Para além das aparências


Pedro Correia,

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Os mecanismos interiores da ambição política e os seus reflexos na esfera privada constituem elementos em evidência nesta singular incursão de Agustina Bessa-Luís pela biografia ficcionada de um líder partidário, José Matildes, que cruza os anos finais do Estado Novo para desembocar no pós-25 de Abril como uma das personalidades de maior sucesso. «O país estava preparado para o receber, o seu fundo messiânico encontrava um terreno propício porque, entretanto, o código da revolução se tinha revelado deficiente na sua simbolização afectiva.»

Na sua peculiar prosa romanesca, sempre adornada de aforismos, a autora d’A Sibila parece menos interessada em dissecar ideologias do que em analisar perfis psicológicos enquadrados numa atmosfera social. Os Meninos de Ouro desta obra, distinguida em 1984 com o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, são Matildes e o seu mentor intelectual, «um escritor chamado Francisco Farinha, ou Farina»: ambos vivem breves dias de apogeu, cada qual à sua escala, antes do fim prematuro a que parecem estar condenados pela força imparável do destino. Personagens inspiradas em Francisco Sá Carneiro e Ruben A. Leitão, como Agustina nunca escondeu, sujeitando este romance a um especial escrutínio crítico, já que o retrato do protagonista – um homem «capaz de viver dramaticamente» e fadado para «intervenções altivas e verrinosas» – está longe de ser lisonjeiro. Mesmo «convertido à imortalidade» depois de morto.

A habilidade da escritora nesta controversa narrativa é pôr em contraste a rota de êxito público de José Matildes com o malogro dos seus vínculos familiares. Uma dupla dimensão, percorrida em linhas paralelas, que a terá fascinado: «Se as palavras podem curar as loucuras de um povo, só a violência pode vencer a loucura de um príncipe.»

No fundo, acaba por preencher uma lacuna: esquecemo-nos demasiadas vezes de que um político é um ser tão frágil como qualquer de nós.

4 comentários em “Para além das aparências”

  1. Ou seja (se eu interpreto bem): Agustina Bessa-Luís, pessoa conservadora, faz um retrato negativamente crítico (“longe de ser lisonjeiro”) de Francisco Sá Carneiro, devido à sua terminada relação com a esposa (“o malogro dos seus vínculos familiares”), a quem traiu em favor de Snu Abecassis. Bessa-Luís aprecia o triunfo político de Sá Carneiro, porém não lhe perdoa a quebra da moral católica.

  2. “esquecemo-nos demasiadas vezes de que um político é um ser tão frágil como qualquer de nós.”
    Esta é uma afirmação deveras católica mas pouco cristã. É-o na medida em que o homem sendo a causa de seus limites é também aquele que os pode superar. Sob um ponto de vista cristão – isto é, não católico, não protestante e não evangélico -, o renascimento do ser ocorre pela análise de si mesmo e, por consequência, o sentimento de misericórdia que ocorre em tal processo, isto é, da consciência da miséria que também habita o outro, transfigura-o.

    Por outro lado, a vaidade e a soberba são causas não naturais, por humanas, e que contrariam o denominado estado de graça, isto é, da manifestação da Glória que glorifica, que transforma. De outra forma, a expressão desta natureza contra-natura expressa-se ainda nos mecanismos que o homem cria para a evidenciar. E aqui entra a ciência e os pseudo-cientistas: a ciência não é e não será capaz de criar a verdade, somente dela se apercebe. Significa isto que a constante mentira que o homem celebra torna-o incapaz de se ver e, ainda pior, de se aperceber.

    Deixemo-nos de merdas e cresçamos.

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