
A capa desta última “Sábado” é ordinária, abjecta. Remete para um texto da jornalista Maria Henrique Espada, que levou o algo desengraçado título “34 Histórias do Senhor 34% em Lisboa”. Mas tem uma característica interessante, rara: tudo nela provém do texto mas não tem nada do que está no texto. Pois a capa transmuta os elementos que combina. É assim alquímica. E nisso demoníaca, pois apenas os desvirtua.
De facto, pode-se gostar ou desgostar do texto de Espada mas tem de se reconhecê-lo como curial. Trata-se de uma breve biografia do novo presidente da câmara lisboeta, num registo que é comum na imprensa e, julgo, de agrado dos leitores: isso de mesclar alguns detalhes da vida pessoal com o trajecto profissional e político daqueles que ascendem a posições de destaque. O trabalho assenta numa conversa com Moedas, já após as eleições, e em material de arquivo de imprensa, com ênfase em pretéritas declarações dele próprio. E se a abordagem de Espada é algo neutral, pois o texto não é um panegírico, nela até se detecta alguma simpatia para com o seu biografado. Ou, pelo menos, nem no explicitado nem num hipotético sub-texto se notam verrina ou alçapões para especulações avessas.
Quantos aos elementos apostos na capa, a tal poção alquímica: o texto alude à infância bejense de Moedas e lembra a sua alcunha de miúdo, mas sem qualquer malvadez. Pois quase todas tivemos alcunhas em miúdos – os mais pequenos são (quase) sempre os “minorcas” ou “inhos” – e isso é um tópico neste tipo de textos. E refere o episódio conjugal mas sem nada de sumarento, de espreitadela moralmente indevida: ecoa declarações do próprio Moedas aludindo aos efeitos pessoais do excesso de trabalho (aquando no governo), aludindo a problemas tão comuns entre os casais. Também a nota sobre o alcoolismo paterno assenta em descomprometidas declarações de Moedas, sendo que o seu pai é referido e citado no texto com respeito e até desvelo. Tal como a doença da irmã não é dramatizada mas surge no âmbito de um bom ambiente familiar. Finalmente, mesmo a referência aos “negócios imobiliários” surge plácida, inserida no percurso profissional de Moedas e sem qualquer alusão especulativa sobre um assunto que poderia (e poderá) dar mais azo à maledicência, isso do presidente da câmara ter experiência nessa actividade económica. Ou seja, vejo a indignação com esta capa no twitter, fb e no meu whatsapp. Mas presumo – ainda que não conheça Maria Henrique Espada e nada saiba sobre os procedimentos internos na “Sábado” – que a pessoa mais incomodada com a capa será a jornalista, ela-própria. Com o que nela conspurcaram o seu trabalho.
Será certo que a feitura desta capa pretende torná-la comercialmente apelativa, incrementar vendas e tráfego electrónico. E nisso terá algum resultado, momentâneo. Mas é evidente que tem outra força motriz, um azedume revanchista, que procura achincalhar alguém que surpreendeu a paz podre dominante. E os seus fluxos redistributivos. O qual incrementa este ambiente político que convoca direcções editoriais ao denegrir e/ou apoucar das figuras de oposição. Em verdadeiras campanhas orquestradas – como, em verdadeira via obscurantista, um consagrado avençado da “Sábado” quer negar. Cumpre-nos punir estas vergonhas, negando aos produtos dessa imprensa a compra e os clics. Mas também olhando com desdém esses colunistas, constantes ou episódicos, que (se) abrilhantam na “Sábado”, sempre alcandorados a estatutos críticos, escavando estratégias e defeitos alheios. Mas que agora, hoje na internet, para a semana na próxima edição da “Sábado”, se calarão, incapazes por doença de conivência de se demarcarem desta abjecção. Desta, repito-me, alquimia demoníaca.

Que nojo. Mas é sempre bom saber quando a gentalha mostra as suas verdadeiras cores.
é mais o negrume
a pessoa mais incomodada com a capa será a jornalista, ela-própria. Com o que nela conspurcaram o seu trabalho.
Não se iluda, jpt. Quem faria o título e os destaques se não a própria jornalista?
Pode ser que eu esteja iludido. Eu botei no texto que nem conheço a jornalista nem os procedimentos internos da revista. Mas pelo que sei do jornalismo – entre filmes americanos e um punhado de jornalistas que conheci ao longo da vida – a responsabilidade editorial sobre capas/primeiras páginas, paginação e design ultrapassa os repórteres.
Talvez.. é uma dúvida simpática.
Cavalheiresca, por assim dizer…
A capa é muita boa
(a esconder a linha no fundo à esquerda)
Uma gargalhada minha. V. que crer que nem sequer tinha reparado nisso? Nem no que na revista está escrito sobre isso? Não há dúvida, tem razão…
Sinceramente não percebo este indignação então o Moedas não pode ter aventuras e ser apelidado de Moedinhas. A liberdade de imprensa esta cada vez mais cinzenta. Está na hora do jpt deixar de ser um padreco moralista depois do que andou a dizer do Merdinas.
Maria Rita
Uma socranette abespinhada? Tá bem…
Como sempre, um socialista deturpa a realidade — e quando é a vez deles, tentem sempre moldá-la ao seu enviesamento, punindo e proibindo.
Ninguém está a dizer que não pode ser feito, apenas que é nojento fazê-lo. É nojento, próprio da qualidade da gente que o faz. Portanto está bem.
V. V. tem razão no que aponta, para muitos (decerto porque sentem assim e talvez mesmo pensem) criticar algo é como se se apelasse à sua proibição. Penso bem o contrário: o proibido (ou o punível, o que é algo diferente) é demasiado abrangente. Mas os actos discursivos (na imprensa ou alhures) são criticáveis. É só isso.
Lisboa volta a encontrar-se com Abecassis.
não me parece
É a esposa do eleito.
Sorrio. Está certo, eu não fizera a ligação…
Quem sabe se Lisboa virá a reproduzir o fenómeno de Vila Verde (distrito de Braga)?…
Não sei que seja…
Muito, muito bom! AL
Obrigado, cara AL
Cumpre-nos punir estas vergonhas, negando aos produtos dessa imprensa a compra e os clics.
Mas o próprio jpt clicou (ou comprou), pois demonstra ter lido o artigo para o qual a capa remetia. Então vem agora desaconselhar aquilo que ele próprio já fez?
(Eu não cliquei nem comprei.)
Comentador balio, tamanha foi a indignação de pessoas próximas e a minha estupefacção diante da capa que fui ler. Com toda a certeza que – por mais literal que seja a sua habitual abordagem aos textos – que não advogará a atitude de criticar uma publicação (ainda por cima negativamente) sem a ler. Aliás a leitura permitiu-me perceber o que refiro no postal, a uma capa desagradabilíssima corresponde um texto decente. E sim, é sobre uma leitura que me permito dizer que a única forma democrática de sancionar desvarios editoriais é não adquirir as publicações – trata-se de um periódico, não de uma obra única.
Esta Sábado parece a TV Guia com a capa das novelas
Rio-me, uma incisiva e curta crítica, mais eficaz do que o lençol que eu botei
Face à capa e ao postal, “Diz o roto para o nu: de que te vestes tu?”
Roto, visto-me de uma santa paciência.