

Barranco de Cegos, de Alves Redol (1961)
Domingo à Tarde, de Fernando Namora (1961)
Angústia para o Jantar, de Luís de Sttau Monteiro (1961)
Viver com os Outros, de Isabel da Nóbrega (1964)
A Torre da Barbela, de Ruben A. (1964)
Alegria Breve, de Vergílio Ferreira (1965)
O Delfim, de José Cardoso Pires (1968)
Montedor, de Rentes de Carvalho (1968)
A Noite e o Riso, de Nuno Bragança (1969)

Li apenas cinco. De alguns, quase nada recordo. Mas foram lidos, algum efeito houve.
Cinco em nove é muito bom.
Bom dia Pedro Correia
Estou ainda ignorante quanto a 3, Torre da Barbela, A noite e o riso, Montedor. Tenho particular “estima” por Pires, Virgílio, Redol. Sou suspeito quanto a Namora, pela ligação à aldeia de Monsanto. Bom fim de semana. Saúde.
António Cabral
Este é, para mim, um dos melhores romances de Namora – apenas ultrapassado por ‘O Trigo e o Joio’. Poucos anos depois, originou uma bela adaptação cinematográfica – o filme homónimo realizado pelo saudoso António de Macedo, com Rui de Carvalho e Isabel de Castro nos principais papéis.
A década de 60 propiciou para mim os melhores romances de Redol, Ruben e Pires. Estes, aqui mencionados.
Haveria alguns outros que poderia ter mencionado aqui. Hesitei, por exemplo, na inclusão de ‘A Noite e o Riso’, aliás recentemente reeditado. Poderia trazer antes ‘O Secreto Adeus’, de Baptista-Bastos, Ou ‘O Físico Prodigioso’, originalíssima novela de Jorge de Sena.
Isabel da Nóbrega, recentemente falecida, legou-nos esta obra-prima construída só com diálogos. Algo que parece fácil mas é muito difícil de conseguir num romance.
Assim que puder, se me permite a sugestão, leia ‘Montedor’. Verá que vale a pena.
Saúde para si também, meu caro.
Não me recordo em quais dos do Namora aparece aquela ‘o alentejano não cumprimenta o padre por não o conhecer de lado nenhum’, não será exatamente assim, mas julgo ser a comparar com o nortenho que atravessa a estrada para beijar a mão do padre.
Isso é tudo muito redutor. E quase caricatural. Há alentejanos muito mais crentes do que gente do norte. Apenas manifestam essa crença de outra forma. Aliás a socialização do alentejano é diferente em quase tudo. Até na música: só os homens cantam, não há mulheres.
Se essa frase que aqui traz é de um romance de Namora, talvez seja d’ O Trigo e o Joio. Para mim, o melhor romance dele.
Não será bem assim.
As mulheres também cantam porque também trabalhavam nas ceifas, o grupo das cantadeiras do Alvito é muito antigo.
Também o viver nos “Montes” sem a igreja paroquial por perto, não lhes puxou a grande religiosidade quotidiana.
Sim, sobretudo no Baixo Alentejo interior rural, correspondente em parte ao distrito de Beja. Mas o Alentejo é muito mais vasto: há diferenças, até de pronúncia, entre o Alentejo litoral e o Alentejo junto à raia, entre o Baixo e o Alto Alentejo. Enfim, uma região com diversas facetas longe dos redutores estereótipos em que alguns querem encerrá-la.
Há sempre coisas novas a descobrir no Alentejo.
Belíssimo filme, a adaptação do António de Macedo. Vi-o há uns tempos na Cinemateca.
Um dos maiores privilégios da minha vida foi ter conhecido e convivido amiúde com o António de Macedo nos últimos dez anos de vida dele. Um homem extraordinário, que deixou muitas saudades a todos os que o conheceram.
É verdade, João. ‘Domingo à Tarde’ é um filme que mescla preto-e-branco com cenas cruciais a cores que fazem todo o sentido naquela narrativa cheia de concentração dramática. Interpretada com excelência pelos dois actores principais.
Tive também o privilégio de conhecer pessoalmente o António de Macedo e de ter até trocado com ele alguma correspondência digital. Ele era leitor regular do DELITO, o que muito me satisfez.
Em boa hora lhe disse o que pensava sobre a adaptação que ele fez do ‘Domingo à Tarde’: capta tão bem o espírito do romance que chega até a excedê-lo.
Nós, portugueses, temos o defeito de guardarmos os elogios para o momento fúnebre. Não posso estar mais em desacordo. E pratico esse desacordo sempre que entendo, cada vez mais.
Não li Montedor nem Viver com os Outros (nunca li Isabel da Nóbrega). Gosto imenso de A Noite e o Riso mas pendo para A Torre de Barbela, que reli há pouco tempo e é esplêndido.
Foi um romance que me conquistou como leitor. Travámos um duelo renhido até por volta da página 40 e depois vi-me forçado a levantar a bandeira branca em sinal de rendição.
E escrevi sobre ele aqui.
‘A Noite e o Riso’ tem vários momentos deliciosos. Recordo-me de o ler numas férias algarvias e de rir à gargalhada em plena praia. Mas falha, quanto a mim, como narrativa global.
O editor desse livro deveria ter sugerido ao Nuno Bragança para limar a escrita. Cortar pelo menos 50 ou 60 páginas.
Não percas ‘Montedor’, quando puderes.
‘Viver Com os Outros’, romance todo escrito em discurso directo, é um prodígio de técnica e um poderoso retrato do desencanto da burguesia lisboeta com o Estado Novo naquela década final do salazarismo.
Retrato social, logo retrato político também. De gente da classe média-alta que se sentia apenas europeia e sonhava inregrar a elite do continente. Ser da CEE era a aspiração máxima dessa gente.
Impossível, já então, conciliar a retórica da “pátria pluricontinental e multirracial” com estes filhos da geração que mais apoiou Salazar mas que já estavam claramente divorciados dela. Nenhum queria saber de África nem do império “de Minho a Timor”.
Li “A Noite e o Riso” aos 20 e picos, gostei imenso mas não tenho memória suficiente para avaliar dessa necessidade de podar o texto. Terei que voltar, está nos planos – reli em 21 “Estação” e “Do Fim do Mundo”, segue-se este. De Rentes de Carvalho só li 2 livros, “Com os Holandeses” que bastante me desiludiu, esperava algo mais. E depois, há três anos, o “Ernestina” que é, mesmo, muito bom. Irei a esse Montedor.
Vais ver que gostas.
Eu andei um pouco ao contrário. Li ‘Montedor’ primeiro – e logo me abriu horizontes. Li ‘Ernestina’ depois – e consolidou o que tinha lido antes, como se fosse não apenas literatura, mas arquitectura.
Rentes de Carvalho é mais que um escritor: é um verdadeiro autor, com personalidade muito própria. Soube fazer essa complexa simbiose entre vida e literatura, muito mais difícil do que se imagina.
Além de ser nosso confrade da blogosfera.
Activo, nada passivo. De passivos está a blogosfera cheia.
Vejo que não se preocupa com as quotas. Os meus parabéns, eu também não, trato homens e mulheres da mesma maneira.
Não percebi o seu comentário. O que têm as quotas a ver com mérito literário?
Nesta época havia muito menos mulheres a escrever, como é sabido. Agustina, Fernanda Botelho, Natália Correia, Graça Pina de Morais, Maria Velho da Costa – poucas mais.
Muitas mulheres cheias de talento ficavam, tantas vezes, a coser meias e a fazer o almoço aos companheiros-maridos escritores. E a tratar-lhes dos filhos enquanto vários deles varriam as noites lisboetas de bar em bar.
“Não percebi o seu comentário.” Será que não me exprimi bem?
Já li artigos em que se reivindica, de forma mais ou menos aberta, o sistema de quotas para a avaliação do mérito, incluindo para a atribuição do Nobel. Em questões de mérito, acho que só está em causa o mérito e não o sexo, género ou cor da pele. Na lista que apresentou, verifiquei que só estava uma mulher (Isabel da Nóbrega) donde concluí (bem ou mal?) que só teve em considerarão o mérito literário. Há quem pense que nestas listas o número de mulheres deve ser igual ao de homens. Pretos, ciganos, homossexuais, não sei como fazem as contas.
Não sou a favor de quotas.
Pareceu-me que estávamos de acordo, daí o meu comentário: “vejo que não se preocupa com as quotas….”
Desculpe lá, mas isso não tem nada a ver com o que escrevi.
Estou a fazer um inventário daqueles que são, para mim, os melhores romances portugueses da década 1961/1970.
Você vem contra-argumentar usando a retórica do século XXI e questões do século XXI, relacionadas nomeadamente com esse movimento que quer “cancelar a cultura”.
É um anacronismo.
Na década de 60, em Portugal, nada disso existia. E as mulheres, como já referi, na esmagadora maioria não podiam revelar dotes literários porque passavam o tempo a cozer as refeições e a coser a roupa dos escritores “machos” – aliás quase todos de esquerda. E esses tais eram incapazes, quase sempre, de enaltecer talentos literários femininos. Tinham até, alguns deles, outras mulheres aspirantes a escritoras sempre prontas a gabar-lhes o mega-génio (que em diversos casos nunca existiu).
Isto não é matéria de opinião, mas de facto.
“O que têm as quotas a ver com mérito literário?” Nada.
Concordo também com o seu comentário ao meu comentário.
Nada. Nisso, claro, estamos de acordo.
Não conheço todos, mas destaco “Barranco de Cegos” e a “Torre da Barbela”. Gosto muito de Cardoso Pires, mas “O Delfim” não é dos predilectos.
À sua lista, atrevo-me a acrescentar “Estátua de Sal”, de Maria Ondina Braga. Uma escritora injustamente esquecida e cuja obra merecia bem maior reconhecimento.
Injustamente esquecida, diz bem. Não conheço esse romance, mas – até por isso – agradeço-lhe a sugestão.
Concordo consigo: ‘Barranco de Cegos’ e ‘A Torre da Barbela’ são dois excelentes romances. Dos melhores do século, sem dúvida. Já tive oportunidade de escrever sobre ambos detalhadamente aqui no blogue.