Da inutilidade dos esforços


Pedro Correia,

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Talvez o melhor romance português de todos os tempos, Os Maias é um poderoso libelo contra o precário Portugal do século XIX, que amanheceu absolutista, tendo no trono uma rainha louca, e anoiteceu pré-republicano, sufocado pelo espectro da bancarrota. Das Invasões Francesas na etapa inicial ao Ultimato britânico ao cair da cortina, sofremos de tudo: ocupação estrangeira, pronunciamentos militares, a traumática independência do Brasil, uma crise dinástica, uma sangrenta guerra civil. O país novo prometido pela revolução liberal de 1820 desaguara no pântano do rotativismo à sombra da Carta Constitucional com o seu cortejo de cabecilhas incompetentes, eleitos num simulacro de democracia.

Este enquadramento político propiciava elites partidárias, financeiras, culturais e jornalísticas corrompidas pelo ar do tempo. Em evidente contraste com a ancestral ousadia dos portugueses que conquistaram a independência e deram novos mundos ao mundo. Virtudes e defeitos plasmados em três gerações da família Maia: o respeitável avô Afonso, o débil filho Pedro e o ocioso neto Carlos nascido já com a monarquia constitucional consolidada, espelho de uma geração marcada pelo veneno do diletantismo que contaminava a atmosfera do reino e proclamava a inutilidade de todos os esforços pela regeneração social nesta «choldra ignóbil».

Carlos da Maia, médico que não exerce, é inseparável companheiro de João da Ega, escritor que jamais publica: deambulam ambos por essa Lisboa onde o destino do País se jogava «entre a Arcada [Terreiro do Paço] e São Bento». Nunca a capital portuguesa foi descrita de forma tão modelar na ficção literária como nesta obra-prima de Eça de Queiroz, cultor da arte realista, capaz de examinar a sociedade à lupa e de a dissecar com bisturi fazendo entrar em cena um incomparável desfile de personagens.

Figuras representativas desse tempo. Que é também, de algum modo, o nosso tempo. Há coisas que nunca mudam por cá.

32 comentários em “Da inutilidade dos esforços”

  1. Por cá há coisas que mudam mais depressa, outras mais devagar, “nunca” é uma hipérbole sua e dos “Vencidos da vida” como o Eça de Queiroz, de que já fui mais fã.
    Veja o que aconteceu por exemplo à água do Algarve , desde que me lembro (talvez desde os anos 60 do século XX) até agora: http://imagenscomtexto.blogspot.com/2019/09/factfulness-factualidade-e-o.html

    1. Felicitações, então, pelos progressos registados no abastecimento de água no Algarve. De água e de tudo o resto, pelo Algarve e pelo resto do país e – imagine-se – por todo o mundo. O chamado “primeiro mundo”, enfim.
      De água e de tanta coisa que, pelos anos finais do séc. XIX, era desconhecida. Ou impraticável nos termos em que hoje é tomada como uma banalidade, uma evidência em que se não pensa (ou talvez, e por preocupantes razões, se vá começando, ou recomeçando, a pensar). Mas mesmo essa da água – como tantas outras – foi coisa que por cá demorou consideravelmente a mudar. Digamos que, com todo o respeito por quem por elas por cá lutou, foi também por arrasto, uma espécie de virtuoso fatalismo (alguma vez haveria de ser: o tempo e a evolução científica e tecnológica passam por todo o lado, até por cá), mais do que por outra e mais meritória razão. Pioneirismo português – e sabendo que simplifico grosseiramente, em deliberado retrato anedótico – terá enfim havido na tecnologia da cobrança electrónica de portagens. Isso: cobrança.
      Mas são essas, acha, as coisas que entre nós nunca mudam e que Os Maias tão bem e com tanta actualidade retratam? Curiosa visão crítica da obra, a sua. Algo superficial, arrisco. Também há dessa superficialidade retratada n’Os Maias. E é perene, como se vê.

  2. Carlos da Maia, médico que não exerce, é inseparável companheiro de João da Ega, escritor que jamais publica

    De onde lhes vem o dinheiro para viverem?

  3. Carlos da Maia, médico que não exerce, é inseparável companheiro de João da Ega, escritor que jamais publica: deambulam ambos

    Pouco tempo depois da publicação d’Os Maias por Eça de Queiroz, Thorstein Veblen publicou A Teoria da Classe Ociosa.

  4. com o seu cortejo de cabecilhas incompetentes

    Parece que Fontes Pereira de Melo não foi propriamente um incompetente.
    Costa Cabral também não, creio.

      1. Pois, a diferença está : os holandeses, melhor dizendo os neerlandeses, ainda usam socas deixando-as à entrada para não sujar a casa, por cá andava-mos descalços até aos anos de 1960 por não haver dinheiro para comprar sapatos e não por uma questão de hábito como diziam os palermas poupadinhos.

          1. Não é bem assim. Quem estava farto de ser chamado holandês eram os habitantes das outras províncias, como : Frísia, Limburgo, Brabante, Zelândia e mais outras.
            A questão da Holanda, existe a Holanda do norte e a sul, foi Amesterdão ser na província da Holanda do norte ,que do seu porto saíram os navios da Companhia das Índias e ficaram para sempre como sendo holandeses. O país é o Reino dos Países Baixos, os seus habitantes são os neerlandeses e a sua língua é o neerlandês a mesma da Flandres da vizinha Bélgica.
            O que se passa com os holandeses, passou-se, e ainda se passa, connosco em relação à Espanha.
            Como filatelista tenho uma peça, ou seja um envelope selado enviado dos EUA para a ACLisboa, Rua Portas Santo Antao, Lisboa – Portugal (Espanha). Não acredito que o remetente queria localizar Península Ibérica, não fosse parar a N.Lisboa – Portugal (Angola).
            Também por cá as gentes da região de Coimbra estão fartas de serem chamadas morcões do norte..

  5. “Nunca a capital portuguesa foi descrita de forma tão modelar na ficção literária como nesta obra-prima de Eça de Queiroz, cultor da arte realista, capaz de examinar a sociedade à lupa e de a dissecar com bisturi fazendo entrar em cena um incomparável desfile de personagens.”
    Tal e qual! – E sublinho: “cultor da arte realista”, “examinar a sociedade à lupa e a dissecar com bisturi”.
    [o confinamento e os sucessivos “isolamento profilático”, até a reacção às doses da vacina Pfizer (levei “agora” a terceira dose), uma(s) coisa(s) leva a outra – e há que saber tirar o melhor das situações menos boas – estou a reler Os Maias, cerca de quarenta anos depois e com outra maturidade].

          1. Gosto de ler e tenho o hábito da leitura, Pedro, mas com tantos livros não nos chegaria a vida inteira…e vou dando prioridade aos que ainda na li [também tenho outros interesses com que gosto de ocupar o meu tempo livre e de lazer, para além dos livros]. Agora, já a seguir a Eça de Queiroz, passo para MST e o seu “Último Olhar”.
            Sobre lemas, o meu é mais: vive e deixa viver.

          2. Faz bem em seleccionar. Eu faço o mesmo, o tempo não chega para tudo.
            Por vezes há que dar prioridade a releituras. Vou dando nota disso aqui, esperando dar boas pistas a quem me lê.

  6. Sempre gostei muito de “Os Maias”, e li-o três vezes na adolescência duas (a segunda por ser obrigatório no 11º ano) e depois com vinte e tal anos. Há poucos anos vi o filme de João Botelho, que é um bom filme mas que me irritou um pouco. Por isso fui reler o livro. E percebi, nessa leitura já de cinquentão, porque me irritava o filme: porque refractava o que agora mais detectei no livro, um traço caricatural um bocado grosso demais para o meu gosto. Sim, é um retrato do país, e que é transponível para outras épocas (e também para hoje, cheios de Dâmasos e Acácios, mas também destes “dandys” de cultura de bric-a-bric – basta ver comentários televisivos). Ou seja estou como o nosso confrade bloguístico jjamarante, já fui mais fan do que sou agora.

    1. Sobre esse tema do excesso de rigor caricatural do Eça naquela época a que a posteridade viria a conceder alguma justiça (o escritor escreveu sobretudo no Portugal de Fontes, raro período de prosperidade nos últimos 200 anos de história pátria), também já escrevi no DELITO, noutro texto dedicado a este romance.

      Mas, visto em termos mais gerais, o século XIX português é de facto uma desgraça. Começa com as invasões francesas e a subsequente ocupação britânica, termina com o ultimato inglês, é percorrido por uma guerra civil com feridas dilacerantes que chegaram ao século XX, regista vários pronunciamentos militares e uma quase contínua penúria financeira.
      Um século que começa mal, com o simbólico esbulho de Olivença pelos espanhóis, e termina com o país na bancarrota que acelera o regicídio e a república. De permeio, a independência do Brasil, que feriu o inconsciente colectivo e a fazenda nacional muito mais do que hoje possamos imaginar.

      Hoje creio que “Os Maias”, mais do que a atmosfera específica daqueles anos do rotativismo constitucional, reflecte o péssimo século XIX português no seu conjunto. Como o seu irmão siamês, o magnífico “Portugal Contemporâneo”, de Oliveira Martins, não por acaso o maior cúmplice intelectual de Eça.

      1. Eu não apouco a importância do Eça na nossa literatura nem a pertinência do olhar desencantado sobre o país que ele (e outros) tiveram naquela época. Nem digo que desgosto do que escreveu (tirando alguns contos, que não me dizem grande coisa). Apenas conversava, e botava isto de que já cinquentão, mais lido, perdi algum do encantamento, exactamente pelo sarcasmo caricatural -. diferente, por menor, da densidade que alguns dos seus contemporâneos transpirenaicos puseram nos seus frescos sobre os respectivos países. E, já agora, o meu livro preferido dele é “A Ilustre Casa de Ramires”, e também – mas não só – porque o tal sarcasmo se eleva a ironia.

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