
Talvez o melhor romance português de todos os tempos, Os Maias é um poderoso libelo contra o precário Portugal do século XIX, que amanheceu absolutista, tendo no trono uma rainha louca, e anoiteceu pré-republicano, sufocado pelo espectro da bancarrota. Das Invasões Francesas na etapa inicial ao Ultimato britânico ao cair da cortina, sofremos de tudo: ocupação estrangeira, pronunciamentos militares, a traumática independência do Brasil, uma crise dinástica, uma sangrenta guerra civil. O país novo prometido pela revolução liberal de 1820 desaguara no pântano do rotativismo à sombra da Carta Constitucional com o seu cortejo de cabecilhas incompetentes, eleitos num simulacro de democracia.
Este enquadramento político propiciava elites partidárias, financeiras, culturais e jornalísticas corrompidas pelo ar do tempo. Em evidente contraste com a ancestral ousadia dos portugueses que conquistaram a independência e deram novos mundos ao mundo. Virtudes e defeitos plasmados em três gerações da família Maia: o respeitável avô Afonso, o débil filho Pedro e o ocioso neto Carlos nascido já com a monarquia constitucional consolidada, espelho de uma geração marcada pelo veneno do diletantismo que contaminava a atmosfera do reino e proclamava a inutilidade de todos os esforços pela regeneração social nesta «choldra ignóbil».
Carlos da Maia, médico que não exerce, é inseparável companheiro de João da Ega, escritor que jamais publica: deambulam ambos por essa Lisboa onde o destino do País se jogava «entre a Arcada [Terreiro do Paço] e São Bento». Nunca a capital portuguesa foi descrita de forma tão modelar na ficção literária como nesta obra-prima de Eça de Queiroz, cultor da arte realista, capaz de examinar a sociedade à lupa e de a dissecar com bisturi fazendo entrar em cena um incomparável desfile de personagens.
Figuras representativas desse tempo. Que é também, de algum modo, o nosso tempo. Há coisas que nunca mudam por cá.

Então de Dâmaso’s Salcede, estamos cheios.
De Cohens também. Um deles está agora na África do Sul.
Por cá há coisas que mudam mais depressa, outras mais devagar, “nunca” é uma hipérbole sua e dos “Vencidos da vida” como o Eça de Queiroz, de que já fui mais fã. 9/factfulness-factualidade-e-o.html
Veja o que aconteceu por exemplo à água do Algarve , desde que me lembro (talvez desde os anos 60 do século XX) até agora: http://imagenscomtexto.blogspot.com/2019/0
Sorte sua, já não ser fã de Eça.
Deve ter algo muito melhor.
Felicitações, então, pelos progressos registados no abastecimento de água no Algarve. De água e de tudo o resto, pelo Algarve e pelo resto do país e – imagine-se – por todo o mundo. O chamado “primeiro mundo”, enfim.
De água e de tanta coisa que, pelos anos finais do séc. XIX, era desconhecida. Ou impraticável nos termos em que hoje é tomada como uma banalidade, uma evidência em que se não pensa (ou talvez, e por preocupantes razões, se vá começando, ou recomeçando, a pensar). Mas mesmo essa da água – como tantas outras – foi coisa que por cá demorou consideravelmente a mudar. Digamos que, com todo o respeito por quem por elas por cá lutou, foi também por arrasto, uma espécie de virtuoso fatalismo (alguma vez haveria de ser: o tempo e a evolução científica e tecnológica passam por todo o lado, até por cá), mais do que por outra e mais meritória razão. Pioneirismo português – e sabendo que simplifico grosseiramente, em deliberado retrato anedótico – terá enfim havido na tecnologia da cobrança electrónica de portagens. Isso: cobrança.
Mas são essas, acha, as coisas que entre nós nunca mudam e que Os Maias tão bem e com tanta actualidade retratam? Curiosa visão crítica da obra, a sua. Algo superficial, arrisco. Também há dessa superficialidade retratada n’Os Maias. E é perene, como se vê.
Carlos da Maia, médico que não exerce, é inseparável companheiro de João da Ega, escritor que jamais publica
De onde lhes vem o dinheiro para viverem?
Ganharam o euromilhões.
Carlos da Maia, médico que não exerce, é inseparável companheiro de João da Ega, escritor que jamais publica: deambulam ambos
Pouco tempo depois da publicação d’Os Maias por Eça de Queiroz, Thorstein Veblen publicou A Teoria da Classe Ociosa.
Deve ter-se inspirado aqui.
com o seu cortejo de cabecilhas incompetentes
Parece que Fontes Pereira de Melo não foi propriamente um incompetente.
Costa Cabral também não, creio.
Cabral e Fontes têm muito a ver um com o outro. Quase irmãos gémeos.
Sátira à sociedade portuguesa, sempre atrasada em relação à Europa.
Anteontem tal como hoje.
Pois, a diferença está : os holandeses, melhor dizendo os neerlandeses, ainda usam socas deixando-as à entrada para não sujar a casa, por cá andava-mos descalços até aos anos de 1960 por não haver dinheiro para comprar sapatos e não por uma questão de hábito como diziam os palermas poupadinhos.
Os holandeses são muito evoluídos. De tal maneira que até já deixaram de ser holandeses.
Não é bem assim. Quem estava farto de ser chamado holandês eram os habitantes das outras províncias, como : Frísia, Limburgo, Brabante, Zelândia e mais outras.
A questão da Holanda, existe a Holanda do norte e a sul, foi Amesterdão ser na província da Holanda do norte ,que do seu porto saíram os navios da Companhia das Índias e ficaram para sempre como sendo holandeses. O país é o Reino dos Países Baixos, os seus habitantes são os neerlandeses e a sua língua é o neerlandês a mesma da Flandres da vizinha Bélgica.
O que se passa com os holandeses, passou-se, e ainda se passa, connosco em relação à Espanha.
Como filatelista tenho uma peça, ou seja um envelope selado enviado dos EUA para a ACLisboa, Rua Portas Santo Antao, Lisboa – Portugal (Espanha). Não acredito que o remetente queria localizar Península Ibérica, não fosse parar a N.Lisboa – Portugal (Angola).
Também por cá as gentes da região de Coimbra estão fartas de serem chamadas morcões do norte..
Fui filatelista durante anos. Aprende-se imenso de cultura geral com selos. De geografia, antes de mais nada.
É o livro do incesto na admira sermos uma sociedade doente.
Não se sente bem? Estimo as melhoras.
Só espero que o Mamadou Ba não venha aqui ao Delito senão lá temos de abater o João da Ega.
Ba anda muito ocupado. A mamadar.
“Nunca a capital portuguesa foi descrita de forma tão modelar na ficção literária como nesta obra-prima de Eça de Queiroz, cultor da arte realista, capaz de examinar a sociedade à lupa e de a dissecar com bisturi fazendo entrar em cena um incomparável desfile de personagens.”
Tal e qual! – E sublinho: “cultor da arte realista”, “examinar a sociedade à lupa e a dissecar com bisturi”.
[o confinamento e os sucessivos “isolamento profilático”, até a reacção às doses da vacina Pfizer (levei “agora” a terceira dose), uma(s) coisa(s) leva a outra – e há que saber tirar o melhor das situações menos boas – estou a reler Os Maias, cerca de quarenta anos depois e com outra maturidade].
Há males que vêm por bem, como se confirma. Os anos passam, o gosto pela leitura perdura.
Quando assim acontece, é sempre um excelente sinal.
Dispensaria todo “o mal”, até aquele que “vem por bem”, mas pouco se pode quanto a isso.
Do mal o menos. É outra frase feita que pode servir de lema.
Gosto de ler e tenho o hábito da leitura, Pedro, mas com tantos livros não nos chegaria a vida inteira…e vou dando prioridade aos que ainda na li [também tenho outros interesses com que gosto de ocupar o meu tempo livre e de lazer, para além dos livros]. Agora, já a seguir a Eça de Queiroz, passo para MST e o seu “Último Olhar”.
Sobre lemas, o meu é mais: vive e deixa viver.
Faz bem em seleccionar. Eu faço o mesmo, o tempo não chega para tudo.
Por vezes há que dar prioridade a releituras. Vou dando nota disso aqui, esperando dar boas pistas a quem me lê.
É o meu romance favorito, Pedro. É impressionante a sua actualidade.
Enorme, descomunal. E genial.
Releio com frequência certos trechos que tenho sublinhados.
Nunca perco tempo: só ganho.
Sempre gostei muito de “Os Maias”, e li-o três vezes na adolescência duas (a segunda por ser obrigatório no 11º ano) e depois com vinte e tal anos. Há poucos anos vi o filme de João Botelho, que é um bom filme mas que me irritou um pouco. Por isso fui reler o livro. E percebi, nessa leitura já de cinquentão, porque me irritava o filme: porque refractava o que agora mais detectei no livro, um traço caricatural um bocado grosso demais para o meu gosto. Sim, é um retrato do país, e que é transponível para outras épocas (e também para hoje, cheios de Dâmasos e Acácios, mas também destes “dandys” de cultura de bric-a-bric – basta ver comentários televisivos). Ou seja estou como o nosso confrade bloguístico jjamarante, já fui mais fan do que sou agora.
Sobre esse tema do excesso de rigor caricatural do Eça naquela época a que a posteridade viria a conceder alguma justiça (o escritor escreveu sobretudo no Portugal de Fontes, raro período de prosperidade nos últimos 200 anos de história pátria), também já escrevi no DELITO, noutro texto dedicado a este romance.
Mas, visto em termos mais gerais, o século XIX português é de facto uma desgraça. Começa com as invasões francesas e a subsequente ocupação britânica, termina com o ultimato inglês, é percorrido por uma guerra civil com feridas dilacerantes que chegaram ao século XX, regista vários pronunciamentos militares e uma quase contínua penúria financeira.
Um século que começa mal, com o simbólico esbulho de Olivença pelos espanhóis, e termina com o país na bancarrota que acelera o regicídio e a república. De permeio, a independência do Brasil, que feriu o inconsciente colectivo e a fazenda nacional muito mais do que hoje possamos imaginar.
Hoje creio que “Os Maias”, mais do que a atmosfera específica daqueles anos do rotativismo constitucional, reflecte o péssimo século XIX português no seu conjunto. Como o seu irmão siamês, o magnífico “Portugal Contemporâneo”, de Oliveira Martins, não por acaso o maior cúmplice intelectual de Eça.
Eu não apouco a importância do Eça na nossa literatura nem a pertinência do olhar desencantado sobre o país que ele (e outros) tiveram naquela época. Nem digo que desgosto do que escreveu (tirando alguns contos, que não me dizem grande coisa). Apenas conversava, e botava isto de que já cinquentão, mais lido, perdi algum do encantamento, exactamente pelo sarcasmo caricatural -. diferente, por menor, da densidade que alguns dos seus contemporâneos transpirenaicos puseram nos seus frescos sobre os respectivos países. E, já agora, o meu livro preferido dele é “A Ilustre Casa de Ramires”, e também – mas não só – porque o tal sarcasmo se eleva a ironia.