De camuflado, na guerra contra o vírus


Pedro Correia,

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Há muito que Portugal não via um militar de camuflado ser protagonista frequente dos noticiários. Parece cena de filme. Ou de outros tempos. Mas acontece agora. Henrique Eduardo Passaláqua de Gouveia e Melo, vice-almirante de 60 anos, supera hoje em popularidade a maioria dos nossos políticos. Porque impôs disciplina e ordem num sector que se tornara notícia por maus motivos. E cumpriu o que prometeu.

Há seis meses era um desconhecido para a esmagadora maioria dos compatriotas. Saiu do anonimato ao assumir a coordenação operacional do plano de vacinação contra a covid-19, no início de Fevereiro, por demissão do anterior titular, que só resistira dois meses em funções. Pairavam imensas dúvidas neste processo que ganhou contornos de emergência nacional: sucediam-se dificuldades no abastecimento, indefinições nas prioridades, situações de vacinação indevida de várias pessoas.

Gouveia e Melo encarou o problema como se liderasse uma operação militar. E estabeleceu metas. A principal ficou na memória colectiva: 8 de Agosto, dia em que 70% da população deveria ter recebido pelo menos uma dose de vacina.

Houve mobilização geral, com sucesso. Num só dia, 6 de Julho, foram ministradas mais de 154 mil vacinas. Portugal tornou-se num dos países europeus com maior taxa de vacinação. Hoje 77% dos residentes no país receberam já pelo menos uma dose e dois terços estão integralmente vacinados. Poucos duvidam: o mérito maior é deste marinheiro habituado a missões difíceis ao comando de fragatas e submarinos. Tem cerca de 31 mil horas de navegação – incluindo mais de 20 mil abaixo do mar.

Surge sempre em cena com o uniforme camuflado que irmana os membros das forças armadas, tornando-o inconfundível na nossa paisagem mediática. Ele diz que o faz por ser prático e esbater rivalidades entre militares dos diferentes ramos. E também para deixar claro que a luta contra a pandemia é uma guerra ainda sem tréguas à vista.

Há dias foi insultado por escassas dezenas de militantes anti-vacina que lhe chamaram «assassino». Ele respondeu em tom adequado: «O negacionismo e o obscurantismo é que são os verdadeiros assassinos. O vírus associado à ignorância e ao medo ainda mata mais.» E seguiu adiante, indiferente aos protestos.

Este homem nascido em Moçambique elege um desígnio estratégico para Portugal: recuperar a nossa secular ligação ao oceano. «Em terra somos pequenos, no mar somos grandes.» Fala com frases simples e que todos percebem. Resiste a banalizar a palavra, demonstrando que sabe comunicar.

Em Maio, Maria Filomena Mónica descreveu-o assim, sem ponta de ironia: «Temos um novo herói: o militar de olhos verdes.» O bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, que também não é de elogio fácil, enaltece-o como «um verdadeiro líder».

O último oficial que envergou camuflado perante os portugueses foi António Ramalho Eanes, em 25 de Novembro de 1975. Meses depois, ascendia a Presidente da República.

 

Texto publicado no semanário Novo

42 comentários em “De camuflado, na guerra contra o vírus”

  1. Boa tarde Pedro Correia
    Conheço-o relativamente bem.
    Não tenho bola de cristal para adivinhar o futuro. Isto dito, e contrariamente ao que já li por aí, ele não deverá facilmente seguir carreira política e menos ainda candidatar-se a PR. Mas são tudo especulações, porque creio que o próprio não estará por agora para aí virado e no PS assim que puderem fazem-lhe a folha. Ouviu algum comentário a condenar os insultos de que ele foi alvo, por parte de António Costa, Ana Catarina Mendes e outros “companhons”?
    Se acontecer o que já aconteceu no passado com a substituição do CEMGFA, em que a legislação levou um forte pontapé por parte de quem não o devia fazer, Gouveia e Melo poderá vir a ser o próximo chefe da Marinha
    António Cabral

    1. Meu caro António, se me permite a contestação, não faria qualquer sentido o PM interromper as férias para se solidarizar com o vice-almirante.
      Por dois motivos:
      – Gouveia e Melo é maior (e vacinado). Mal seria se necessitasse de ver um civil a acorrer em sua defesa. Seria péssimo sinal;
      – Qualquer declaração do PM nesse sentido faria duplicar ou triplicar os protestos. Na vez seguinte em que saísse à rua, Gouveia e Melo teria 60 ou 90 mecos aos berros. Só para aparecerem na televisão e nas redes sociais, que fabricam “heróis” a cada 5 minutos.

  2. “O diário adianta ainda que, até 22 de julho, foram administradas 11 milhões de vacinas, em Portugal. O Infarmed contabilizou 4.015 casos graves de reação adversa, sendo que 1.087 ficaram incapacitados e 68 morreram.” – baixas sem nome, que não vão condecoradas postimamente no próximo 10 de Junho, apenas danos colaterais da “guerra”.

    “No ano de 2020, Julho terminou com 158 novos óbitos com teste positivo ao SARS-CoV-2, quando nenhuma vacina ainda tinha sido administrada em Portugal, já que as primeiras só começaram a ser administradas 5 meses depois, a partir de 27 de Dezembro.
    Com cerca de 12.9 milhões de vacinas administradas, a 1 de Agosto de 2021 o relatório da DGS evidenciou 7 milhões de portugueses vacinados com a 1ª dose (69% da população) e 5.8 milhões com a 2ª dose (57%).
    As elevadas taxas de vacinação não evitaram a subida de casos e óbitos verificados no passado mês de Julho, claramente superiores ao mesmo período em 2020. Com um total de 268 novos óbitos atribuídos à Covid-19, Julho de 2021 termina com um excesso de 110 mortes relativamente ao ano transato.
    Segundo as declarações desta Terça-Feira da Directora-Geral da Saúde, Graça Freitas, a maioria das mortes recentes atribuídas à covid-19 têm mais de 80 anos e têm a vacinação completa.” – é a “guerra” portugueses, é a “guerra”, mas o balanço é muito positivo como se vê.

    “” Ora bem, esta nova informação vem demonstrar que o que parecia ser um certificado de garantia, de que não havia riscos, não é. Aquilo que um certificado pode comprovar é que a pessoa vacinada está protegida e que, provavelmente, não irá desenvolver doença grave, mas no que toca ao conceito de transmissão penso que se deve repensar as estratégias de luta contra a infeção”, defende o médico.” – estamos em “guerra”, os serviços de contra-informação do “inimigo” é que são os culpados porque nos enganaram, mas há que morder a bala e dar o ombro em nome do passaporte.

      1. Que as pessoas sabem usar um motor de pesquisa para chegarem à fonte. É só copiar uma frase completa, colocar na caixa do motor de pesquisa e clicar para pesquisar. Experimente.

  3. Como disse Mark Twain, “Whenever you find yourself on the side of the majority, it is time to pause and reflect.”

  4. Vamos dando uma volta ao submarino a fazer a ideia de graxa, não vão por aí aparecer alterações ou não alterações de voto com aquela “conseguimos dominar o vírus com a vacinação sem problemas”

  5. O vice-almirante Gouveia e Melo é um profissional competente. Fez um bom trabalho e mereceu a ovação. Temos muita gente assim em Portugal, só não estão nos lugares de chefia e decisão. Esses, são normalmente reservados aos amigos (como tinha acontecido anteriormente com o processo de vacinação).
    Dito isto, não gostei de o ouvir a apelar aos jovens para que se se vacinassem. Penso que nessa ocasião extravasou largamente a sua função (que é de coordenar a operação de vacinação para que todos os que desejem o possam ser vacinados com a maior celeridade possível) e a suas competências.
    Não me parece que haja um grande consenso científico em torno da necessidade (e da ética) de vacinar as crianças e os jovens. Eu, pessoalmente, não estou convencida de que vacinar estes grupos etários seja necessário ou aconselhável.
    Noto novamente a tendência moralista dos meios de comunicação social que frequento (jornais e rádio, imagino que a televisão seja pior) ao arrumar na prateleira dos negacionistas todos os que ousem duvidar das orientações governamentais ou desse fantoche chamado DGS.

    1. Discordo. Há um vasto consenso sobre isso, como os números aliás indicam.
      Neste caso a DGS pecou pelo ridículo ao vir a reboque da congénere da Madeira, que se antecipou em dez dias à decisão que viria a ser tomada em Lisboa.

      Questiono-me aliás se não haveria vantagem em transferir a sede nacional da DGS para o Funchal.

        1. Susana acho que os números devem ser estes do Infarmed até 22/7/2021:
          – 4015 casos graves de reação adversa
          – 1087 ficaram incapacitados
          – 68 morreram.

      1. “Esta quarta-feira, quase três dezenas de médicos e outros profissionais de saúde assinaram uma carta a pedir cautela na vacinação dos mais novos. O documento foi enviado a todas as autoridades políticas nacionais e regionais, e às autoridades de saúde, incluindo a Direção-Geral da Saúde e a Autoridade do Medicamento.
        Estudos preliminares apontam para o surgimento de pericardite e miocardite, na sequência da vacinação nesta faixa etária, pelo que os profissionais de saúde consideram que pode estar em causa uma violação do superior interesse das crianças. Os assinantes da carta alegam que se a vacina não traz vantagem à saúde da criança, destina-se só a proteger os mais velhos, vacinar a criança é estar a sujeitá-la a um risco desnecessário.”

        https://www.tsf.pt/portugal/sociedade/se-nao-ha-risco-imediato-porque-vacinar-criancas-jorge-amil-dias-pede-prudencia-13963114.html

        1. Dos gráficos de excesso de mortalidade do EUROMOMO https://www.euromomo.eu/graphs-and-maps/#excess-mortality :
          – 0-14 anos: mortalidade normal, inferior à média em boa parte de 2020 e 2021
          – 15-45 anos: três breves e pequenos picos de excesso de mortalidade em 2020 e 2021 que não o seriam em 2017 quando a curva de mortalidade excessiva andava pelas 1800 mortes
          – 45-? anos : picos de mortalidade excessiva acima de anos anteriores

      2. É tão consensual que cada um faz o que quer. Na Madeira até já querem vacinar a partir dos seis meses de idade. Agora é que é caso para dizer:
        – Já chegámos à Madeira ou quê?
        A talidomida também era um medicamento muito bom para o enjoo das grávidas. Esteve três anos no mercado, veja no que deu até assumirem as responsabilidades.
        Será ético vacinar crianças para proteger adultos? Haverá mesmo consenso? Porque é que os médicos então não quiseram assumir a responsabilidade do atestado?
        Se a vacina não é obrigatória para que é este assédio moral para a tomar, e porque é que temos de assinar um termo de responsabilidade a dizer que a tomamos de livre vontade?
        Não será melhor esperar mais uns meses antes de começar a criar mitos? É que hoje já saiu um estudo que diz que uma pessoa não vacinada mas infectada cria anticorpos mais resistentes do que uma pessoa com a vacinação completa.
        Vamos aguardar serenamente.

        1. Sobre esta questão da ética na vacinação das crianças, que eu considero muitíssimo pertinente, há um texto muito interessante no Observador de Patrícia Fernandes.
          O assédio moral existe de facto e é muito irritante. Quase me arrependo de ter tomado o raio da vacina. 😉

          1. O que me irrita mais é a superioridade moral dos ditos “especialistas “quando apelam à vacinação. Como se quem não a faz em consciência fosse um débil mental.
            Um dos ditos “especialistas ” até aconselhava umas lentes de marca, para óculos, que eliminavam o covid.
            Palavras para quê, é só artistas.

  6. Perante exemplo tão expressivo será o tempo certo para ponderar o regresso do serviço militar obrigatório?
    Três meses bastariam para se educar a autodisciplina, o espirito de grupo, o sentido do bem comum e o dever cumprido.
    Antes isso do que uma juventude ocupada em jogos de novo-riquismo, desvios de carater e facilitismo de vida sem obrigações.

          1. A sério?
            Com a água suja do capitalismo?
            O Cristiano Ronaldo é que tem razão.
            Água.
            (se a mim [a ele] não me toca nada, não estou aqui a fazer publicidade de borla, bebam água, da torneira, que a outra vem numa garrafa de plástico, vai para o mar e engasga as tartarugas).

  7. Meu caro Pedro Correia, oxalá não haja o reverso da medalha!
    No site oficial se não estou em erro prevêem 6 inoculações.
    Chamam-lhe vacinas erradamente.
    Os anticorpos ao fim de 6 meses reduzem-se a 70 a 80%.
    Não há dados oficiais que digam que os não vacinados adquiriram mais anticorpos ou se se ganham ou perdem.
    V.Exª. é uma pessoa que se move bem, ´faça estas perguntas a quem saiba, que trabalha nos laboratórios. Terá ou não a resposta.
    Cumps.

    1. Claro que vai haver reverso , Mark Twain , ali em cima , avisa contra essas coisas de maiorias , neste caso , maiorias conduzidas por uma coisa chamada “comunicação social” ao serviço de políticos que dependem de eleições. e se os discursos e verdades oficiais já eram o que eram no tempo das outras senhoras , imagine-se agora , com dependentes de ” eleitorado” cheio de medo de morrer por causa duma virose benigna para a larga maioria da população. mais depressa lhes caia o céu em cima da cabeça , mas enfim.

  8. A situação em Portugal é tão má que qualquer pessoa que se destaque pela positiva tem logo muita gente a cantar hossanas.
    O Pedro Correia (e outros mais) quer á viva força lançar o vice-almirante para uma guerra que não é nem nunca será a dele.
    O grupelho que se manifestou contra ele até nisso errou, o vice-almirante apenas se limita a cumprir com a missão que lhe deram e não foi pouca ou não tivéssemos nós vislumbrado (para quem ainda estivesse distraído) a sem-vergonhisse e a vitória dos mais mesquinhos sentimentos e vontades da nomenklatura.
    Como se diz acima o assédio moral é imenso e as reacções adversas (graves) virão mais tarde, além de que o Inverno está a chegar e este Verão foi muito soft (está a ser).
    Já tenho as duas doses mas é obvio que qualquer dia até para ir ao hospital vai ser preciso apresentar o “certificado digital” .

    WW

    1. Eu não quero lançar o vice-almirante para lado nenhum. Aliás creio que onde ele se sente melhor é a bordo dum submarino, lá nas profundezas oceânicas.
      Limito-me a observar e a interpretar factos.
      E concordo em absoluto com esta frase dele: «Em terra somos pequenos, no mar somos grandes.»
      Oxalá houvesse muito mais portugueses a pensar assim.

      1. Todos os anos são cada vez mais a sair do rectângulo mas agora já não há directos nas tv nem capas de jornais e também não haverá quando começarem a chegar ao Algarve e a Lisboa.

        P.S. – Já alguém sabe a que velocidade ia o carro do MAI.

        WW

  9. Lembre-se também o impacto positivo que causou a entrada em cena da antiga oficial da Marinha Patrícia Gaspar, como porta-voz da Protecão Civil na época dos terríveis incêndios de 2017. A sua postura e formação militar não disfarçadas foram uma fonte de tranquilidade e orientação no meio do despreparo e incompetência governativa.
    É pena que se tenha deixado apanhar pela engrenagem da máquina socialista.

      1. As únicas competências que o governo Costa valoriza são no domínio da propaganda e do malabarismo financeiro. Em tudo o resto é como na história dos sapos: metidos na panela e cozinhados em lume brando até perderem qualquer esperança de fazerem a diferença e se contentarem com a honraria do posto e respectiva remuneração. Mortos por dentro.

  10. (1) Eu não entendo porque é que o vice-almirante usa camuflado, dado que esse é traje de militares do Exército. O vice-almirante deveria usar a farda branca da Armada.

    (2) O mérito de Portugal estar à frente de outros países na vacinação não é do vice-almirante, e sim dos portugueses, que têm pouca gente que rejeite ser vacinada. Se outros países estão atrasados na vacinação, isso deve-se em boa parte ao facto de muitos dos seus habitantes recusarem ser vacinados.

    1. Quem lhe disse que o camuflado é traje de militares do Exército?
      O camuflado é usado em acções de campanha das Forças Armadas, a farda branca usada pela Armada, no verão, é farda de cerimónia.

      1. Agradeço-lhe a resposta que deu ao anónimo das alíneas. Poupando-me o trabalho de lhe dizer o mesmo.
        É espantosa a ignorância à solta nas redes sociais e caixas de comentários. Pelo menos alguns têm essa noção e escondem o nome, como foi o caso.

  11. Nós portugueses infelizmente não estamos habituados a competência, sobriedade e caracter.

    Alguns militares dignificam não só a farda que envergam como a Nação que representam.

  12. O homem já veio afirmar que não está disponível para aventuras políticas.
    Paciência: continuaremos entregues aos mesmos incompetentes do costume.
    Parece ser o nosso triste fado.

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