
Alice nas Cidades, fascinante película de Wim Wenders estreada em 1974, inclui uma cena no alto do Empire State Building. Alice, a miúda mencionada no título, espreita Nova Iorque por uma lente de longo alcance. Recortando-se na linha do horizonte, as malogradas Torres Gémeas.
Basta esta cena para inserir o filme num patamar histórico: remete-nos para um mundo que já não existe. Wenders parece tê-lo rodado com esta premonição – tanto assim que optou pelo preto-e-branco, à época já anacrónico. Alice nas Cidades pertence ao século XX, que terminou a 11 de Setembro de 2001. E no entanto existe ali algo do nosso tempo: a errância, o desenraizamento, a desagregação dos núcleos familiares. Uma certa solidão existencial ditada pela fragilidade dos impérios e das ideologias. Revemos aqueles edifícios construídos para assaltar os céus, domínio dos deuses: vieram abaixo num par de horas. Como eles, tantas certezas inabaláveis cederam lugar à dúvida.
O essencial permanece invisível ao nosso olhar. Não há binóculo que o desvende.
Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana.

No mesmo contexto, outro sinal de continuidade na ruptura: Peter Handke.
Sim, faz sentido.
Ainda dentro do mesmo contexto: o regresso (dos protagonistas) à Europa – premonição ou ilusão?
Regresso às origens. Mas nada é o que já foi.
O essencial. Bem o disse Saint-Exupéry.
Verdade então, verdade agora.
“O essencial permanece invisível ao nosso olhar”. Aliás, estou em crer que é a descrença no invisível – no bem e no belo – que o torna invisível.
Talvez.
Há umas centenas de anos atrás um Pedro Correia Bizantino terá escrito igual crónica depois de ver a até então inexpugnável Constantinopla desfazer-se perante os canhões turcos.
O Mundo tende a mudar. Não sei se para melhor ou pior, mas certamente para algo diferente.
É bem possível. Só que a mudança tornou-se vertiginosa. E, também por isso, mais imprevisível.
É verdade que as coisas acontecem mais depressa. Talvez por isso os impérios durem menos tempo. Imprevisível sempre terá sido, os romanos devem ter pensado o mesmo quando uns barbudos a cavalo entraram por ali dentro e rebentaram o status quo.
Mas isso das previsões é que está errado, já os gregos pensavam que podiam prever o futuro, mas os Deuses nem sempre seguem o acordado. Hoje não temos Deuses com quem negociar, mas temos ciência, conhecimento da História, e um batalhão de analistas e peritos, por isso pensamos ser capazes de prever o futuro. Funciona mais ou menos com a meteorologia, mas só.
Lá está. Tanta instrução, tanta ciência (até “ciência política”…), tanto instrumento de aferição, vários séculos depois, para afinal nada termos avançado nisso.
Os deuses compram quando dão, como diria Pessoa. E disse mesmo.
o século XX, que terminou a 11 de Setembro de 2001
Disparate. Terminou a 31 de dezembro de 2000.
Raio de Américo-centrismo. O mundo é mais do que os EUA.
É triste não perceber que as consequências do 11/9 se fazem sentir em quase todo o mundo e não apenas nos EUA.
Sem inteligência e sem nome. Nada imagino de mais triste.
Há quem prefira manter a cabeça enterrada na areia. E até faça gala disso.
as consequências do 11/9 se fazem sentir em quase todo o mundo e não apenas nos EUA
Não. Fazem-se sentir no Afeganistão (um país muito marginal e de pouquíssima importância), no Iraque, e pouco mais.
Nos países mais populosos do mundo (China e Índia), e em África, as consequências do 9/11 são pouco mais que nulas.
Essa parece a “visão do mundo” de um pinguim da Antárctida.
Como consequência do 11/9 os EUA desenvolveram “software” de vigilância incluindo reconhecimento facial. Como muitos outros, esse “software” foi pirateado por chineses que não só o aperfeiçoaram como o integraram em IA. Isso afecta quotidianamente algumas centenas de milhões de chineses (practicamente todas as cidades médias e grandes).
Toda a liberdade de practicamente todo o mundo desenvolvido ou em vias de desenvolvimento, está restringida e ameaçada “de facto” por todos os desenvolvimentos de programas de segurança que o 11/9 originou. A última descoberta foi o programa desenvolvido por Israel que pirateava “smartphones” e, como evidente, não era apenas usado no Afeganistão e no Iraque.
Se não sabe fique a saber que a Índia é actualmente o país mais avançado em “software” comercial por encomenda – desenvolvem módulos incluindo para Sillicon Valley – e, sem o saber mas dada a iliberalidade de Modi, muito duvido que não existam utilizações de segurança sem prévia autorização judicial também na Índia.
Como consequência do 11/9 os EUA desenvolveram “software” de vigilância
Esse software teria sido desenvolvido de qualquer forma, com ou sem 11 de Setembro. Estando madura a tecnologia para o desenvolver, ele seria inevitavelmente desenvolvido, mais ano ou menos ano.
esse “software” foi pirateado por chineses
Tenho fortes dúvidas que os chineses o tenham pirateado e não o tenham eles mesmos inventado. Com ou sem 11 de Setembro, os chineses teriam inventado tal software mais cedo do que tarde.
Veremos se não dizemos o mesmo da pandemia. Será o final do Sec XXI?
Quer dizer, falar em final de Sec XX por causa da queda das Torres e de tudo o que daí veio, como a perda (aceite) de liberdades e a ascenção da sociedade democrática securitária, podíamos pensar que o século XX fora de paz e harmonia. Começou praticamente com a primeira guerra mecanizada a grande escala, tivemos os regimes fascistas com especial nota para os Nazis, que “industrializaram e modernizaram” o massacre de franjas de populações, e foi pontuada com mais umas quantas ditaduras que primaram pelos extermínios em massa.
Ao fechar o século a Europa entretanto pacificada, e sem muro, já levava com um conflito nos Balcãs, enquanto na Chechenia havia uma guerra que nos passava um bocado ao lado.
A reacção global ao ataque foi de perplexidade, e as consequências globais, mas certos países infelizmente mais habituados ao fenómeno do terrorismo (Espanha, Inglaterra), ainda que em menor escala, não reagiram com a histeria dos americanos.
E muito do que se discutiu na altura foi fruto do choque inicial, até de encerrar off-shores, ditos como locais privilegiados para esconder os financiamentos destes grupos, se falou.
A “histeria dos americanos” – como você lhe chama, indiferente ao facto de se tratar do maior acto terrorista da História – permitiu-lhes impedir outro 11 de Setembro em território dos EUA.
Quantos atentados não foram impedidos antes e após o 11 de Setembro…
A verdade é que os americanos não estavam habituados a lidar com o fenómeno do terrorismo internacional em solo doméstico. Perdão se um russo, ou mesmo inglês não tem a mesma reacção ao ver um atentado perto de casa.
A histeria, sim, deu credibilidade a duas guerras, ao Patriot Act e a outras acções governativas. As pessoas aceitaram e apoiaram pelo choque. Hoje presenciamos algo semelhante.
Como disse, e o Pedro bem se recordará, até os offshores iam acabar. Só que neste caso nao se reagiu logo e prevaleceu o “bom senso”.
Se o 11 de Setembro foi o maior acto terrorista da história, o que é que podemos chamar aos outros actos de extermínio de massas do século XX?
E o que é que podemos chamar a esta manipulação pandémica a nível mundial?
É triste, mas a história só demonstra que cada geração é uma cobaia involuntária dos avanços tecnológicos da sua época.
E esta época infelizmente é marcada pela tentativa do domínio da mente humana.
Presumo que o seu comentário me foi dirigido por engano.
No entanto aponto-lhe um vício de raciocínio. Se quer criticar a mudança de século em 11/9/2001 proposta por Pedro Correia, o único argumento possível é de que não existiu uma mudança de paradigma suficientemente relevante para justificar essa tese. Assim a argumentação relativa ao que foi ou deixou de ser o séc. XX é irrelevante, impertinente ou falaciosa, como melhor preferir.
P.S. – Pessoalmente até colocaria a mudança política do século em 1990 (1989 queda do muro de Berlim, 1991 queda do regime soviético) que levaria vantagem em termos de mudança de paradigma mas grande desvantagem em desvio do calendário.
O século XX terminou no massacre ocorrido em 11 de Setembro de 2001. O primeiro de muitos “11 de Setembro” deste novo século, que tanto já tem de velho.
Houve muitos outros depois.
Como o de 12 de Outubro de 2002 em Bali.
Como o 11 de Março de 2004 em Madrid.
Como o de 7 de Julho de 2005 em Londres.
Como o de 26 de Novembro de 2008 em Bombaim.
Como o de 13 de Novembro de 2015 em Paris.
Enquanto uns observam o que ocorre no mundo, outros limitam-se a olhar para as folhas do calendário. Sem nada ver.
Opinando sem nome. Como se fossem filhos de pai incógnito.
Os perto de 200 000 mortos nas guerras do Iraque. O nº de mortos nestes últimos anos no Afeganistão. Os danos colaterais dos bombardeamentos cirúrgicos sobre alvos que nos dizem ser terroristas, sem nunca se apresentarem provas.
As invasões do Afeganistão pelo Ocidente começaram no século XIX. Para os afegãos o 11 de setembro acaba por não fazer muita diferença. Se não fosse esse pretexto era outro.
A grande diferença da matança do 11 de setembro em relação às matanças das guerras constantes promovidas no resto do mundo é que esta foi transmitida em direto na TV pelas grandes cadeias de noticias e entretinimento. Não há qualquer moral aqui, em nenhuma delas.
Qual guerra com o Iraque? A guerra Irão-Iraque, que provocou mais um milhão de mortos? raq-War
https://www.britannica.com/event/Iran-I
É curioso: os que bradam contra o “américo-centrismo” são os mesmos que ignoram tudo quanto não ocorre no mundo em torno do eixo norte-americano.
Nem poderiam fazê-lo porque raciocinam sempre em função dele. Para se exibirem, acto contínuo, na margem oposta.
Vinte anos depois, nem um lamento pelas vítimas inocentes do massacre em Nova Iorque. Onde morreram pessoas de mais de 90 nacionalidades. s_of_the_September_11_attacks
https://en.wikipedia.org/wiki/Casualtie
“Os perto de 200 000 mortos nas guerras do Iraque.”
E os mais de 1 milhão de mortos provocados pelo 25 de Abril? também funciona da mesma maneira.
O Jo ignora propositadamente que a maior parte dos mortos no Iraque foram provocadas por Islamistas um parte Iraquainos outra importados a explodirem-se em praças, pontes, mercados e até mesquitas.
O 11 de Setembro não marca o fim do século XX, o 11 de Setembro aconteceu na idade média, em Março de 2020 foi o início do Renascimento e em Portugal foi criada a santa inquisição para combater a heresia, a blasfémia, e outros costumes desviantes.
E graças ao Torquemada português estamos a duas semanas de atingir a idade das trevas.
Hoje é dia de um marco quase histórico em Portugal: o fim do “uso obrigatório” (que nunca o foi) de máscaras na via pública.
Os portugueses reagiram como?
Saindo à rua com máscaras. E criticando o governo por “recuar” no uso compulsivo e permanente de máscaras (que nunca existiu).
Este é o mundo que o 11 de Setembro inaugurou.
Um mundo em que quase toda a gente está disposta a sacrificar parcelas crescentes de liberdade em troca de parcelas crescentes de seguranca, real ou virtual.
Um mundo onde o medo impera.
” Um mundo onde o medo impera.”
Já muito se escreveu sobre a introdução do medo nas sociedades, mas nunca pensei que com tanta tecnologia fosse possível actualmente a sua disseminação a nível global.
É assustador saber que em pleno século XXI, o prémio dado a um cumpridor das normas sanitárias, é assistir à discriminação e castigo daquele que não cumpre essas normas. Qual é a diferença para um apedrejamento público?
Nas várias imagens que passaram sobre o 09/11,fixei um diálogo na rua já depois dos ataques. Dizia um cidadão para outro( que era arquiteto),que não faltaria muito para as torres caírem,ao que o arquiteto respondeu que nem pensar,ele sabia o que dizia…
Isso vem muito ao encontro do que escrevi. Sobre as tais certezas inabaláveis daquela gente inchada de império e arrotando ideologia.
A realidade é sempre mais complexa do que qualquer cartilha.
Foi o despertar daquele sentimento de conforto, da inocência de espírito em que se vivia para a crua realidade da mudança, com repercussões a nível mundial.
A guerra é velha como o mundo.
Mas esta, do século XXI, é nova. Pelo menos no sentido de ser diferente.
Com inimigos sem rosto, munidos de um fanatismo ancestral e da tecnologia mais sofisticada. Sem bandeiras, sem fronteiras.
Apenas movidos pelo ódio ao Outro.
E o Outro somos nós.
Também da Primeira Guerra Mundial foi dito que era nova, em diversos aspectos.
E nada pode ainda comparar-se à gigantesca tragédia que foi a Segunda.
De “Alice nas cidades” pode dizer-se que pertence mais correctamente à segunda parte do séc. XX (quando muito, juntando-lhe também o período simbolizado por Fitzgerald); e isto, numa perspectiva bastante ocidentalizada (que, afinal, nos é própria).
Claro que o filme é da segunda metade do século XX. Foi estreado em 1974.
Nunca poderia ser do século XXI, mesmo que ignorássemos a data da estreia. Basta esta cena com as Torres Gémeas, como assinalo no texto. O fim das torres assinala simbolicamente o fim do século XX.
“Foi o despertar daquele sentimento de conforto, da inocência de espírito em que se vivia”
O tempo do Fim da História, onde supostamente todos os povos quereriam a Democracia Liberal triunfante. Assim pareceu por momentos.
As pulsões da humanidade são mais fortes que as teorias.
Há já uma geração para quem este postal, e a vivência que ele evoca, pertence a um livro de história ou a um museu.
Isso mesmo.
A modernidade de anteontem é o museu de amanhã.
O post dá um bom pretexto para ir à procura do último de Edgar Morin: Lições de um século de vida.
Se assim for, muito me satisfaz.
As famílias sólidas vivem em torno de uma casa. Tombando a casa, desaba a família. As Torres Gémeas são o símbolo da nação norte-americana e dos valores do mundo ocidental nos moldes que o conhecíamos. Não é difícil imaginar a comoção que resultaria da destruição da Torre Eiffel – estrutura inicialmente concebida com carácter provisório -, tal como se percebe a necessidade do restauro das Portas de Brandeburgo. É essencial manter viva a memória através dos símbolos: o tal invisível que serve de referência ou cola ao que ainda resta do velho mundo.
Plenamente de acordo, Isabel.
Ponham os olhos na Bíblia e leiam o mito de Babel. A história vem muito de trás, afinal. É mesmo um relato fundador.
Há muitos relatos fundadores na Bíblia. Ler para crer.
tolices na cidade
ou medina du puertu carago!
Alice na cidade das medinavilhas.