DELITO há dez anos


Pedro Correia,

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João Carvalho: «Percebe-se agora melhor por que razões o poder local precisa de mudar, depois da discussão do tema ontem à noite na RTP. É uma necessidade que já se arrasta há muito e que urge reparar de raiz e a partir de um novo mapa. A discussão de ontem provou amplamente o quanto o poder local está enquistado, como se viu pelos muitos dinossauros nervosos presentes numa plateia com contornos assustadores de parque jurássico.»

 

José António Abreu: «Estou a ver o ‘Prós e Contras’ sobre a reforma da Administração Local há três quartos de hora. Quase todos os autarcas presentes – oh, surpresa – estão contra. Um até conseguiu defender a regionalização (e obteve um aplauso da audiência). Apenas o Presidente da Câmara das Caldas da Rainha referiu o óbvio: por falta de dinheiro, a mudança não é opcional.»

 

Laura Ramos: «Muitos fazem, e fizeram, obras notáveis. Mas outros tantos líderes tornaram-se, passada a frescura inicial, numa das forças mais conservadoras deste país. Como se a bandeira de eleitos lhes desse uma virtude original e lhes outorgasse o direito de passar ao lado do estatuto de administradores nacionais e das urgentes reformas que se nos impõem.»

 

Rui Rocha: «No estado actual do país, existe uma única razão para assinalar o 5 de Outubro: o facto de não sermos uma monarquia. A república, esta que temos, exala um insuportável cheiro a bafio. Mas, não a trocava pelas lantejoulas e o néon de uma qualquer ideia de predestinação. Isto dito, neste preciso momento, não há nada mais a comemorar e há tudo para reflectir. O decoro imporia que o dia de amanhã se passasse em recolhimento e  meditação. E, sobre o ruído obsceno das fanfarras e o semblante soerguido dos altos dignitários, melhor seria que se impusesse o silêncio da contrição e um piscar de olho honesto ao futuro.»

 

Eu: «Alguns dos escritores portugueses actuais apressam-se a chegar em primeiro lugar à escrita em “acordês”, esquecendo as responsabilidades que têm na defesa da norma ortográfica clássica, baseada na etimologia, como sucede na generalidade das línguas cultas. Que contraste entre este conformismo dos nossos dias e a oposição tenaz que alguns dos nossos maiores escritores do século XX, como Miguel Torga, Sophia de Mello Breyner Andresen e Vergílio Ferreira, moveram ao famigerado “acordo” de 1990. Honrando uma longa tradição de rebeldia, iniciada por Fernando Pessoa e outros membros da geração Orpheu contra a reforma ortográfica de 1911.»

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