
Cláudia Köver: «Avistei a farmácia onde esperava adquirir o medicamento que me aliviasse uma inflamação nas gengivas. Abri a porta, com as mãos cobertas por luvas grossas, e comecei por sorrir, sabendo que a paciência, a linguagem gestual e recurso a um inglês básico – que mais se parecia com um “You Jane, Me Tarzan” – seriam a melhor arma para fazer passar a minha mensagem.»
João Carvalho: «Perante a proposta de Orçamento do Estado, será o comportamento dos diferentes grupos parlamentares idêntico? Ano após ano, a resposta é a mesma: não. Este ano, por exemplo, a proposta pertence ao Governo do PSD e CDS e coube ao PS manter o suspense durante um certo tempo sobre o seu sentido de voto. Já o PCP e o BE mal esperaram para dar uma vista de olhos à proposta. Saltaram para a praça pública sem demora e apressaram-se a dizer que iam votar contra ela. (…) Uns privilegiam o debate parlamentar, enquanto outros usam o hemiciclo da Assembleia da República como palco para comícios. O PCP e o BE são incapazes de entender um regime que sempre odiaram. Olham para o Parlamento e o que vêem é mais um palanque.»
José António Abreu: «Era francesa mas gostava tanto de beber chá que todos lhe diziam mais parecer inglesa. Tendo certamente ouvido o comentário milhares de vezes, ela sorria sempre. Falava com um sotaque que ele achava inebriante, misturando palavras em português com palavras em francês e fazendo pausas inesperadas, como se seguisse regras muito próprias acerca dos sítios onde encaixar as vírgulas. Quando, pela hora do lanche, sentada à frente dele, dizia, com um suspiro de prazer: «Eu amo thé», ele ficava sempre um instante em suspenso, tentando perceber exactamente o sentido das suas palavras.»
Luís M. Jorge: «A escola económica judaico-cristã dirige o seu olhar castigador para um novo alvo. Desta vez não exige a mortificação dos povos do Sul da Europa, ou a expiação dos graves pecados cometidos pela nossa função pública. Não; a prioridade da semana é extinguir feriados. Um raciocínio simples, adequado à tocante singeleza das nossas cabecinhas: com menos feriados, vamos trabalhar mais. Se trabalharmos mais, vamos produzir mais, logo não há que hesitar — certo?»
