DELITO há dez anos


Pedro Correia,

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Ana Lima: «Fintando os autocarros, as crianças brincam junto ao passeio e circulam nas suas bicicletas, enquanto os pais, lojistas, as observam e conversam, numa língua que não identifico, com quem trabalha na loja ao lado, até que um cliente resolve perguntar o preço de um dedal decorado com a Torre de Belém. Pelo meio, uma loja de jogos onde os apostadores deixam as suas esperanças depositadas até à semana seguinte ou até ao próximo sorteio. [A Rua do Arsenal, em Lisboa] parece uma rua só com um lado. Mas aqui não há lados certos ou errados.»

 

Ivone Mendes da Silva: «A minha capacidade argumentativa hoje abriu em baixa. Tomei café com um colega que não via há algum tempo.  Queixou-se, com visível tristeza, de que tinha engordado uns quilos em que não conseguiu ter mão. Expus-lhe a minha velha teoria: os homens, ao contrário das mulheres, não engordam: encorpam. O que é uma mais-valia, pois que fragilidades masculinas querem-se na alma e não no corpo. Não consegui convencê-lo.»

 

José António Abreu: «Adora a adrenalina dos jogos de guerra. Pensar em tiros e explosões leva-o a começar a delinear um texto contra os Estados Unidos. Detesta a mentalidade militarista dos americanos, pá. Mas já escreveu tantos posts a cascar nos US of A que o difícil é ser original. Ainda assim, é essencial salientar como os interesses americanos se sobrepõem aos interesses da população mundial. Como os Estados Unidos constituem a pior ditadura da planeta. A única verdadeira ditadura, na realidade. Baseada nos interesses financeiros, no petróleo, na indústria do armamento. Como conseguiram implantar na cabeça das pessoas a necessidade do consumo e da posse de bens materiais. Como as fazem perder tempo com futilidades em vez de se dedicarem a coisas verdadeiramente importantes.»

 

José Maria Gui Pimentel: «Só agora li as sequelas da famosa altercação entre Teresa Caeiro e Alfredo Barroso, que começou quando aquela tratou este por “senhor Alfredo”. Durante o debate, Mário Crespo protagonizou uma moderação em que conseguiu a habilidade de simultaneamente evidenciar a sua larga experiência (não perdendo a calma) e a sua tendência para o ridículo (tentando, qual educador, que os seus pupilos fizessem as pazes em directo). Dias depois, no Expresso (o segundo palco do combate), lançou, no seu estilo sempre diplomático, uma ferroada a Alfredo Barroso: “O surpreendente é que um homem deste calibre tenha consentido em se deixar ofender por não ter sido interpelado por um título académico”.»

 

Leonor Barros: «Nada fez mover o russo. Uma verdadeira parede de aço. Nem sequer um gesto cordial para ajudar nas malas. Não que fosse antipático ou grosseiro, não, ainda não. Uma total ausência de emoção, de sentir, de tudo o que tivesse a ver com a parte sensorial da vida, os músculos da cara hirtos, não sei se também o coração.»

 

Luís M. Jorge: «Em dois meses de Governo muita coisa mudou em Portugal. Os impostos aumentaram, mas só para quem trabalha. O projecto do TGV foi recuperado, mas só para mercadorias. Um ministro tentou intervir na televisão pública, mas só informalmente. A RTP vai ser privatizada, mas só no Canal 2. A Caixa Geral de Depósitos tem mais administradores, mas só por causa do mérito. Um comunista foi trabalhar para a direita, mas só para ganhar dinheiro. Os órfãos de José Sócrates chamaram filhos da puta e nojentos aos adversários políticos, mas só estavam a brincar. É uma nova pátria, um novo desígnio, enfim, uma coisa nunca vista.»

 

Teresa Ribeiro: «Os mais cínicos dirão que é demagogia. Mas passar a mensagem certa na hora certa tem um forte impacto social. Que o digam os markteers. O imposto sobre os ricos não resolve os problemas financeiros que ameaçam a Economia ocidental, mas tem um valor simbólico que não é de desprezar. Por cá dividem-se: uns gemem, outros dizem que sim, enquanto o poder político assobia para o ar.»

 

Eu: «Quando eu tinha a idade do Calvin, vivia-se a última das três décadas prodigiosas do pós-guerra, marcadas pelo maior crescimento económico de que há registo na História – uma era de pleno emprego e de expansão do Estado-providência, pouco propícia a cinismos. Fiz parte da primeira geração formada e formatada pelos ecrãs de televisão, ainda sem reality shows. A ficção televisiva moldava-nos o imaginário: tão depressa cavalgávamos nas pradarias norte-americanas, à semelhança dos heróis do Bonanza, como viajávamos ao encontro de novos universos, tal como víamos em Espaço 1999 ou O Caminho das Estrelas. Éramos crentes, éramos crédulos: o impossível estava ali ao virar da esquina.»

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