Meio século de magia no ecrã


Pedro Correia,

 

Há precisamente meio século, o cinema registou um dos seus mais memoráveis anos de sempre, culminando aquela que foi provavelmente a melhor década da Sétima Arte, com quase todos os cineastas pioneiros ainda em actividade – Charles Chaplin, John Ford, Fritz Lang, Alfred Hitchcok – enquanto uma geração de jovens realizadores, vários dos quais oriundos da televisão, como Sidney Lumet e John Frankenheimer, começava a mostrar o seu talento. Foi também a década que assistiu à verdadeira universalização do cinema como forma de expressão artística, com obras de Ingmar Bergman, Federico Fellini, Andrzej Wajda, Louis Malle, Alain Resnais, Tony Richardson, Akira Kurosawa, Michelangelo Antonioni e tantos outros.

Esse fabuloso ano de 1959 assinalou o arranque de um dos mais originais movimentos de sempre do cinema – a Nouvelle Vague, com as longas-metragens seminais de François Truffaut (Os 400 Golpes) e Jean-Luc Godard (O Acossado). Depois delas nada ficaria como dantes. O olhar errante de Jean-Pierre Léaud na película de Truffaut permanecerá para sempre impresso na memória do espectador, tal como Jean-Paul Belmondo parodiando Bogart no filme de Godard, que reinventou a linguagem cinematográfica.

Foi também o ano do apogeu de todos os géneros. O thriller, com a inimitável Intriga Internacional, de Hitchcock. O western, com o assombroso Rio Bravo, de Howard Hawks. A comédia, com o genial Quanto Mais Quente Melhor, de Billy Wilder. O épico, com o monumental Ben-Hur, de William Wyler. O filme de guerra, com essa lapidar película que é A Balada do Soldado, do soviético Grigori Chukhrai. E até o musical, recriado com todo o prodígio melódico e rítmico de que só os brasileiros são capazes em Orfeu Negro, rodado pelo francês Marcel Camus nas favelas do Rio de Janeiro – o filme que revelou ao mundo o talento de Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes.

E houve ainda, nessa década, o mais feliz cruzamento de várias gerações de actores. Desde os que vinham quase dos primórdios do cinema, como Gary Cooper, Joan Crawford, John Wayne e Marlene Dietrich, até à primeira geração formada na escola do Método, que incluiu Marlon Brando e Paul Newman. Foi a década das figuras trágicas, como Marilyn Monroe,  James Dean e Montgomery Clift. E também de novas divas, verdadeiramente intemporais – Audrey Hepburn, Grace Kelly, Elizabeth Taylor. Foi ainda um tempo em que se provou ser possível o estrelato muito para além das fronteiras de Hollywood, com a projecção internacional de actores italianos como Marcello Mastroianni e Sophia Loren, japoneses como Toshiro Mifune, franceses como Jeanne Moreau e Gérard Philipe, suecos como Ingrid Thulin e Max von Sydow.

Uma década que começou bem e terminou ainda melhor. Quando a vida era inseparável do cinema e este era a melhor expressão da vida.

12 comentários em “Meio século de magia no ecrã”

  1. Pedro, obrigada pelo seu excelente texto – é sempre bom lembrar essas grandes “fitas” da década em que eu nasci… Há dias revi “Hiroshima meu Amor” a 1ª longa metragem de Alain Resnais , também, do ano de 1959 – foi, realmente, um ano muito próspero…

    1. Foi uma colheita excelente, Maria. E julgo-me insuspeito: sou da ‘colheita’ da década seguinte.
      (tem razão: ‘Hiroxima, Meu Amor’ é um dos melhores filmes da década de 50)

    1. Um filme que se revê sempre com imenso prazer. E que tem talvez a melhor frase final da história do cinema: “Nobody’s perfect”. Quem diz que a Marilyn era fraca actriz certamente nunca viu este filme.

  2. “Quando a vida era inseparável do cinema e este era a melhor expressão da vida”. Agora é mais ao contrário, é a vida que anda atrás do cinema…

    Muito bem lembrado.

    1. Quando puderes vê, Fonte Próxima. Pode ser que a Cinemateca organize um ciclo sobre o cinema de há meio século. Esses filmes hão-de ser recuperados para os cinéfilos contemporâneos.

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