É um disparate considerar o jornalismo o ‘quarto poder’. Os jornalistas não exercem nenhuma função que possa equivaler-se aos poderes clássicos dos políticos que legislam, governam e definem as normas destinadas a ser aplicadas pelos magistrados nos tribunais. Um jornalista só tem um poder ao seu alcance: o poder da pergunta. Cabe-lhe suscitar questões, desfazer dúvidas, interrogar-se sobre tudo quanto não sabe. O simples poder da pergunta, quando bem excercido, tem um inegável valor social, permitindo aferir o comportamento dos agentes políticos e consolidar o exercício da cidadania. Naturalmente, as perguntas que se impõem só podem ser feitas em sociedades livres – por isso os sistemas ditatoriais elegem sempre os jornalistas como inimigos principais. Acertam o alvo ao proceder assim.
Infelizmente, muitos profissionais da informação demitem-se do seu direito – que é também um dever deontológico – de questionar os poderosos. É, de facto, uma missão muitas vezes incómoda – mas da qual nenhum jornalista digno da profissão que exerce deve demitir-se sob pretexto algum. Há que continuar a interrogar, a interpelar, a questionar ministros, deputados, autarcas, gestores públicos, líderes partidários. Mesmo quando muitas portas se fecham nas caras, quando o assessor do assessor manda dizer que Sua Excelência não está, quando as ameaças de represálias surgem com a insídia recomendada nos manuais do ramo, há que continuar a fazer perguntas. Incomode-se quem se incomodar.
Este é o único poder dos jornalistas. E não se iludam: não existe mais nenhum.


Perfeito.
Gracias, compadre.
Muito bom
Obrigado, Luís.
De acordo, Pedro. Só existe outro poder, quando alguns jornalistas se esquecem da sua profissão e ficam “embebbed with (someone or something”). Isso , infelizmente, está a acontecer muito em Portugal…
Pois, Carlos. ‘Embedded’ terá a ver com outras coisas, mas com jornalismo não.
Infelizmente, tem muito a ver, Pedro, porque é dessas relações que “nascem” algumas notícias que fazem primeiras páginas de jornais e aberturas de noticiários televisivos.
“E não se iludam: não existe mais nenhum.”
Exacto. Era bom que as Redacções percebessem isso e deixassem de olhar para o umbigo.
Á atenção do Sr. Oliveira: O que, acertadamente, refere não é jornalismo, é assessoria… Quiçá aqueles relacionados com o jornalismo de investigação deixassem de o confundir com o receber telefonemas…
Caro Pedro,
Belo texto.
O poder de perguntar é realmenet importante. Não só em jornalismo mas em tudo ( ou quase ).
Não sendo jornalista estou de acordo consigo nomeadamente quando diz que esse poder deve “ser bem exercido”.
Pena é que a maioria dos jornalistas ( pelo menos os que eu leio, vejo, ouço ) prescindam desse poder para fazer análise e/ou emitir opiniões.
Nos cursos de jornalismo há alguma cadeira sobre como fazer perguntas ?
Se não houver candidato-me :))
Um abraço
Olá, António. Infelizmente os jornalistas demitem-se cada vez mais do seu direito – que é um dever – de fazer perguntas. Muitos mais não fazem do que estender um microfone. Com isso abdicam de um dos maiors atributos desta profissão – o de serem representantes e portadores das dúvidas e perplexidades do cidadão comum.
Pedro,
Estou de acordo consigo, mas estaria ainda mais de acordo se o comentário do Carlos B. de Oliveira fosse o último parágrafo do seu poste .
Saudações.
Obrigado pelas suas palavras. É um gosto recebê-lo aqui.
Concordo perfeitamente, e ás vezes fico “danado” por alguns jornalistas não serem capazes de fazer ‘aquela’ pergunta.
Também eu, Pedro. E tenho-me apercebido disso vezes de mais.
Ao contrário de Kafka, e naturalmente que em um outro contexto totalmente diferente, o meu contexto, já me espantei por não ter respostas às minhas perguntas, mas recuso-me a acreditar que tenho de as deixar de fazer.
Gostei deveras, Pedro. “Incomode-se quem se incomodar ..”
É isso, Catarina. No dia em que os jornalistas deixarem de fazer perguntas, “incomodem quem incomodarem”, a nossa democracia ficará demasiado parecida com uma ditadura. Não quero isso. Nenhum de nós quer.
Este é um daqueles seus posts, Pedro, para os quais a única qualificação que me ocorre é “salutar”. Enfim, não é a única: “bom”, “até que enfim” (latu sensu) também serviriam, entre muitas outras.
Mas é a minha favorita.
Obrigado pelas suas palavras amigas, Luís. Um abraço.
Há 20 anos era eu um jovem ingénuo, vejo-me nesse tempo a produzir um texto semelhante ao seu, com o mesmo grau de pureza.
Desculpe lá, mas parece-me improvável. Entendo muito bem onde quer chegar, mas não é por esse caminho.
Há 20 anos, nenhum jovem ingénuo escreveria um texto como este, porque qualquer jovem ingénuo, há 20 anos, era um “dono do mundo” e nem sequer vinha daí qualquer mal ao mundo.
O importante é perceber a realidade, hoje, para reflectir deste modo e concluir deste modo.
Não há lugar a desculpas, melhor do que uma boa polémica só uma mulher bonita ou um uísque velho. Vejo que entendeu onde eu queria chegar e sim, há 20 anos eu estava cheio de mim e era ainda capaz de defender o indefensável (e fi-lo), hoje sei que a ‘verdade’ anda à solta e é irmã da liberdade, sei também que sempre que as duas se encontram, mudam o mundo, um pouquinho, mas mudam.
Os jornalistas exercem poder sim e o meu amigo sabe-o bem, mas exercem-no no quadro de outros poderes e são instrumentos da circunstancia, da dos outros poderes, da sua própria ideologia (veja Helena Matos n’o Publico, a titulo de exemplo) e da sua própria subsistência. No quadro desta realidade complexa detém poder porque influenciam, porque fazem análise, porque recebem ordens e cumprem-nas, porque são permeáveis às suas fontes (que guardam como bem maior e têm pavor em perder), porque dão eco ou porque o calam.
No dia em que deixasse de acreditar em cada frase que escrevi, Paulo Quintela, abandonaria esta profissão. Não tenho a menor dúvida quanto a isso.
Acredito plenamente. Aqui a discussão fi-la no plano conceptual, não no plano pessoal.
Só tenho uma certeza!
É através dos jornalistas que a luz da noticia é acesa.
O poder deles no momento da noticia é imenso!
Assim saibam exercer esse poder e não se demitam dele, Nuno.
Esse será o único poder, Pedro, mas é realmente um poder enorme quando é exercido com coragem e não cedendo em questões de ética. Denunciar, destapar, mostrar, abrir caixas fechadas… tudo isto pode ser feito quase só com perguntas e mesmo assim ser letal, como sabes.
Bem sei, Ana. É imenso o poder de uma pergunta que traduza a permanente insatisfação de um jornalista.
Nunca concordei sobre a denominação de 4º poder atribuída ao jornalismo, porque isso é quase como colocar lado a lado o Estado e o jornalismo. Estudei jornalismo porque o via como uma espécie de polícia neutro, pronto a alertar e a denunciar o que de errado se passa, seja com os 3 poderes do Estado, seja com entidades não estatais, ao mesmo tempo que dava voz a toda a gente.
Volvidos uns anos, percebo que o jornalismo deixou de ser isso (alguma vez o foi?), ou que a situação que o jornalismo vive é cada vez mais decadente. Não é possível ao jornalismo cumprir o seu papel quando depende de alguma das entidades que mencionei acima, porque está sempre condicionado. Pelos patrões que pagam as contas; pela falta de orçamento para o que realmente faz falta: jornalismo de investigação.
Assim, acho que a principal função do jornalista é, sim, a pergunta, mas é também insistir quando a pergunta não é respondida ou é feita de forma dúbia. Cabe ao jornalismo ir atrás do que não é respondido e publicar as respostas que encontrou.
Estes podem ser os únicos poderes do jornalista, mas já foi suficiente para mudar muitas coisas ao longo da História e já repôs a verdade onde ela era necessária.
A situação que o jornalismo vive actualmente é que deixa que tudo isso caia no esquecimento…
É isso, Sara. No poder da pergunta – simultaneamente alicerce de uma sociedade democrática e garantia de vigilância do funcionamento das instituições – está a essência do jornalismo.
“O que estava o árbitro X a fazer em sua casa no dia Y, véspera do jogo W?” (pergunta ao dirigente desportivo)
“Prometeu inaugurar a auto-estrada K no dia D. Porque motivo a auto-estrada permanece por construir neste preciso dia?” (pergunta ao membro do Governo)
“Recebeu X euros do erário público para fazer um filme, que afinal ficou todo preto. Tenciona devolver o dinheiro que recebeu em forma de subsídio?” (pergunta ao cineasta B).
E por aí fora…
Ora aqui está um jornalista consciente do seu poder, ciente da sua força.
Já sabia que era assim há muitos anos, ainda eu era estagiário num já distante tribunal.
Fico satisfeito por saber que assim continuará a ser. E por saber que me concede o privilégio de ser seu amigo.
O privilégio é meu, Sérgio. Obrigado pelas tuas palavras. Um grande abraço.
Só é pena que, em geral, o “jornalismo” praticado por aí – nem é preciso ir longe… – nada tenha a ver com o que diz.
Nem por isso deixo de pensar desta maneira.
Li, não só o post do Pedro, como os comentários que o mesmo suscitou, e há um que me chamou em especial a atenção, de alguém que diz, “também há 20 anos escrevi algo assim”, associando-se a ideia de alguma pureza inicial quando, nesses anos, se falava de jornalismo de investigação, feito nas redacções e em que produzir notícias, fazer reportagens, dirigir entrevistas, era quase como militar num partido político (sim, porque militar num partido, já foi algo de muito prazenteiro), por contraponto a alguma desilusão que o tempo veio trazer a essa visão quase idílica do “velho jornalismo”.
E sinto-me concordar com os 2 aspectos da questão: o tom genuíno e algo idealista do texto do Pedro, que sabemos anda nisto há muitos anos, já viu muito mundo, e tem tudo menos de ingénuo, e a reserva que o mesmo texto provoca quando sabemos o que é a prática das redacções , das agendas, dos interesses, e que as tentativas de mordaça, se as há, vêm algumas vezes de dentro dos próprios grupos editoriais.
Inegável é a importância de se escrever com a legitimidade com que o Pedro o faz, sabendo-se como ele próprio, na sua profissão, se rege pelos princípios e métodos que enuncia, quer se goste, ou não, das suas conclusões. Mas isso, claro, é outra história.
Rui Daniel
Obrigado também pela tua reflexão, meu caro Rui. A realidade é o que é, mas no dia em que perdermos por completo o idealismo ela será ainda pior, não tenhas dúvida. Eu não tenho.
Abraço.
Pedro
Absolutamente de acordo. Mas não subestimar a sua influência, Pedro. Têm poder e muito, sobretudo num país que vive pendurado na televisão.
Como não vivemos numa sociedade livre nem numa verdadeira democracia, poucos são os que arriscam ver as portas a fechar-se.
(O jornalismo foi a minha primeira paixão, mas o curso ainda não existia em Coimbra em 76 e eu queria continuar em Coimbra… São opções. Hoje vejo como a vida dos verdadeiros jornalistas é difícil e desafiadora, mas como pode ainda ser fascinante, apesar de tudo.)
De facto, a vida de um jornalista é difícil e dura – pelos mais variados motivos. Mas continuo a pensar, como Camus, que é a mais bela profissão do mundo. Quanto à influência, Ana, ela só existe se o jornalista não abdicar do poder da pergunta. O jornalista que não se interroga, que não estranha nada, que não levanta dúvidas, que não incomoda, que não interpela os poderes públicos é alguém que se demitiu do essencial da sua missão.
Concordo consigo, Pedro, no sentido de «poder-dever». O jornalista «deve» fazer perguntas, «deve» obter informação. Mas não creio que o seu poder se esgote aí. Há depois o «poder de influência», que se exerce, inelutavelmente, quando o jornalista transmite a informação obtida; independentemente do maior ou menor grau de objectividade com que o faça. Este, sim, tem a força de um quarto poder, porque, como nenhum outro, (in)forma a opinião e a acção do público. Por isso, é sobretudo nesta vertente que é indispensável um código deontológico. Como reza o ditado, «perguntar não ofende». O que pode «ofender» é a utilização que se dê à resposta (ou informação) obtida.
Claro que o poder da pergunta, tal como o concebo, é um poder-dever, Luísa. E também, desde logo, é um direito. Jornalista que não exerça este poder-dever não pode aspirar legitimamente a influenciar quem quer que seja. O ‘quarto poder’ de que tanto se fala é ilusório. Julgo que ninguém se imagina a viver numa sociedade tutelada por jornalistas, um admirável mundo novo onde os editoriais da imprensa tivessem força de lei. Suponho que também ninguém gostaria de viver numa sociedade em que os juízes não se limitassem a aplicar as leis, mas também as produzissem. Jornalista que pretenda exercer o poder deve candidatar-se a um cargo político. Tão simples como isso. Mas no dia em que for para a política abdica da poder da pergunta: cabe-lhe a partir de então o dever da resposta.
Excelente, meu caro amigo. Muito bem observado. O grande problema dos dias que correm é que muitos jornalistas deixam de fazer perguntas e limitam-se a acolher o que lhes dizem, sopram e “vendem”. Demitem-se das suas funções, portanto.
Abraço
Olha, olha…
Pois é, Francisco. Obrigado pelas tuas palavras. Abraço.
O famoso quarto poder é, como o chamou Mário Mesquita, um quarto equívoco. O poder do jornalismo é a face visível do poder das fontes, isto é, do poder político e do poder económico (mais o dos dispersos poderes fácticos que se desenvolvem nos seus interstícios). Por isso, há zonas do funcionamento do regime democrático onde o jornalismo não mete o nariz a não ser que sejam palco de conflitos de interesses onde possa ser usado como arma de arremesso (…)”.
Manuel António Pina, “O inútil quarto poder“, in Jornal de Notícias, 11.1.2208
É triste, mas é a verdade. E como, então, lutar se, de um modo geral, a nossa realidade, tanto quanto ao jornalismo como aos partidos é a podridão instalada que temos?
Não partilho dessa posição tão pessimista, apesar da consideração que tanto M. Mesquita como M. A. Pina me merecem. Em todas as épocas houve bom e mau jornalismo, em todas as épocas houve jornalismo condicionado – no passado já tivemos jornalismo muito mais condicionado, designadamente quando vivíamos em ditadura. As próprias redes sociais contribuem, e de que maneira, para interpelar, motivar e desafiar o jornalismo no mundo contemporâneo.
Completamente. O caso do Irão tem sido fantástico nesse aspecto. Não há censura e repressão que detenham a informação de passar cá para fora!
Já houve também casos onde o fumo foi lançado na blogosfera e só depois o jornalismo foi investigar se havia fogo. É um fenómeno fantástico!
O exemplo do Irão é excelente, Sara. De momento só praticamente só por esse meio é possível haver noticiário de lá com um minimo de isenção, sem os filtros do Governo e do clero que domina toda a vida do país.
“Infelizmente, muitos profissionais da informação demitem-se do seu direito – que é também um dever deontológico – de questionar os poderosos. É, de facto, uma missão muitas vezes incómoda – mas da qual nenhum jornalista digno da profissão que exerce deve demitir-se sob pretexto algum.”
viu-se o comportamento dos Jornalistas nas ultimas eleições era so discutirem trivialidades…pois, agora é a historia que se sabe…sacudir a agua do capote! a economia traduz bem o estado do Jornalismo em Portugal ! não vale nada, um tostão furado…
Sim? E isso quer dizer o quê? Que um jornalista que mantém o ideal e as convicções sobre o exercício da profissão deve demitir-se? Abandonar? Abrir uma escola profissional?
Qual foi a sua conclusão, que eu já me esqueci?
excelente Pedro, muito bem.
Obrigado, Daniel.
Concordo com o que está escrito. Mas e se o jornalista mente? Não vamos agora esquecer que há bons e maus jornalistas, assim como em todas as outras profissões. Nunca vi nenhum jornalista deixar de o ser por faltar à verdade, como se diz agora, no meu tempo chamava-se, como digo mais acima mentira. Despedidos alguns, outros são desculpados e há ainda os que arranjam emprego logo no pasquim do lado.
Esse é um problema que tarda em ter resolução. Há muito que defendo – e estou bem acompanhado nessa matéria – a instituição de uma ordem profissional com efectivos poderes disciplinares sobre os jornalistas. Um jornalista que falte à verdade comete uma grave falha deontológica. Lamentavelmente, não há mecanismos internos efectivos de penalização quando essas falhas ocorrem.
São os patrões dos jornalistas que têm poder. Os jornalistas são empregados obrigados a seguir a “linha editorial” dos patrões. Senão, são despedidos.
Os meios de comunicação estão ao serviço dos grupos financeiros (são comprados por eles). O jornalista é o elo mais fraco.
Às vezes é até um pouco pior que isso. Às vezes nem os próprios patrões têm poder. E muito menos têm linha editorial. Mas esse não é um problema exclusivo dos dias de hoje – é um problema que já vem de trás.
O jornalista tem um poder enorme. O poder de informar. Informar com rigor, isenção, profundidade, clareza e transparência.
Quanto melhor o fizer maior o seu contributo para a qualidade da democracia e do escrutínio das suas instituições. Habermas! Está lá tudo.
Bom post
Obrigado, caro João Almeida. Não há informação rigorosa se o jornalista abdicar do poder/dever da pergunta. Infelizmente essa abdicação sucede demasiadas vezes.
Não consigo concordar a 100% com o post, embora goste de pensar que assim deveria ser. Infelizmente o jornalista não é uma peça independente, antes faz parte de um grupo mais complexo, o qual tem um interesse acima de qualquer outro: vender as suas notícias.
Seria bom pensar que o leitor compra as notícias apenas usando como base a qualidade dos jornalistas, mas sabemos que não é esse o caso. Por isso mesmo temos que o todo onde o jornalista se insere (jornal, rádio, televisão, site de internet, etc) tem interesses próprios, pelo que pode definir as notícias que leva a público. Dessa forma existe então um poder extra: o de decidir o que é “noticiável”. Por vezes a escolha é simples, como no caso do sismo no Haiti. Outras vezes estamos perante situações mais complexas, como no “caso das escutas”.
Acima de tudo, o jornalista deve ter o poder de fazer as perguntas que os cidadãos não conseguem fazer. De interpelar directamente os actores num determinado caso para esclarecer o mesmo perante os cidadãos. Dessa forma concordo com a designação de “quarto poder”. Só que há um problema extra: a quem respondem os jornalistas (ou o grupo a que pertencem)? Se procederem, sem malícia, a “sujar o carácter” de uma determinada pessoa (imaginemos um caso de corrupção, por exemplo), quantas vezes procedem à limpeza do carácter? Infelizmente raramente o fazem, mesmo quando “sujam” sem qualquer intenção de o fazer, apenas com a intenção de noticiar aquilo que vêem como factos.
É esse um poder que os jornalistas têm e que não se vê nos restantes: um certo poder de impunidade. Não é completo, mas existe até certo ponto. Num mundo perfeito não seria problema, mas no mundo actual, que está longe de ser perfeito, é um poder muito real.
“Acima de tudo, o jornalista deve ter o poder de fazer as perguntas que os cidadãos não conseguem fazer. De interpelar directamente os actores num determinado caso para esclarecer o mesmo perante os cidadãos.” Este é o ponto. Há uma delegação implícita de competências ao jornalista, que tem o dever de materializar as perguntas que o cidadão comum gostaria de fazer e não faz, por falta de acesso aos titulares dos órgãos de poder. Seja a propósito de que assunto for.
Não seja modesto, Pedro Correia.
:))))
I beg your pardon?
Caro Pedro
Desculpa destuar da unanimidade. O poder da pergunta é horrível e pode ser suicidário.
Chamaram-me vários nomes ao longo de mais de 30 anos de jornalista.
Quando as perguntas para esclarecimento dos leitores agradavam aos poderes políticos e sociais, chamavam-me: porreiro, o melhor, grande homem, corajoso, grande gajo, genial.
Quando as perguntas não agradavam aos mesmos poderes, condecoravam-me: cabrão, filho da puta, merdas, vendido, atrasado mental, analfabeto. E como condecoração maior recebi a injustiça de um tribunal, a condenação indecorosa, o corte das pernas, a falência financeira, a venda do meu jornal, o silenciamento, o desterro e o desemprego.
No jornalismo há perguntas que são fatídicas…
Abraço
Bem sei, João. Por isso o poder – os diversos poderes – detesta que os jornalistas formulem perguntas. Nada pode haver tão incómodo como uma simples pergunta. O que mencionas só confirma isso.
Que modéstia.
Então escolher umas notícias em vez de outras não é jornalismo. Escrever um artigo a favor de A contra B não é jornalismo?
Dar tempo de antena a A em vez de B não é jornalismo?
A e B podem ser pessoas, ideologias, valores, religiões etc…
Um exemplo prático:
A industria do Aquecimento Global fez-se alguma vez sem Jornalistas coninventes?
O País está como está porquê? Porque é que os Portugueses escolheram mal nos últimos 10,20 anos? Não será por causa da qualidade da informação?
O Jornalismo não é o 4ºPoder. É o 1ºPoder. Pois é sempre na informação que se joga a primeira batalha.
um bocadinho de SPAM nunca fez mal a ninGAM.
modesta contribuição minha para a sobrevivência deste blog: http://fractura.net/blog-sociedade-democ racia/jornalismo-poder-ou-nao-478.html
valiosa contribuição do alexandre no rascunho: http://rascunho.iol.pt/cronica.php?id=24 9
e mais comentários aqui: http://fractura.net/blog-sociedade-democ racia/rascunho-acerca-do-poder-do-jornal ismo-544.html
já fiz o trabalho de casa, agora já posso ver televisão.
Obrigado pelas dicas, Carlos. Gostei das vossas reflexões. Um dia destes volto ao assunto, que é inesgotável.
inesgotável realmente, e a necessitar de uma abordagem segura e isenta. estou farto de pachecos armados ao chomsky.
passamos a aguardar.
abraço.
cjt