
A sessão foi curta: decorreram escassos cinco minutos entre a chegada e a partida, no Palácio de Belém. Com a empossada a demonstrar, de modo evidente, que preferia não estar ali. Na altura de prestar o juramento como ministra da Administração Interna foi incapaz de recitar a fórmula consagrada nestas ocasiões, alegou não conseguir ler por se ter esquecido dos óculos e necessitou de ajuda para cumprir essa formalidade. Como os actores que precisavam de ponto nas antigas peças de teatro.
Momento confrangedor, não apenas para ela mas certamente também para o primeiro-ministro que assistia à abreviadíssima cerimónia sem direito a convidados nem declarações finais. Francisca Eugénia da Silva Dias Van Dunem, 66 anos, assumiu na segunda-feira a pasta da Administração Interna, em substituição do exonerado Eduardo Cabrita. Chega a um dos postos mais relevantes do Governo, em acumulação de funções, quando já não queria lá estar pelo menos desde o primeiro semestre deste ano.
Não se trata de segredo de Estado: ela própria o confessou, em entrevista, ao revelar que havia acertado a saída com António Costa mal terminasse a presidência da União Europeia confiada a Portugal até 30 de Junho. Desgastada por seis anos em funções governativas e um coro de críticas à sua actuação como ministra da Justiça. Com destaque para a não-recondução da anterior procuradora-geral, Joana Marques Vidal, e a controversa nomeação de José Guerra para procurador europeu. Num país em que os tribunais administrativos são os segundos mais lentos da União Europeia: cada caso, em média, aguarda mais de 900 dias pela resolução só em primeira instância. Num país em que as custas judiciais afastam o cidadão comum dos tribunais: para recuperar uma dívida de três mil euros, é necessário pagar mais de 200 logo à partida – um dos montantes mais elevados da Europa.
«Era a combinação que tínhamos», declarou a inesperada sucessora de Eduardo Cabrita, magistrada do Ministério Público, em entrevista ao Público no mês passado. Aludia a Costa com palavras que não permitiam dúvidas: «Temos que dar lugar a outras pessoas. O meu lugar não é aqui, a minha profissão não é esta.» Mal imaginava a tarefa acrescida que o primeiro-ministro lhe reservava: dois pelouros governativos em vez de um. Irá manter-se no executivo pelo menos até Fevereiro. E o prazo pode dilatar-se caso as legislativas de 30 de Janeiro não permitam uma alternativa clara e rápida de governo.
Acumulação agora improvisada pelo político que habituou os portugueses a encontrar soluções que afinal agravam os problemas. Numa pasta que tutela a GNR, a PSP, a Autoridade Nacional de Protecção Civil e o SEF que era para extinguir mas afinal não se extinguiu – numa das trapalhadas em que Cabrita se envolveu. Tivesse a saída do «excelente ministro» (Costa dixit) da Administração Interna ocorrido quando devia e escusava Francisca Van Dunem de enfrentar este sacrifício suplementar.
Texto publicado no semanário Novo

Do passageiro à boleia até à condutora que não sabe o código tudo nos pode acontecer com um governo desta gente.
O sacrifício suplementar é dos portugueses. Escolhida para uma pasta de 2ª linha em que tudo se decide com a velocidade de um tartaruga, acumula agora com uma das pastas mais importantes no que se refere há soberania da nação e como já estamos habituados penso que até ao final do seu mandato ainda vão saber-se mais coisas que vão pôr os aparatichks socialistas com ainda mais medo de perderem o tacho.
WW
Como tudo agora é feito e decidido em função do que Bruxelas decide, permanece o erro em acreditar que as eleições são feitas para escolher governos e governantes. É isto que a propaganda aponta. Mas Goebbels teria sido mais convincente.
Cuidado com as críticas à Dra. Van Dunem. Pode ser entendido como machismo e/ou racismo. Critique-se o ministro caucasiano e vá de chuto.
Mais uma legislatura, mais uma época em que nada muda na Justiça. Sigam as reformas estruturais e a procura pela excelência e produtividade, embora fique tudo na mesma.
Em Portugal o recurso à justiça é a ameaça dos aldrabões, quando devia ser o contrário. Felizmente não tenho grande historial, tendo sido “ameaçado” uma vez de ir para tribunal se não fosse paciente com uma dívida. É giro quando um tipo que deve dinheiro é o mais ávido em seguir para via judicial.
A única vez que lá cheguei, também por dívidas, e depois de longos meses de espera desde o processo dar entrada, a outra parte quis chegar a acordo e pagar o devido de imediato, esquecendo custos e juros. A alternativa era aguentar o processo e receber no dia de são nunca.
É pura crueldade de António Costa, forçar a pobre senhora não somente a continuar mas ainda por cima a carregar com mais uma pasta.
Será que lá no Partido Socialista não conseguem arranjar mais ninguém para fazer o frete de arcar com a Administração Interna?
Isto é mau augúrio para um futuro governo, pós-eleitoral, do PS. Será um governo com duas pastas que ninguém quererá.
Simplesmente patético.
E acossam o Prof. James Watson…
JSP
tem experiência angolana de tentativas de golpe no estado
agora temos Rendeiro como bombo da festa para distrair as hostes da miséria
O Sócrates é o Mandela português, o Rendeiro é o Frank Abagnale.
O ‘em acumulação de funções’ é que me deixa algumas dúvidas… a menos que se trate de passar por lá a picar o ponto, de funções disciplinares no âmbito de processos em curso, ou de perguntar ‘e agora, o que faço?’ aos responsáveis pelas forças de segurança e pela proteção civil – que, provavelmente, mal conhece – se alguma calamidade acontecer, já que pouca experiência de tais andanças, pelo menos ao nível desejável, se presume ter.
Nem parece provável que queira ‘dar um ar da sua graça’, conhecida que é, como bem refere, a sua vontade, de há muito, de fugir para bem longe de um cenário político com que, patentemente, nada tem a ver.
Será, sempre, triste continuar a ver profissionais competentes subtraídos àquilo que tão bem sabem fazer em nome de uma suposta missão política para a qual não foram fadados e na qual se acharão violentados. Sobretudo, gente séria e honesta, como, pelo que por aí leio, a Senhora Ministra me parece ser.
Mas como é que, nas andanças da política, a gente boa ainda se quer meter?
Caro Senhor
…”soluções que afinal agravam os problemas.”
è verdade, mas como existeum “yes man” palavroso e sem carácter na PR, por má que seja a solução, dali não virá oposição (nem de lado nenhum, ao que parece).
Melhores cumprimentos
Vasco Silveira