me ao verdadeiro oligopólio das “grandes superfícies” – as quais, de facto, tendem a constituir-se em monopsónios face a sectores dos produtores nacionais. Almocei um magnífico arroz de choco com a sua tinta, de confecção caseira, opção gastronómica evidenciando um conservadorismo cultural que raia o nacionalismo mais exaltado.

 

 

À noite vi o Sporting-Santa Clara, atenção futebolística demonstrativa do meu vínculo ao obscurantismo, à alienação do povo, típico da minha adesão às forças políticas mais conservadoras e avessas aos interesses populares. Depois assisti a um precioso documentário sobre Ingmar Bergman, transmitido anteontem (25.1) na RTP2 e disponível na RTP Toca (dita Play, na grafia do socialista-“lusófono” Acordo Ortográfico de 1990), mais uma opção iliberal patente no consumo de uma programação estatal, pejada que está esta de “marxismo cultural” – apesar das características peculiares do tal Bergman. Muito recomendo a quem se possa interessar que o veja, bem como aproveito para recordar aos que podem aceder ao canal privado HBO que neste está disponível um punhado de filmes deste mestre. Estou consciente que estas referências me aproximam de uma postura pedagógica, em tempos própria de uma esquerda fabiana, até mesmo depois transformada em social-democrata.

 

Finalmente, recolhi ao leito onde reli alguns trechos – até devido à memória do belo almoço havido – do “Un homme dans sa cuisine”, um delicioso auto-retrato enquanto cozinheiro de Julian Barnes, minha apetência que evidentemente refracta a minha condição de género, homem branco heterossexual e pequeno-burguês (ainda que empobrecido). E depois continuei a minha releitura de “Nónumar”, um mimoso livro – muito dedicado ao Ibo – do poeta moçambicano Júlio Carrilho, que há pouco morreu. Opção que decerto demonstra a minha costela neo-colonial, nesta atenção dedicada a uma antiga parcela do Império português, e até, quiçá, uma “nostalgia colonial” epistemologicamente poluente.

 

Tentei então dormir. Mas estava insone, porventura devido à excitação futeboleira. Ou talvez a algum excesso comensal cometido. E fui até ao Facebook, deparando-me com imensas proclamações políticas entre os meus “amigos-FB”, alguns reais, a maioria apenas virtuais. Nisso me demonstrando um eleitor fragilizado, produto das campanhas de desinformação que grassam nestas redes sociais, desprotegido da mediação correcta, exercida pelos jornalistas e comentadores avalizados (“anunciados na tv”), e assim propenso a opções direitistas.

 

Muitos falam da (política de) Saúde. É normal que após dois anos desta monumental pandemia, e do monopólio de atenção que esta congregou, este tema seja dominante. É normal, mas não é saudável. Pois escasseiam os debates e as reflexões (para além do “achismo” avulso) sobre os “modelos” (eu prefiro dizer “estratégias”) de desenvolvimento deste país estrafegado, pela gigantesca dívida, pela estrutura económica, pela composição demográfica, etc. E assim a política de Saúde torna-se qual um Grand Canyon ideológico, com imensa gente a clamar contra os que querem “privatizar” a Saúde, alguns mesmo falando dos defensores dos “barões da medicina” (imagem literária de antanho), nisso “demonizando” (de facto criminalizando) uma “direita” de pulsões assassinas, até gerontófobas.

 

E assim, já noite longa, lá li mais alguns e algumas clamando contra a maldita direita que quer privatizar a Saúde, invectivando os defensores do “apetecível negócio” que esta é. O que é engraçado é que eu os conheço, pessoalmente. Sei que são quarentões, cinquentões e até sexagenários, sendo há décadas professores de universidades públicas. Ou seja, têm ADSE. Vivem, e fruem, como os grandes financiadores da medicina privada, dos convénios público-privados nesta área. E nunca, mas mesmo nunca, aludem a isso quando saem a terreiro clamando, a teclas juntas e voz exaltada, contra os “liberais”, sabujos dos interesses privados na Saúde.

 

Foi então que, já cabeceando sonolento, me lembrei da velha frase de Pierre Bourdieu sobre os cientistas sociais: “os sociólogos têm a tendência de serem sociólogos dos outros e ideólogos deles mesmo”. E assim, com a sageza que me é própria, produto das minhas vastas leituras, proferi dois ou três peludos palavrões dedicados a estes “sociólogos” no Facebook. E adormeci, no sono dos injustos (de direita).

 

Hoje, ao acordar, e enquanto sacudia as remelas, ocorreu-me a dúvida: quando (ou se) um dia reencontrar algum destes “democratas” devo dizer-lhes de viva-voz o palavrão que resume o que deles penso? Ou deverei sorrir, alegrando-me num “há quanto tempo, como tens passado?” Sendo assim um hipócrita filhodaputa tal e qual eles o são. No seu quotidiano opinativo. Mas já me conheço, dependerá do dia. E, acima de tudo, se se trata de uma bela amiga ou de um destes emplastros armados em parvo – opção beligerante que, mais uma vez, refracta o machismo estrutural deste tal homem, heterossexual, branco e pequeno-burguês. E que nessa horrível condição segue carregadinho de desprezo por estes hipócritas.

 

12 comentários em “Diário (Pré-Eleitoral)”

  1. Só gostava de saber como é que um homem, heterossexual, branco, pequeno burguês e reaccionário chegou à meia idade rodeado de emplastros armados em parvo e hipócritas.
    O que é que falhou?

    1. Que pergunta desnecessária. É evidente que falhou o homem, como é óbvio. Há algumas razões secundárias, claro, como o percurso biográfico, que conduziu a conhecer bastante gente com as quais se mantém contacto via redes sociais e blogs, sublinhado pela apetência pela leitura (também enquanto observador) nessas plataformas – eu até sou um bloguista que responde aos comentadores, quantos deles verdadeiros emplastros armados em parvos anónimos, como por vezes aqui resmungo.

  2. AO 1990, socialista “lusófono”? O que é que isto quer dizer, sabendo-se que o mesmo foi aprovado por ps, psd, cds, be e com os votos contra do PCP.

    1. Explica-se, mas com uma obrigação inicial, a de sair do pensamentozinho bacoco agarrado aos partidozinhos e metendo a mão na anca, na prosápia da sabedoria própria. Ou, por outras mais pacientes palavras, perceber as causas intelectuais e políticas desta patetice que foi e é o AO90: o ideal de uma “comunidade linguística” que fosse também de “interesses” e que se constituísse como uma comunidade de cariz geopolítico foi lançado pela elite administrativa do Estado Novo tardio, ainda sob Salazar, antevendo um horizonte de independências africanas (a retardar o tempo necessário para a emergência de “elites adequadas” [aspas mas a expressão é minha] nesses territórios). Alguns (poucos) anos após as independências africanas esse ideário foi retomando alguma proeminência, e veio a sistematizar-se ainda nos anos 1980s sob a denominação de uma “lusofonia”, esta tida como um ambiente convivencial cultural que seria sedimento de uma “comunidade lusófona”, que seria preexistente dada a plácida peculiaridade da colonização portuguesa mas que seria também algo a requerer uma acção sua promotora.

      Os seus iniciais locutores, que tinham relações privilegiadas de influência nos poderes políticos portugueses, eram de dois tipos mas com grandes similitudes geracionais, sociais e ideológicas: opositores ao regime de ditadura militar brasileira, que ansiavam pela influência da democratização portuguesa no seu país, e núcleos de uma intelectualidade ligada ao PS, antigos oposocionistas ao Estado Novo que haviam sido ao longo de décadas os verdadeiros herdeiros ideológicos do partido Democrático da I República (do qual o nosso PS será o efectivo herdeiro, apesar das evidentes diferenças históricas). Estes dois grupos partilhavam ideários políticos, eram da mesma geração, e em muitos casos relações pessoais / corporativas. E é dessa junção, desse pequeno grupo, que emanou o propósito (julgo que desde finais de 1970s), e os próprios agentes, de proceder uma homogeneização gráfica que entendiam necessária para sedimentar a influência do português como língua cimento dessa comunidade internacional e ideológica, a tal “lusofonia”. Ou seja, a “comunidade lusófona” salazarista teve um aggiornamento nesta “lusofonia” de inspiração socialista, e recorreu-se ao tal mirífico acordismo como se este viesse a ser motor da perenidade das influências político-culturais, fundamentalmente a exercer sobre os novos países então constituídos.

      Depois veio o projecto, que foi assumido como “nacional”, de constituir a CPLP e nesse fito foi aceite, muito por inércia social e por seguidismo das elites intelectuais face aos poderes fácticos, o AO90 (daí a estuporada votação parlamentar e a recusa dos políticos em recuarem neste trambolho – como é evidente neste nosso presidente da república).

      Ao longo dos anos fartei-me de botar contra isto no meu blog inicial e também na imprensa moçambicana. País no qual, já agora, este trambolho ortográfico vem sendo desprezado. Caso queira ler algo que eu tenha botado deixo este exemplo: https://ma-schamba.blogs.sapo.pt/1393102.html Ou então fique a defender o PS, que é que tantas vezes acontece em muitos dos que protestam com o estuporado acordo, clamando saudades por alguns hífens e consoantes (não)mudas mas incapazes de perceberem porque raio esta patetice foi levada a cabo.

  3. O post reúne vários temas encabeçado pelo cartaz sobre Bergman.

    Afinal gostou do documentário que esclarece finalmente (aos admiradores do sul europeu) a causa do ostracismo a que foi votado o cineasta na sua terra?

    1. O texto responde à sua pergunta sobre o documentário. Já agora o que este demonstra é bem o contrário de um ostracismo sueco ao realizador.

      1. Ignoro como foi a comemoração do centenário do nascimento de Bergman, mas houve vozes que salientaram as superiores evocações fora da Suécia – inclusive em termos de oportunas retrospetivas fílmicas -, que tal era previsível, acrescentando verrina que não interessa agora.
        Houve um episódio narrado no documentário, a partir do qual as atitudes do artista foram sobranceiras e depois o vexame sobre um promissor ator-encenador em véspera de estreia importante.

  4. A ADSE é o regime a gozar consigo próprio. Existe para ajudar os funcionários públicos a fugir ao SNS.
    Mas como todos ganham pois afinal o Socialismo à Portuguesa quando nasce só sobrevive se for para todos, inclusive os malvados Capitalistas. Reforçando, por cá até os Comunistas dizem que gostam dos Capitalistas se forem pequenos, embora não eles próprios que são uns dos grandes proprietários no país…

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